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Lobo # 03

Por Alexandre Mandarino

Riders On The Storm

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— Olá, eu sou o Vigia. Minha tarefa é, como sempre, observar os acontecimentos do cosmos, sem jamais intervir ativamente. Também sou encarregado de ordenar sub-plots e flashbacks em uma história e este parece ser o caso aqui. Vamos caminhar juntos pelos misteriosos mares dos interlúdios, antes de presenciarmos a possível morte de um querido mutante terrestre. Comecemos pelo

Interlúdio I
Há cerca de um ano, tempo da Terra


Em um enegrecido canto do cosmos, diversos fragmentos amarelos flutuam, abrigados pela atmosfera rarefeita de um planetóide. Ao fundo, uma figura grande e envolta em trevas os observa atentamente. O brilho que emana de seus olhos vermelhos é a única fonte de luz do local. Após alguns minutos em silêncio, a figura bradou, com voz petrificada:

— Refaça-se, Intermediário.

Os fragmentos reluziram com mais força e deram início a um temporal de movimentos. Dançando pelo ar, os pedaços de energia amarelada pouco a pouco se uniram em uma forma humanóide.

— Onde estou? Quem é você? Por que me trouxe de volta da não-existência?

— Você foi derrotado ridiculamente em sua última batalha, Intermediário. Foi feito em pedaços, desintegrado como se nada fosse. Eu o reconstruí, usando alguns dos poucos segredos que obtive além da Muralha.

— Eu o conheço, Lorde Negro. Devo lamentar em saber que, com isso, sou agora seu servo.

— Vejo que não necessita de explicações. Intermediário, sua nova tarefa é voltar a servir a Eternidade.

— Mas foi o que eu sempre fiz.

— Sim, mas desta vez você planejará o fim dela. Estamos protegidos aqui, na Região Negra de Nihil, única zona do infinito onde ela não pode nos ouvir. Você seguirá meus planos. Volte a trabalhar para a Eternidade. Quando um ano exato houver transcorrido, enviarei um mensageiro poderoso para destruir a maldita dama cósmica. Sua tarefa é deixar a Eternidade de sobreaviso a respeito da chegada deste ser.

— E o que você ganha com isso? Não é melhor mantê-la ignorante sobre a existência de seu possível algoz?

— Não, Intermediário. Nada melhor que uma Eternidade tomada pelo medo. E o verdadeiro verdugo não será o mensageiro. A existência da Eternidade será ceifada pelas minhas próprias mãos. Agora volte ao seu posto na Entrada Kundalini e nunca, nunca se esqueça de que deve sua nova vida a mim.

Vamos agora avançar um ano em direção ao nosso presente e ver o que se passa com os engenheiros do G.E.N.O.M.A., que estão na terceira lua do planeta Kag, a "lua cinza", para compor o nosso...

Interlúdio II

O engenheiro-chefe Zza passou por um grupo de mendigos siameses, que pediam esmolas em uma esquina do bairro central da "lua cinza". Cada cabeça olhava para um lado da calçada, como se fossem guardas do quarteirão. Zza jogou uma moeda de Fg:

— Não vão gastar tudo em Gizz de Feetal — e saiu gargalhando.

Logo o engenheiro-assistente retornou de dentro da taverna. Zza perguntou:

— E então? Conseguiu as informações sobre o paradeiro da criatura?

— Sim, engenheiro-chefe. Ele está em busca da Entrada Kundalini.

— ... mas... por quê?...

— Ao que parece, ele foi contratado para eliminar a Eternidade.

— A... Eternidade? — perguntou Zza, assombrado. Mas quem o teria contratado para uma tarefa tão claramente impossível?

— Meu primo teve medo de me dizer. Ele escreveu o nome neste papel, disse o assistente, passando um guardanapo dobrado para Zza. O engenheiro-chefe abriu o pequeno origami de sujeira e leu o nome de quem havia encomendado a "morte" da dama cósmica.

— Número 17, estamos envolvidos em uma situação muito mais grandiosa e perigosa do que imaginávamos. Mais do que nunca, faz-se mister que eliminemos o czarniano. Onde ele foi visto pela última vez?

— A minutos-luz do trigésimo-quarto posto avançado de Thanagar.

— Encha de cuspe a nave-gen. Vamos precisar de muito combustível.

Sim, eu, o Vigia, também já estou de saco cheio desses interlúdios. Mas resta apenas uma última parada: a câmara geneticonsagrada de Uk, que é o palco para o...

Interlúdio III

Tarodequi abandonou as meditações ancestrais no campo estático de urina e se enxugou. O engenheiro-mago chamou o sub-engenheiro-vizir:

— Trak, partirei em uma viagem de suma importância. Irei em busca de nossa equipe de engenheiros-paramilitares que tripulam a Nave-Gen I. E, provavelmente, em busca de sua perigosa caça.

— O... czarniano? — perguntou o vizir com descrença.

— Infelizmente, sim. E talvez gente ainda mais poderosa. Não sei bem ainda o que está acontecendo, mas preciso ajudar a equipe de Zza antes que seja tarde demais.

— Para eles, senhor? Acha que a criatura pode matar a todos?

— Não a criatura, Trak. Mas todos nós corremos risco de vida. Todo o Universo. As alianças silépticas de baba de barata mogadícia me permitiram vislumbrar parte do que está acontecendo. Se o que desconfio for verdade, é bom começar a rezar para todos os seus fluidos corporais sagrados.

Com estas palavras, Tarodequi se cobriu com uma espessa teia de folhas, sangue e esterco cósmico e partiu rumo ao espaço.

Bom, esse é finalmente o fim dos interlúdios. Deixo vocês agora com o chamado Maioral, o protagonista desta série. Não, não vou acompanhá-los. Posso ser o Vigia, mas não tenho estômago para as aventuras deste Lobo e a Área Azul da Lua é um ótimo lugar para repousar nesta época do ano. Adeus.

Tu vai morrer também, caolho escroto! — berrou o Maioral, pulando sobre Ciclope. Surpreso, Scott por pouco conseguiu se desviar do golpe e caiu para o lado, abrindo ao máximo seu visor de raios óticos. O jato de energia avermelhada atingiu Lobo em cheio, provocando um estrondo terrível e despedaçando completamente aquela parte da nave dos Piratas Siderais.

— Chega! Não sei quem é você, seu idiota, mas você acaba de espancar vários dos meus melhores amigos e ainda tenta profanar um amor já complicado o bastante. É bom que tenha um ótimo motivo para tudo isso, porque eu já estou cheio.

Só então Ciclope percebeu que a criatura não estava mais no cômodo.

"A reconstrução das paredes pressurizadas foi quase instantânea. O ser deve ter sido expelido da nave pelas rajadas óticas. Deve estar agora do lado de fora", pensou Scott Summers. "Bom, ele não vai escapar assim tão fácil".

Scott abriu seu armário e vestiu um traje de luta shi'ar. Feito com uma mescla de titânio e metais existentes somente nas mais distantes colônias skrulls, ele permitia um vôo bastante razoável por áreas sem gravidade, apesar de seu peso. O capacete ajustou-se automaticamente ao visor de Ciclope, garantindo o poder de fogo. Scott respirou fundo e saiu para o espaço vazio.

— Surpresa, seu merdinha!

Um soco no rosto e Scott foi cuspido para a superfície superior do casco da nave.

— Tu achou mermo que o Maioral aqui ia arregar por causa de uma bichona que nem você? Tu é terrestre, né? Que nem aquele velho ridículo de tapa-olho que eu espanquei mais cedo.

— Você agrediu meu pai, seu cretino? — gritou Scott.

— A traveca era teu pai, é? Cês tem que ir no oculista, viu? Que família mais desgraçada!

Com um grito de raiva, Scott lançou uma série de sucessivos raios óticos, que queimaram rapidamente o corpo de Lobo em vários pontos.

— Ui! Tu ia ganhar uma grana trabalhando na iluminação das boates pornô de Trosobah, sabia? Mas tu achou mermo que ia me machucar com essas luzinhas? Fala sério, baitola!

Lobo pulou e caiu sobre Scott, que recebeu em cheio uma sucessão de golpes no rosto.

— Eu cheguei perto da nave pra perguntar pra esses putos onde fica a Entrada Kundalini. E aquela porrinha voadora me atacou sei lá por quê. Cês me deixaram muito puto e agora vão sofrer! Diz aí, seu merda, onde fica a Entrada Kundalini??

Ciclope respondeu, sem fôlego:

— Não... conheço... esse lugar, seu verme.

— Quê? Ah, vai procurar então!

Com um pontapé, Lobo jogou Scott do casco da nave. Os retro-foguetes da armadura de combate estavam avariados com os golpes. "Grande. Agora estou à mercê desse maníaco, sem ter como me movimentar no espaço. Mas... espere, eu sou um cretino. Posso usar os próprios raios óticos para me impulsionar para trás e me afastar deste monstro até me recobrar. Mas... se usá-los demais, ficarei sem reservas de força e sem minha única arma".

Scott ativou um pequeno feixe ótico. Seu corpo logo começou a se deslocar na direção contrária, se afastando do czarniano.

— Que sacanagem é essa? Tu tá fugindo? — gritou Lobo, que ligou o controle remoto em seu cinto, ativando sua moto espacial. Assumindo o controle do veículo, o mercenário voou em busca de Ciclope.

— Tu vai virar comida de golfinho, seu olhota. Se bem que é sacanagem fazer os bichos terem caganeira.

A situação ridícula se prolongou: Scott movendo-se para trás graças ao feixe de raios óticos e Lobo atrás dele em sua moto. A nave dos Piratas já havia sumido de vista e, cerca de cinco minutos depois, Scott finalmente foi alcançado. Lobo pegou o mutante por uma das pernas e o rodou sobre sua cabeça, gritando:

— Vou te ajudar a ir mais rápido, boiola.

Soltou Scott, que zuniu em direção a um asteróide. Ciclope se chocou com força contra o solo do planetóide, despedaçando boa parte de sua armadura. "Agora falta pouco para que ele rasgue o tanque de oxigênio", pensou. "Estou perdido. Quem é esse cara? O que ele quer com essa tal Entrada? Se eu pudesse avisar os outros X-Men... Jean...".

Ciclope sorriu, surpreso por seus últimos pensamentos terem sido realmente dirigidos para a mulher amada. "Depois de tanta coisa por que passamos, meu amor, parece que morrerei sozinho no espaço, longe de você e sem sequer saber o motivo. Jean... eu sempre amei você". Em delírio, Scott viu o rosto de Jean Grey flutuando no espaço, maior que o próprio asteróide, que flutuava a esmo. O rosto pouco a pouco assumiu a forma de um pássaro em chamas.

"O Efeito Fênix... mas Jean não pode estar por aqui... e nem mais... o que está acontecendo?", pensou.

Enquanto isso, Lobo se aproximava novamente:

— É isso aí, cagão. Se lamenta aí na pedrinha que o Maioral tá chegando pra arrancar de vez teu couro e fazer sofá com ele.

O Efeito Fênix parecia tomar todo o quadrante, iluminando o cosmos. "Será que Jean é um anjo... e veio para me levar em paz para o outro lado?", Scott delirava. Aos poucos, seus olhos se tornaram menos turvos e o Efeito Fênix adquiriu uma forma arredondada. "Não é um anjo", pensou Ciclope. "É um sol... espere... ainda resta esperança... só pode ser... o sol thanagariano... quatro vezes maior e mais quente que o terrestre... uma imensa... bateria...".

Scott se concentrou em recobrar o controle. Deitou no chão do asteróide, recebendo diretamente os raios solares daquela estranha estrela. Sentiu seu cérebro aquietar-se e suas energias voltarem. Sua cabeça agora fervilhava, como que abastecida por uma frota inteira de caminhões-tanque. "Minha cabeça está em chamas. Como queima... é... insuportável... nunca acumulei tanta energia antes". Lobo se aproximava:

— Vai rezando, viadão. Tá pegando um bronze aí, é? Abre teu olho, eh, eh!

Ciclope pensava, calmamente: "venha, idiota... enquanto abro meu visor para um feixe concentrado de energia... isso... chegue mais perto... mais... mais... mais perto...".

Lobo estava a pouco mais de cinqüenta metros de Scott:

— É agora que tu morre, olhota!

— Agora! — disse Ciclope com raiva, finalmente liberando na direção do czarniano um concentradíssimo feixe de raios óticos. Graças às estranhas energias do sol de Thanagar, os raios saíram visivelmente mais espessos, na cor marrom.

A explosão foi indescritível e muda. A claridade ofuscante pareceu tomar todo o Universo por um instante. Lobo foi atingido em cheio pela carga e urrou de dor. Quando finalmente a claridade passou e os olhos de Ciclope se recuperaram do brilho e da ardência, não havia mais sinal do mercenário. "Finalmente... acabou", pensou Scott, antes de desabar pesadamente sobre o asteróide.

A 34 quilômetros dali, Lobo desabava como um abacate sobre o solo de um planeta sem vida. O choque com a terra deixou o czarniano inconsciente por vários minutos. Finalmente, ele despertou, desorientado. "Taquiupariu. O cara pegou pesado com essa porra. Que parada foi essa? De repente o cara se invocou do nada. Ai".

Sua moto espacial estava destroçada. Algumas poucas placas de metal do veículo haviam caído por perto. O resto, com certeza, perdeu-se no espaço.

"E ainda destruiu minha Argh-Davidson novinha. Caolho escroto".

Lobo se levantou com dificuldade e estalou as costas.

— Ahhhh. Viado! E agora, que eu tô sem moto, tô todo fodido e nem achei ainda a caralha da Entrada Kundalini?? Vou voltar lá e falar praquele merda do D...

— Cale-se, ser nojento e asqueroso! Verifique seus impropérios!!

A voz veio do alto.

— Ahn? Ah, que que foi agora? Quem tá aí em cima?

As nuvens se abriram, revelando a Nave-Gen I.

— Finalmente o encontramos, criatura. Somos os engenheiros do G.E.N.O.M.A. (sim, os Geneticistas Especializados em Numerar e Obsedar Monstros Alienígenas!). Nosso objetivo é simples: somos os cientistas, você é a cobaia. Renda-se!

Lobo olhou para o alto com descrença:

— Quê?? Cumequié? Cobaia, moi?? E que papo é esse de CREMONA???

— É G.EN.O.M.A., ser abestalhado! — corrigiu o alto-falante enrouquecido da Nave-Gen I, enquanto choviam perdigotos sobre o nosso herói.

— Tá bom, vê se vocês conseguem genomar isso!!, disse Lobo, lançando um enorme pedregulho para o alto.

O engenheiro-chefe Zza berrou: Número 17!! Manobras evasivas!!!

A Nave-Gen I, soltando flatulências, se contorceu e evitou a pedrada.

— Cês não tinham uma nave mais escrota, não? — berrou o mercenário.

— Senhor, ele profanou a sacrossantidade da nossa Nave-Gen I. — disse o abobalhado engenheiro-assistente 216.

— Eu ouvi! — respondeu Zza, indignado. — Vamos mostrar pra ele. Número 17, ative os raios fecais!

Feixes de estrume mole choveram sobre o planeta, enquanto a Nave-Gen I emitia ruídos orgásticos ao expeli-los. Coberto pela pouco recomendável substância, Lobo berrou:

— Cacilda! Isso é cocô! Cês me cobriram de cocô! Agora vocês vão ver com quantos tezkjios falantes se faz uma paureba glutoniana!

Enquanto procurava pedras maiores, Lobo foi atingido por uma lança de metal, atirada em suas costas.

— Pare aí mesmo, criatura fedorenta, disse uma voz rouca que mais parecia o gorgeio de um canário.

— Parem todos com esta bagunça em nosso setor! Vocês todos devem respostas ao Pelotão de Ataque Thanagariano Número 14!!!!!!!

Lobo se voltou e vislumbrou, poucos metros acima do solo, quatro soldados alados de Thanagar, todos de baixa patente.

— Qualé, agora? Aí já é apelação!! Quê que cês querem?

Um dos soldados disse:

— Senhor, creio que estamos, err, em um grande infortúnio. Reconheceu esta voz? Apesar da fétida cobertura marrom, esse ser é o czarniano.

— Por Lomarr Hol!!, disse o cabo alado. — Senhor Lobo, nós só queremos verificar o quadrante. Recebemos ordens para isso!

— Ah, ordens, é? — disse Lobo, enquanto avançava na direção do pelotão, tentando retirar a lança thanagariana de suas costas e ao mesmo tempo limpar a casca de feixe fecal. Subitamente, foi atingido novamente do alto, desta vez por bolsões de sangue de cabra durlaniana.

— Não mais se mova, criatura asquerosa. Você está agora diante do poderio supremo do engenheiro-mago.

Dentro na Nave-Gen, o nome "Tarodequi" foi sussurrado. "Ele está aqui para nos ajudar".

— Eca! Pô, aí já é sacanagem. Nem eu sou porco assim! Sangue de cabras durlanianas, aquelas titicas que mais parecem lesmas! Que meleca!

— Cale-se, ser— disse Tarodequi, que flutuava sobre um tapete mágico de carne. — Estou aqui para impedi-lo de matar a Eternidade! Que loucura se apossou de você para fazer isso?

Neste momento, uma nova figura entrou em cena:

— Quem citou em vão o nome-testemunho da(o) m(inha)eu (d)am(o)a?

O Intermediário aproximou-se, flutuando levemente sobre as espirais cósmicas.

— Gizz de Feetal! — berrou o czarniano. — Que putaria! Só eu é que não vôo nessa merda? Quero ver é vocês todos descerem daí!

Mal acabou de proferir estas palavras, Lobo foi novamente coberto por jatos de esterco. Do alto, uma figura magra se aproximava, cavalgando um asteróide de forma estranha pelos vagalhões espaciais.

— Pó pará tudo aê embaixo qui Coprofax tá na área! Ninguém se mexi na parada ou cês vai tudinho tê qui si vê com o arauto de Galactus!!

Tarodequi, Intermediário, os engenheiros do planeta Uk e até mesmo o pelotão thanagariano levaram quase simultaneamente às mãos às suas testas, em desgosto: "Era só o que faltava para piorar a situação: Coprofax", foi o pensamento geral.

— Tamos aí mermo pra impidir esse tal de Lobo aí de matá a dona Eternidade, aquele trubufu espacial.

— Porra, todo mundo já sabe da minha missão? — disse nosso herói. — Mas não se estressa, não, negada, que eu só vou poder matar essa dona aí se achar a caralha Kundalini, que é onde a piranha vive.

Neste exato momento, há milhares de anos-luz dali, uma figura negra a tudo assistia.

— É chegado o momento, Desaad.

De seus olhos partiram dois raios vermelhos, que em instantes atravessaram o cosmos.

— As sementes que plantei há exatamente um ano finalmente deram frutos. Em breve, a equação antivida será minha.

Sobre um asteróide, Scott Summers viu os dois relâmpagos escarlates cruzarem o quadrante em questão de milissegundos. "O que serão essas coisas?", pensou. "Nunca vi nada tão rápido".

Lobo gritou: — É isso aí, putada. Ou vocês me falam como chegar na Entrada Kundalini ou eu mato todo mundo na base da porrada!

Mal terminou a frase, o mercenário foi surpreendido por dois fachos vermelhos, que instantaneamente zigue-zaguearam até atingir o corpo do Intermediário, que alucinou de dor. O bi-ser cósmico explodiu com um som estridente, que fez todos em volta fecharem os ouvidos. Pedaços de energia nas cores amarela e azul, que antes eram fragmentos do Intermediário, se uniram na forma de um tornado. A ventania foi ficando mais forte, até sugar todos os seres presentes para o seu interior. Tarodequi pensou: "Estamos perdidos. É a Entrada Kundalini".

A anos-luz, em um planeta tomado pelo fogo e pelo cheiro de fossas, uma figura gargalhou.

— O Intermediário era um tolo. O miserável débito que tinha comigo foi pago com a própria vida. O idiota era a peça-chave: ele era o encarregado de estar neste momento, naquele planetóide, com exatamente aquelas pessoas. Por isso escolhi Lobo para "matar" a Eternidade. As presenças de Tarodequi e seu bando de engenheiros eram requisitos básicos para os meus planos. Também foi fácil contar com o novo arauto de Galactus, outra peça-chave. A configuração está correta, Desaad. Tudo transcorrerá como previmos um ano atrás. Em questão de poucas horas, finalmente saberei a fórmula da equação.

— Meu senhor, devo parabenizá-lo por este feito.

— Cale-se, verme. Todos os elementos necessários estão lá: a estupidez do Lobo, o misticismo carnal de Tarodequi, o cientificismo covarde dos engenheiros, a podridão de Coprofax e até mesmo o elemento proto-divino, proporcionado pela patrulha thanagariana, que nós sabíamos que passaria por ali naquele momento. E, claro, o Intermediário, que não desconfiava que ele mesmo era a Entrada Kundalini, graças aos rearranjos místico-genéticos que operei nele durante o nosso encontro. Com estas peças, a jornada pela Kundalini fatalmente terminará com a morte da Eternidade, que estará à minha mercê em questão de horas, para o golpe final, que virá pela minha mão.

Só restou a Desaad pensar: "Sim, mestre. Tudo deu certo. Mas o Caos prevê que os acontecimentos somente chegarão à conclusão que o senhor almeja se mais nenhum viajante inesperado tomar a Entrada Kundalini. Mais nenhum".

As flores do reino dos Nornes haviam acabado de se abrir, gotejando ainda o orvalho acumulado nas frias madrugadas de Ymir. Karnilla abriu os olhos e viu que, mais uma vez, seu amado havia saído sem se despedir. Estavam nesta relação há tantos séculos e o cansaço já se abatia sobre a alma da feiticeira. "Meu querido, por que deves sempre dividir-te entre o teu amor e o maldito dever? Por que não cedes de vez aos clamores do teu coração e do teu sexo e repousa em paz entre as luxúrias de meu reino?".

A milhas dali, o alvo do amor e desejo da rainha Norne cavalgava pelas planícies de um dos nove reinos. Depois de horas de viagem, finalmente apeou a cansada montaria em seu palácio, na região mais refinada da Cidade Dourada. Chamou por sua fiel serva, a anciã Iggeirrogga.

— É tu que estás a chegar, meu senhor? — perguntou a velha.

— Sim, fiel anciã. Mas logo partirei. Devo pedir permissão ao nosso soberano para investigar estranhas vibrações que senti no cosmos.

— Vibrações?

— Sim, velha. Não esqueças que, antes de ser o Bravo, sou mormente o Deus da Vida, da Luz, da Verdade e da Esperança. Não tenho um elo que me permite ser uno com a natureza? Pela graça da magia mais arcaica, não sou eu o abençoado com o dom da invulnerabilidade? Não te esqueças que nada na natureza, nada no universo é capaz de me ferir mortalmente, com a dolorosa exceção do freixo.

— Como poderia esquecer disso, meu senhor, se fui eu quem te curei e limpei teus ferimentos quando daquela desonrosa traição do Deus do Mal?

— Sei disso, minha fiel serva. E bem sabes que a ti serei eternamente grato por tal façanha e cuidado. Mas devo partir, e já. Peça que selem e preparem minha biga de cães sagrados. A natureza do cosmos sofre de uma cicatriz, que contém o porvir de terríveis chagas. Como o Deus da Vida, é meu dever sagrado investigar. Se algum mal maior pode se abater sobre o Universo, é dever de Balder, o Bravo, sair ao seu encalço.

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