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Por
Eduardo Regis
A Alma de Chicago
Kyle Richmond chega ao seu luxuoso apartamento. Ele pisa na varanda quando a chuva começa a diminuir. O sol já está quase nascendo, hora de tirar a máscara. No espelho da sala de jantar, ele vê o estrago. Um olho roxo e vários bolsões de sangue ao redor do ferimento. Tira a camisa e constata que seu tronco também já viveu dias melhores.
"Ninguém pode te dar liberdade. Ninguém pode te dar igualdade, justiça ou nada disso. Se você for homem, você conquista." (*)
Ele anda até o quarto enquanto tira o resto da roupa. Mesmo ele precisa dormir.

É como um caleidoscópio. Zilhões de imagens rodopiam. Adicione a isso sons exóticos e inusitados e misture tudo em uma sintonia preta e branca. Você de repente acorda e se vê em um quintal meio pantanoso. No pé de uma árvore está um negro sorridente, maquiagem de caveira na cara, cartola rasgada na cabeça. É um batuque que vai e vem, assim meio destorcido. Você acorda e aquele negro te fala no subconsciente. Ele tem poder sobre você. Você o ama. Quer agradá-lo, mas ainda é mais do que isso.
Aham. E esse negro?
Sou eu.
E a parada?
O pó de zumbi.
E o que eu levo nisso?
Nada. Tem uma parte da história que você não entendeu. Eu não preciso realmente que as pessoas cheirem o pó para que eu as controle, se eu estiver próximo o bastante para que olhem fundo nos meus olhos...
Sim, Barão. O que o senhor manda?

Dois tiros. A gargalhada sobe pelo chapéu pontudo do homem branco. Como um megafone, o chapéu aumenta o volume da risada. Kyle cai com os ouvidos sangrando.
Pai... mãe!
Ele se levanta e anda até o varandão de sua cobertura. O sol castiga a cidade, deve ser por volta de meio-dia. Kyle olha para o alto e se ofusca com o brilho do céu. Ele levanta a mão para fazer sombra enquanto volta para o quarto e pega o telefone.
Sra. Grey? Aqui é Kyle Richmond, boa tarde. Peça que a Casa Richmond de Apoio ao Jovem Negro faça uma busca por crianças no lado oeste da cidade, por favor.
Sem cerimônias, ele desliga o telefone e senta-se na cama. Passando a mão no rosto, começa a avaliar seus ferimentos. O olho continua bem inchado.
Que se dane, ainda preciso descansar.
Kyle deita e cai novamente no sono.
Dois tiros...
Horas depois...
A máscara nova serve perfeitamente. Ele ajusta o visor para a visão noturna e entra no carro do Falcão. Seus pneus queimam pelas ruas de Chicago até as proximidades do necrotério. O Falcão pula para fora do carro e se agarra à escada de incêndio do prédio. Em poucos instantes, arromba a entrada do terraço, caindo em um corredor vazio. Com um ajuste de lentes, consegue uma visão em infravermelho. Agora saberá onde as pessoas estão, mesmo atrás de portas e paredes. Assim, prossegue pelos corredores e salas, escondendo-se quando alguém se aproxima e avançando quando é seguro. O Falcão Noturno faz seu caminho até a sala dos arquivos.
"Um computador ligado. Excelente."
Entrar no computador e acessar os arquivos não é difícil. A primeira coisa pela qual procura é o nome do morto.
"Homem negro, 1,87 m de altura, aproximadamente uns 120 kg, vinte e poucos anos e que tenha dado entrada com lacerações feitas por objeto perfuro-cortante na região do colo. Feito. Paul Burringam."
Com um clique, ele acessa os resultados dos exames.
"Vejamos: Necropsia. A causa mortis foi choque hipovolêmico dada a perda de sangue por hemorragia interna causada por severas lacerações de tecidos e artérias. Podiam ter simplificado e colocado só o meu nome nessa parte da ficha. Exames toxicológicos, aonde estão estes resultados? Droga de software mal-feito. Aqui. Achei. Quantidades significativas de isocarboxazida e etomidato. Um antidepressivo e um hipnótico. O que esse cara andou usando? O que mais? Ah, o corpo ainda não foi liberado. Ótimo. Necrotério A-3, gaveta 8."
O Falcão Noturno se levanta enquanto procura por algumas coisas em seu cinto. Tendo se certificado de quem tem tudo em mãos, prossegue para a sala de autópsias. Infelizmente, nem tudo é tão simples: ele detecta duas pessoas dentro da sala que pretende invadir.
"Malditos plantonistas."
Ele abre lentamente a porta da sala e joga uma bomba de gás no centro da sala. Rapidamente, ele fecha a porta e, então, espera. E não espera muito, logo as duas pessoas que estavam trabalhando caem desmaiadas. Ele entra.
O gás ainda está se dissipando enquanto ele procura pela gaveta certa.
"Gaveta 8. Pronto."
Ao abrí-la, ele se depara com o corpo do mesmo homem que enfrentou na noite anterior.
"Você fica muito melhor morto."
O Falcão observa o corpo por alguns instantes, imaginando se ele conseguirá perceber algo que tenha passado pela perícia.
"Alguém te mandou fazer aquelas coisas, e eu vou descobrir quem foi. Você vai me falar, mesmo morto."
Subitamente, algo chama a atenção do Falcão. Ele muda suas lentes e então percebe certos resíduos nas narinas do morto. Abrindo seu cinto, puxa um swab (**) e o passa nas narinas do cadáver, guardando-o novamente em um saco.

Sim, sim, mande-o entrar.
Um senhor branco vestindo um terno marrom é jogado em uma sala iluminada à luz de velas.
Reitor Sloane! Magnífico reitor da universidade de Chicago, que honra! Finalmente consegui uma hora com você! a figura sentada em uma poltrona tira uma cartola da cabeça e a coloca em uma pequena mesa de madeira.
Quem é você? Seu lunático! o homem grita enquanto se levanta.
Poupe-me de seus elogios. Já os conheço bem. Você está aqui simplesmente porque eu preciso satisfazer uma velha vontade. Você me fudeu o quanto pôde, reitor, o quanto pôde! Agora é hora do jogo virar.
Quê? Seu doido, assim que eu sair daqui, vou te denunciar! Eu nem sou mais reitor! Larguei há anos! Você deve esta completamente fora de si!
A figura sai das sombras, revelando seu rosto.
Você! Mas... não é possível. Você sumiu... anos atrás... o senhor cambaleia para trás com o susto.
Olhe nos meus olhos, reitor. as pupilas da figura se dilatam e o amarelo dos olhos se torna intenso.
Sim, Barão. o prisioneiro balbucia, enquanto se ajoelha.
Reitor, fique de quatro e abaixe as calças. Hoje você vai saber como é ser fudido.

O computador termina as análises e imprime um relatório.
"Isocarboxazida e etomidato. A mesma coisa que deu no sangue, só que em pó. Espere. Tem alguns padrões aqui nessa espectometria que correspondem a outras substâncias, mas são padrões que o computador não reconhece. Alguém está negociando uma nova droga."
O Falcão olha para um tubo de ensaio com um resto do pó. Ele balança o tubo para desempedrar o material e vai até uma pequena jaula onde se encontra um macaco repleto de sensores grudados ao seu corpo. Ele abre a jaula e segura o primata enquanto joga o pó nas narinas do animal. Com cuidado, posiciona a jaula entre um estranho aparelho. Em poucos instantes, o macaco, que estava agitado, fica catatônico. Seus olhos, porém, estão esbugalhados, como se a qualquer minuto o animal fosse saltar para cima do Falcão. Horas depois, o animal retoma seu comportamento normal.
"Não parece ser tóxico. Vejamos as leituras do ecocardiograma e tomografia..."
Acessando o computador, o vigilante tem os dados dos exames.
"Humm. Picos de taquicardia. Arritmia cardíaca branda. Nada que seja perigoso. A tomografia apresentou alta atividade em uma região do cérebro do animal. Vejamos: região ligada à percepção audio-visual e comportamento. Este animal viu e ouviu coisas que não existiam. Acho que preciso de uma amostra do tecido dele."
Ele vai até a jaula e aplica uma injeção no animal, que cai morto. O Falcão o coloca sobre uma mesa enquanto abre o tampão de seu crânio.

Nas ruas de Chicago.
Tá sabendo da nova parada? um homem pergunta para uma prostituta.
Já. Tu tem aí? a mulher responde, ansiosa.
O pó de zumbi? Nem a pau, compra o teu.

Lu Bingo sempre aparece no mesmo lugar todas as noites. Previsível demais. Ele acende seu cigarro enquanto encosta-se a um muro. Logo, seus clientes chegam.
Você tem algo que eu quero, Bingo. uma voz pesada sai do beco próximo.
Eu tenho tudo, mermão. Lu fala, se virando para o beco.
Um soco acerta Bingo. Sua maçã do rosto afunda.
Vamos lá! Eu pergunto e você me fala, senão eu esfrego seus colhões pelo asfalto enquanto te arrasto daqui ao cemitério. Que tal?
O Falcão Noturno aparece.
Que nova droga é essa? Que pó é esse?
Não sei de nada, cara. Tem pó nenhum não. Lu tenta se proteger com as mãos, mas o Falcão o segura e rasga sua camisa.
É simples. ele tira uma lâmina do cinto Ouvi dizer que piercings estão na moda. o Falcão atravessa a lâmina em um dos mamilos de Bingo.
Argghh. o traficante grita enquanto o sangue escorre por seu peito.
Tá bom. Tá bom! Eu falo!
Rápido.
É o pó de zumbi.
Nada de brincadeiras. a lâmina vai de um mamilo ao outro de Lu, rasgando todo seu peito.
Porra!! É sério, cara, é o nome da parada. Um tal de Barão me passou pra distribuir. Tô ganhando milzinho por noite nessa parada. É tudo que eu sei! Juro! Juro!
Onde?
Onde? Lu não entende e um chute acerta seu estômago Me encontrei com um tal de Redsong no Jake's Tavern. É tudo que eu sei, juro, juro! Ele é o contato!
Tem certeza que acabou?
Tenho, cara. Pelo amor de Deus, você é a lei, cara. Você é a lei.
O Falcão Noturno enfia a lâmina no pescoço de Lu e deixa seu corpo escorregar pelas suas pernas enquanto ele dá seu último suspiro.

No Jake's Tavern.
A porta se abre. Todos os olhos se viram para a figura entrando. O Falcão entra com os punhos cerrados.
Quem é Redsong?
Todos riem. Dá para ver nos olhos deles, eles são uns vinte, ele um só.
Você bateu no lugar errado, passarinho! um responde.
Ah, é? com os dedos, ele pega uma lâmina e a arremessa, acertando os bagos de um dos homens. O coitado cai gritando.
Quem é Redsong?
Um ruivo dá dois passos para trás enquanto três homens tomam a frente dele.
Obrigado! o Falcão fala enquanto abre as mãos, liberando duas bombas de um gás negro no ambiente. Além de obscurecer a visão, o gás ainda é sonífero. Alguns homens ainda tentam enfrentar o Falcão, mas são derrubados, ou por suas mãos, ou pelo sono.

Redsong abre os olhos. O mundo ainda gira e ele sente um gosto ácido na boca. Quando tenta se levantar, tem uma surpresa: está amarrado até os pés e no parapeito de um prédio.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Menos barulho ou vai acordar a vizinhança. o Falcão Noturno sai das sombras.
Como eu vim parar aqui? Eu vou cair, pelo amor de Deus...
Eu ajudo você se me contar sobre o pó de zumbi e um tal Barão. Agora.
Nunca ouvi falar disso não... o Falcão empurra Redsong para o abismo. O homem cai cerca de meio metro até se chocar com um andaime de obras.
Aiiiiiiii!!!! Cacete!!! Redsong se desespera.
Agora não tem mais andaime. Só o asfalto.

Senhor barão! um homem entra numa sala e se assusta ao ver a estranha figura do Barão vestindo um colete feito de pele humana.
Você gostou? o Barão se vira para o homem, exibindo sua face pintada de caveira.
Claro.
Burringam fez para mim antes de morrer. Um efeito colateral do pó, eu mesmo jamais pediria algo tão grotesco ao homem. Confesso, porém, que gostei do caimento. Guarde para mim. o Barão tira o colete e o estende para seu empregado.
Barão, pegaram Redsong. Eddie fala enquanto segura o colete.
O Falcão? o olhar do Barão se enche de ódio.
Sim. Ele acaba de pegá-lo no Jake's Tavern.
Deixe-me em paz. Já sei o que fazer.
O Barão se senta em sua poltrona e veste sua cartola. Com sua voz profunda ele começa a entoar:
Redsong, ouça seu Barão. O Barão Samedi ordena que repita com exatidão estas palavras para o Falcão Noturno...

Redsong fecha os olhos por alguns instantes e os abre novamente como num susto.
Tá bem, tá bem. O Barão vai estar numa negociação hoje na fábrica de tecidos Benson, no galpão de tingimento. É tudo que eu sei.
Mais. o Falcão ameaça jogá-lo.
O ruivo não responde mais nada, fica apenas parado olhando para os olhos amarelos.
Mais.
É tudo. Redsong responde, tremendo.
O Falcão Noturno levanta Redsong e o atira do alto do andaime.
Lixo humano.
O corpo faz um estranho barulho ao se chocar com o chão e rachar o crânio.
Continua.
:: Notas do Autor
(*) Citando Malcom X. 
(**) Swab: instrumento parecido com um cotonete, utilizado para recolher amostras de tecido, sangue e outras evidências em cenas de crime. 
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