hyperfan  
 

The Clash # 07

Por Alexandre Mandarino

O Resgate

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a The Clash
:: Outros Títulos

Porta-aviões aéreo da SHIELD, sobrevoando local não-divulgado.

A espada samurai de Katana pulsa e brilha levemente na mão da pequena heroína. Na escuridão total do departamento CLASH, ela espera pelo pior. O monstro deve estar poucos passos à sua frente. Ela segura a espada com firmeza, sente o gosto do aço das shurikens em seus lábios e fecha os olhos. Não adianta tentar discernir manchas entre o breu. O melhor é sentir.

De olhos fechados, trevas em meio às trevas, Katana escuta o rastejar da cauda da criatura e seus passos pesados. Com um guincho horripilante, o alien salta em direção à agente do CLASH. Ela dobra o joelho direito, estica a perna esquerda paralelamente ao chão e, quando a criatura está passando sobre ela, levanta a espada com decisão. Ela sente a lâmina atingir algo duro, como se tivesse golpeado um barril cheio de nozes. A criatura urra de dor e raiva. Para sorte de Katana, o algo que a impele a agir a fez saltar para o lado assim que sentiu a eficácia de sua lâmina. Caso contrário, o sangue ácido que goteja da criatura a teria atingido.

Na escuridão, uma espada ansiosa por alimento para o espírito parece reclamar do gosto do prato principal. O alien recobra-se do ataque e avança novamente na direção de Katana. Enquanto isso, a agente tateia o chão da sala em busca de seus óculos infravermelhos. Assim que os encontra, escuta dois sibilos sobre sua cabeça. Atrás dela, a criatura urra novamente de dor. Ela coloca os óculos e as trevas viram a tela esverdeada de um velho computador. Se volta e, pela primeira vez, tem a oportunidade de enxergar o total terror que está enfrentando. A criatura é verde-acinzentada, tem mais de dois metros de altura, uma espécie de boca retrátil e o corpo construído com o material dos piores pesadelos de Katana. Para sua surpresa, ela vê que duas shurikens estão cravadas no crânio da criatura, que guincha. Ela se vira e o Mercenário está à sua frente.

O assassino de aluguel está pálido:

— Sabe, eu podia processar o CLASH por sofrer ameaças de morte na prisão de vocês. — a piada não disfarça o desconforto do vilão — O que é essa coisa?

— Algo que conseguiu escapar da jaula onde estava. — diz Katana — O que me lembra: como você escapou?

O monstro sibila e arranca as shurikens.

— Prisões de estase deveriam ter geradores próprios. — diz Mercenário — Cuidado!

O alien salta sobre os dois. Mercenário, que está sem óculos infravermelhos, conta apenas com seus sentidos treinados para desviar-se. Ele salta para o lado, mas escorrega em algum líquido e cai. A criatura alcança Katana e a encurrala contra a parede. Aterrorizada, a samurai vê, através das lentes esverdeadas dos óculos, uma boca cilíndrica e repleta de dentes enormes se distender em direção ao seu rosto. Em um esforço desesperado, ela move os lábios como se estivesse cuspindo, arremessando as duas shurikens que mantinha presas entre os dentes. As estrelas de aço entram pela boca da criatura e se cravam em sua garganta. O monstro se afasta, emitindo um ruído de gargarejo, como a tosse de um demônio. A samurai se recupera e avança com sua espada, mas a criatura, em um salto espantoso, rasga o teto da sala e foge rapidamente pelo duto de ventilação. Seus passos ressoam no metal por alguns segundos, até sumirem de vez.

— Puta que pariu. — diz Mercenário, levantando-se do chão — Sabe, acho que até achei melhor estar tudo escuro. De onde vocês tiraram esse treco?

— Vai ajudar ou não, Mercenário? — diz Katana — Você também está preso aqui com a criatura.

— Vocês não têm geradores de emergência? Vamos precisar de luzes.

— Temos, mas por algum motivo eles não foram ativados. Algo estranho está acontecendo. Primeiro, as paredes de segurança nos isolam aqui. As luzes se apagam e os geradores não são ligados. Alguém está nos traindo.

— Eh. Bem-vinda ao mundo da espionagem, samurai. Por isso eu trabalho em outro ramo.

Katana abre um armário de metal e encontra óculos infravermelhos, pistolas automáticas e tasers. Ela passa um dos óculos para o Mercenário. Já enxergando, o assassino olha para baixo:

— Eca! Foi no sangue do china que eu escorreguei.

— Woo! — diz Katana — Ele sofreu um corte terrível. E o Falcão parece ter levado uma pancada na cabeça. Os dois estão inconscientes.

A agente improvisa um curativo para estancar o sangue de Woo.

— Nossa única chance é caçar o monstro. Mas não podemos deixar Woo e Sam sozinhos aqui. Onde está o Paladino?

Mal termina de dizer estas palavras, Katana vê Paladino, cambaleante, emergir de um mar de cacos de vidro e pedaços de metal.

— Unh... merda... aquela coisa me jogou longe.

— Você está ferido?

— Acho que não. — diz Paladino — Meu uniforme é acolchoado e tem proteções de kevlar. Mas aquele bicho é muito forte.

— A gente vai atrás dele ou vai ficar aqui falando? — diz Mercenário.

— Ir atrás dele? — grita Paladino — Vocês piraram? O departamento CLASH é bem grande, cheio de buracos e esconderijos. E tá tudo escuro. Minha máscara também tem lentes infravermelhas, mas mesmo assim acho que a gente tá em uma desvantagem absurda.

— E o que você recomenda?

— A gente devia tentar sair, pedir ajuda para os outros agentes. Afinal, esse é o porta-av...

— Paladino, cale a boca! — grita Katana.

— Ahn? — diz Mercenário — Será que entendi bem? O CLASH é uma divisão da organização que eu tô pensando? Ah, ah, ah. Isso torna vocês mais manés ainda. Isso é inacreditável!

— Não tire conclusões ridículas, Mercenário. E, Paladino, alguém acionou as paredes de emergência. Querem matar a gente. Duvido que essas paredes vão se abrir tão cedo.

— Putz. — diz Paladino — Cadê o Gardner nessas horas?

Paul Elliot liga o piloto automático e relaxa. Em pouco tempo, o vôo 356 deverá chegar a Toronto. O piloto já fez essa viagem tantas vezes que já é tão fácil como vestir uma camisa. Ele pensa na filha, quando o co-piloto grita:

— Olha! Meu Deus! O que é aquilo??

Um Smiley gigantesco sorri alegremente poucos metros à frente do avião. Elliot arregala os olhos.

— Cristo! É uma abdução!

Antes que tenham tempo de fazer qualquer coisa, os pilotos vêem o Smiley abrir a boca. O avião passa por ela e entra em um túnel amarelo. Nas paredes do túnel, diversos quadros de Pamela Anderson, nua, balançam alegremente. Um segundo depois, o avião sai do túnel e tudo volta ao normal.

— Jack, se você contar isso pra alguém, eu juro que armo a sua demissão. — diz Elliot.

Cem metros atrás, Guy Gardner gargalha insanamente no ar.

Do outro lado da parede de segurança, Gabe Jones grita com um grupo de agentes:

— Continuem tentando! Essa parede vai ter que ceder alguma hora!

Os agentes usam retromaçaricos cardosianos para rasgar a parede, mas ela resiste.

— Gabe! — alguém chama o supervisor-geral do CLASH.

— Abdul! Você deveria estar na enfermaria. Sua mão...

— Minha mão está a essa altura no estômago de um cardume de nanomáquinas. — diz o Cavaleiro Árabe — Mas o importante é que o sangramento parou e o Gaffer aqui diz que pode me ajudar. Não é, Gaff...

O Cavaleiro e Gabe se voltam, mas Gaffer sumiu.

— Estranho. Ele veio comigo até aqui.

— Gênios são estranhos assim mesmo. — diz Gabe — Mas depois a gente fala sobre isso, cara. Faz uma coisa, Abdul. Você já foi agente da SHIELD e sabe como são os procedimentos. Fica aqui um minuto tomando conta desses manés enquanto eu vou falar com o Fury. Ele me chamou já tem uns quinze minutos e deve estar muito puto com essa história do alien.

Gabe se afasta e pega um dos elevadores ao lado da entrada para o hangar. Abdul se afasta um pouco, enquanto o esquadrão de agentes trabalha, desta vez usando brocas megalíticas, e caminha pelo corredor. Em uma das extremidades da passagem, vê Gaffer entrando em uma porta.

— Gaffer! — Abdul apressa o passo e vai atrás do cientista. Ele entra na porta e vê que o cômodo é o controle da parede de segurança. E está vazio.

"Estranho. Eu vi Gaffer entrar aqui." — pensa o árabe, antes de retornar para perto dos agentes. Minutos depois, ele ouve a mesma porta se abrindo. Mas quem sai por ela é outra pessoa, um agente loiro, de óculos e gravata borboleta.

"Eu conheço esse cara... claro, é aquele agente que perdeu o irmão há pouco tempo... Sitwell. Jasper Sitwell. Estranho. Bom, devem ter passagens secretas naquela sala."

A câmara criogênica do departamento CLASH está vazia e escura como uma lápide. Sem energia, os dois cilindros restantes começam a pingar, como se derretessem. Os seres acondicionados em seu interior serão mantidos imobilizados somente por mais meia hora. Depois disso, acordarão. E acordar de um estado de criogenia sem os cuidados técnicos necessários pode levar um ser vivo à loucura — ou mesmo à morte.

De repente, um ruído. A criatura entra na sala, procurando algo. Guincha e olha em volta. Finalmente, encontra o terceiro cilindro criogênico, destroçado e caído no chão. O alien sabe, instintivamente, que saiu de dentro daquele objeto. Um ovo de metal — a criatura emergiu do interior de uma "mãe" glacial. Ela estica a pata até um dos fragmentos de metal e vidro no chão e guincha. Depois, avança em direção aos dois cilindros restantes. Será que seus irmãos estão ali dentro? Ela estica a cabeça e observa dentro de um dos cilindros. Não, aquela coisa pequena e magra não é um dos seus irmãos. Vai até o outro cilindro, ao lado deste, e observa pelo vidro grosso, enevoado e translúcido. Uma figura bem menor do que ele, ainda que maior do que o ser no primeiro cilindro. Uma figura azulada. O alien guincha de frustração e solidão.

O urro ecoa grotescamente pela escuridão do departamento CLASH. Dois cômodos ao lado, Asa Vermelha se agita em sua gaiola e emite sons de pavor. Na câmara criogênica, o alien agarra o cilindro com a figura azul e começa a sacudí-lo.

— Meu Deus! — o grito vem de Paladino, que acaba de entrar na câmara — Não sei o que tem aí dentro, coisa escrota, mas se for mais um igual a você é melhor manter você longe disso.

Paladino atira com sua pistola laser e atinge o braço direito da criatura. Ela urra e avança na direção do mercenário. Ele corre de volta para o corredor.

— Eeeii!! Ele tá aqui! Corram pra cá! Essa porra tá atrás de mim!

A criatura salta e, quando suas garras estão a meros centímetros do pescoço de Paladino, o corpo do herói sobe e vai para o teto. Apoiado em um tubo de iluminação, Mercenário ergue paladino pelos ombros.

— Putz... detesto isso, mas obrigado, cara. Foi por pouco.

— Eh. De um mercenário pra outro, mané.

A criatura pára e se prepara para saltar em direção aos dois, no teto. Neste momento, Katana aparece no fim do corredor e grita:

— Aqui! Coisa feia!

O alien se volta e Katana acende um imenso holofote aos seus pés. Alimentado por uma bateria interna, o aparelho ilumina todo o corredor e cega o monstro por alguns instantes.

Katana salta e, sem emitir nenhum som, arremessa oito shurikens em pleno ar. Três se cravam no crânio do monstro; duas acertam a parede de metal do corredor, duas atingem a perna direita da criatura; e uma passa zunindo a centímetros da cabeça do Mercenário. Antes de cair ao chão, Katana gira e desfere um poderoso golpe com sua espada na perda esquerda do alien.

— Ei! A gente tá de óculos infravermelhos! Apaga isso! A gente tá cego agora! — grita Paladino.

— Vocês estão. — diz Katana.

A criatura se abaixa para agarrar a perna atingida. Katana, já de pé, se prepara para cortar a cabeça do monstro. Mas a cauda da criatura a derruba por trás, em uma rasteira. A samurai cai ao chão e o alien avança. Neste momento, algo voa pelo corredor e se prende ao pescoço do ser espacial.

— Katana! Sai daí!

O grito é de Falcão, que surgiu no fim do corredor. Seu arpéu liga seu braço direito ao pescoço do alien. O monstro corre para o outro extremo do corredor e começa a arrastar o herói alado.

— Epa! Péssima idéia... — diz Sam Wilson.

Imediatamente, o Mercenário solta Paladino do teto e arremessa uma shuriken, que corta o cabo do arpéu. Sam levanta-se, aturdido, enquanto a criatura desaparece novamente nas sombras.

— Isso não vai funcionar. A gente precisa de um plano, alguma estratégia. — diz Paladino.

— E que idéia foi aquela de jogar uma shuriken perto da minha cabeça, mulher maluca? — diz Mercenário.

— Pra você lembrar da sua posição aqui neste grupo. — responde Katana.

— Gabe, tá tudo errado nessa história! Tudo! — grita Nick Fury, expelindo perdigotos e fumaça de charutos de Havana.

— Eu sei. Olha, admito que o Woo pisou na bola ao trazer esse monstro pro porta-aviões, e ele já disse que errou. Mas não é só isso que está acontecendo. As paredes de segurança. Elas são automáticas, mas um exame rápido que um de nossos técnicos fez mostrou que elas foram acionadas manualmente. Alguém quis prender Woo e o CLASH lá dentro com aquele monstro. E as paredes não podem ser abertas por um período predeterminado. Pior: desconfiamos, pelos sensores, que o departamento todo está sem energia.

— Mas os geradores deveriam funcionar! — diz Fury.

— Não funcionaram. Não sabemos por quê. Alguém deve tê-los inutilizado. Só saberemos quando entrarmos lá.

— Gabe, eu conheço esse porta-aviões melhor do que eu conheço o corpo da Val. O setor perto do hangar onde cês instalaram o CLASH tem um ponto fraco. Só que é pela parte de baixo do departamento, na barriga do porta-aviões. Cês teriam que usar naves e romper a parede por ali. Nesta área exata que eu tô te mostrando. — Fury aciona um mapa holográfico em sua mesa — O revestimento do piso é mais fino. Fizemos isso exatamente para situações como essa. Mas, Gabe: depois disso, descobre quem acionou as paredes. Traição não vai dar pra engolir.

Gabe se levanta e, quando sua mão já está na maçaneta, Fury diz:

— E coloca mais alguém junto com o Woo. Ele pode ficar puto, dar aqueles faniquitos de china dele, mas ele claramente não tá conseguindo segurar esse grupo sozinho.

— Você está bem, Falcão? — pergunta Katana.

— Minha cabeça dói, mas eu tô legal.

— Olha, a gente precisa de um plano. — diz Paladino — Pela direção que a criatura

tomou, ela vai acabar dando a volta e entrando de novo no setor onde estavam os guardas de segurança, só que pelo outro lado. Vamos fazer o seguinte. Falcão, você fica tomando conta do Woo. O cara tá bem ferido e inconsciente. Melhor, leva o corpo dele pro seu quarto e tranca a porta. Assim, você garante que a criatura não entre e ainda impede que o Asa Vermelha saia da gaiola e fique voando por aí fazendo coisas bizarras.

— O Asa não... — Falcão tenta protestar.

— Tá, tá. Enquanto isso, eu vou esperar o bicho na porta por onde ele saiu da primeira vez, aquela porta que explodiu, com um treco daqueles. — Paladino aponta pra um canhão fotônico — Katana e Mercenário vão atrás da criatura, seguindo o caminho que ela tomou. Mas levem estas coisas.

E Paladino aponta para duas pistolas bifurcadoras.

— Agora é guerra! — diz Paladino.

Gabe retorna para seu posto e encontra Abdul olhando para uma porta.

— O que foi, Qamar?

— Eu... não sei muito bem.

— Esse é o centro de comando das paredes de segurança. — diz Gabe — O que você... o que é isso? — Gabe interrompe a si mesmo.

Sobre um dos painéis, está um regulador cronoestático.

— Abdul, olha isso. Parece que alguém esteve por aqui e programou a abertura das paredes para um horário predeterminado. Não sei quando colocaram isso aqui, mas faltam apenas seis minutos.

Um agente se vira, suando em bicas e segurando uma enorme mecano-furadeira abstrusa.

— Isso quer dizer que a gente pode parar de tentar furar a parede, senhor?

— Ahn? — espanta-se Gabe — Claro que não, idiota! Continuem!

Paladino aponta com firmeza o canhão fotônico e espera. A criatura, encurralada por Katana e Mercenário, deve aparecer em poucos minutos na porta à sua frente.

Enquanto isso, na câmara criogênica, os cilindros pingam cada vez mais. Em cinco minutos, as criaturas dentro deles despertarão de seu descanso polar. E quem sabe o que sairá de seu interior?

O silêncio é impressionante. Na escuridão, Paladino sua e tenta manter a calma. Onde estarão Katana, Mercenário e o alien? No quarto a poucos metros, Falcão acalma Asa Vermelha e tenta estancar o sangue que escorre pelo ferimento de Jimmy Woo. Em frente à porta, Paladino sente o canhão pesar em seus braços.

Quatro minutos.

Os dedos de uma figura azulada em um dos tubos criogênicos realmente se mexeram?

Três minutos.

Paladino ouve suas gotas de suor caírem no chão de metal.

Dois minutos.

O piso da sala de criogenia está encharcado. Alguém bate no interior de um dos tubos.

Um minuto.

Uma mão azulada bate repetidamente no revestimento de aço e plexiglass do tubo criogênico.

Trinta segundos e Paladino escuta sons vindos da porta à sua frente. Ele prepara o canhão fotônico. A criatura provavelmente virará uma poça acinzentada com o impacto. Um vulto se aproxima do vão da porta. O dedo de paladino começa a apertar o gatilho.

— Não atire! Paladino!

É Katana quem grita. Acompanhada de um atônito Mercenário, ela diz:

— Mas o monstro estava na nossa frente. Não foi fácil fazê-lo tomar este caminho, mas o que houve?

— Porra, cadê ele? — grita Mercenário.

Um segundo.

Um barulho de garras rasgando metal.

Zero segundo.

Na sala de comando das portas de segurança, Gabe Jones e Abdul Qamar vêem o curioso aparelho emitir um som estranho e ativar os controles internos. As paredes de segurança começam a abaixar, lentamente.

Zero segundo.

A energia volta no interior do departamento CLASH. Na sala de criogenia, mãos azuladas voltam a ficar inertes. Os tubos de criogenia estão novamente sendo alimentados.

Zero segundo.

O flash de luz que toma repentinamente toda a sala cega Paladino, Katana e Mercenário. Como que em uma atuação previamente ensaiada, o alien salta de dentro dos tubos de ventilação, a luz rediviva tornando-o ainda mais assustador.

Paladino tenta virar o canhão fotônico, mas a arma é pesada. A criatura o alcança e ele salta para o lado. Agora, o alien está enraivecido como nunca e Paladino, Katana e Mercenário estão cegos, tentando retirar seus óculos infravermelhos. A criatura está a menos de meio metro deles. Basta esticar um braço e um deles morrerá. Ou todos. Eles tiram os óculos e a claridade da sala torna o monstro surreal, produto dos pesadelos de um demônio rimador.

Neste momento, a criatura uiva de dor. Ela leva os dois braços até o seu estômago e grita em frequências de pura agonia, como se algo a comesse por dentro. É quando o mais inacreditável acontece. O que seria a "barriga" do alien se rompe e, do rasgo, emerge uma cabeça amarela. O buraco aumenta. O estômago do monstro é completamente rasgado. Um nojento ruído semelhante a velcro se abrindo preenche a sala. O alien se debate em agonia, seu sangue ácido respingando e corroendo as paredes e o chão. Todos tentam se proteger da chuva corrosiva. Mercenário é o primeiro a dizer:

— Eu não acredito. Isso é... é...

Da barriga da criatura salta uma Sigourney Weaver amarela, de cerca de um metro de altura. Ela pára em frente ao alien agonizante, aponta uma estranha arma e diz com voz de desenho animado:

Die, bitch!

A arma emite um jato parecido com laser amarelo. A pequena Sigourney Weaver desaparece lentamente, enquanto o corpo do alien morto cai pesadamente ao chão.

— Isso é... é... — diz o Mercenário.

— É a coisa mais escrota que eu já vi! — diz Paladino.

— Não. — diz uma voz vinda da sala maior — Isso é Guy Gardner.

Gardner está sentado, usando óculos escuros amarelos, em uma cadeira de diretor de cinema amarela e voadora.

— Seus palhaços. — diz Gardner, enquanto desce ao chão e caminha para o banheiro — Espero que não tenham detonado minhas edições da Soldier of Fortune que eu deixei do lado da privada.

Katana, Paladino e até mesmo Mercenário ficam longos segundos com as respectivas bocas entreabertas, olhando Guy entrar no banheiro.

— Parece que Guy Gardner foi mais rápido do que os teus homens, Gabe. — diz Fury — Ele entrou pelo ponto da barriga do porta-aviões que eu tinha te dito.

— Nick, tente não falar a palavra "barriga" nos próximos dias, tá? Eu posso vomitar. Você não viu o que Gardner fez com o monstro. Eca.

— Bom, tá tudo voltando a caminhar agora. Cê já mandou o Mercenário para a Gruta, né? E como está o Woo?

— Bem. O corte não foi tão sério ou profundo, mas ele perdeu muito sangue. De qualquer forma, já está em pé e insiste em trabalhar. Diz que hoje mesmo vai ao deserto de Nevada encontrar uma possível aquisição para o CLASH. Pelo que me disse, é o Titã conhecido como Cyborg. — diz Gabe.

— Sei. O tal de Victor Stone. Nada mal. O menino tem poderes interessantes. E vai ser útil para a próxima missão do CLASH. — completa Fury.

— Sim. A Austrália. Essa missão pode ser bem estranha.

— É por isso que insisti que cê colocasse um segundo-em-comando para ajudar o Woo. Ele já sabe?

— Sabe. Não gostou muito. Mas aceitou até melhor do que eu pensei.

— Então só resta a gente descobrir quem acionou as paredes. E, pelo que cê me disse, deve ter sido a mesma traíra que depois colocou aquele negócio lá pra abaixar as paredes e religar a energia no departamento CLASH.

— Sim, Fury. Estamos investigando.

— Ótimo. Ah, e congratule o Sitwell. Vai ser bom pro Jasper ingressar no CLASH. Ele precisa anuviar as idéias depois da morte do irmão dele.

Escócia. Meia-noite e meia. Uma figura vestida de negro se esgueira pelas sombras de uma das moors que infestam o país. A planície parece fantasmagórica para Robert Sommer, agente do MI-6. Se as informações estiverem corretas, é no castelo à sua frente que a "argamassa" está sendo preparada. O que é a "argamassa" ou quem a está preparando, ninguém sabe. Mas o MI-6 tem algumas suspeitas em relação à segunda questão. Ou melhor: sir Denis Nayland Smith tem algumas suspeitas. A de sempre.

Sommer recebeu do MI-6 um relatório de uma discreta missão de reconhecimento anterior. Pelo relatório, o castelo de Stillshire teria uma entrada lateral relativamente fácil de ser utilizada.

E, para alívio de Sommer, é assim. Ele não tem problemas em utilizar sua caneta laser para abrir a tranca da pesada porta de metal. Caminha com cuidado pelo escuro corredor de pedra. Após meia hora de oculta peregrinação por diversos cômodos do castelo, ele encontra alguns guardas, que felizmente não o vêem. Estranhos guardas, vestindo tangas, sem camisa e portando nunchakus e adagas.

"Melissa Greville tinha razão: toda missão indicada por Nayland Smith desemboca em algum bando de freaks." — pensa ele — "Diabos."

Sommer segue por mais um entre inúmeros corredores escuros e silenciosos. Mas este é diferente: existe uma forte luz azulada no final. Ele se esgueira furtivamente pelas sombras e observa. O corredor termina em uma sacada. E, lá embaixo, a uma altura significativa, há um imenso tanque. Ele não está certo sobre o seu conteúdo. Ao olhar pela primeira vez, parece conter um gel azulado, fluorescente, em quantidade absurda. Litros e mais litros daquela gosma. Mas, ao desviar o olhar e voltar a atenção para o tanque novamente, percebe outra coisa: um líquido verde. E assim acontece, sucessivas vezes. Sempre que desvia o olhar e volta novamente a fitar o tanque aos pés da sacada onde está, Sommer vê um novo conteúdo. Barro avermelhado. Lama cinza. Um líquido leitoso e marmóreo. Água gasosa e fervente. Sange coagulante. Vinho. Azeite de oliva. Excremento. Rochas calcárias.

A argamassa.

Atraído por este estranho cenário, Sommer não percebe de imediato que, logo abaixo da sacada, existe um trono. Estica o pescoço mais um pouco e vê o que parece ser um ancião, trajando uma túnica de seda dourada e verde. Um servo musculoso se aproxima desta figura, ajoelha-se e, de cabeça baixa, diz:

— A argamassa está pronta, pai celestial.

— Excelente. Mande os pedreiros se prepararem.

A voz felina e sibilante causa arrepios em Sommer, mesmo àquela distância. Agora ele já tem certeza. Volta a se afastar para as trevas do corredor e saca do bolso uma minúscula caixa de plástico e metal. Rapidamente digita uma única frase e envia o texto digitalmente. Mal termina de fazer isso e mãos fortes o agarram pela cintura e, antes que possa fazer qualquer coisa, o levantam no ar e o arremessam pela sacada. Sem conseguir sequer gritar, Sommer cai para a morte em direção ao tanque. Sente o olhar quase físico do estranho velho no trono acompanhar sua queda. Ao encarar o tanque pela última vez, antes de atingí-lo, Sommer percebe um novo conteúdo.

O tanque está repleto de corpos despedaçados de sua esposa, Joan.

Escócia. O castelo conhecido como Abrigo das Tempestades. Escritório privado de sir Denis Nayland Smith.

Um leve "bip" eletrônico ressoa como um estrondo na quietude da noite escocesa. Sir Denis se levanta e lê a mensagem na tela do comunicador digital.

"É ELE."

Os olhos de Smith se diluem em uma mescla de surpresa e profundo cansaço. Após um minuto pensando, ele pega o telefone e disca.

Na outra ponta da linha, em uma casa no bairro do SoHo, em Londres, uma mulher de cabelos negros atende ao telefone.

— Alô?

— Leiko?

Sir Denis? O que foi?

— ...

Sir Denis? Está tudo bem?

— Leiko, preciso falar com Shang Chi.



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.