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The Clash # 08

Por Alexandre Mandarino

Sombras da Noite, Sombras da Morte

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Escócia. Dez e quinze da noite.

O vento sopra e choraminga na highland escocesa. Grãos de areia e pequenos ramos flutuam em uma trajetória de linha pontilhada pelo ar. Ao se aproximar do velho castelo, estes elementos executam um respeitoso desvio, como que reconhecendo a imponência deste antigo combatente de pedra. O Abrigo das Tempestades está quase às escuras. A exceção é uma janela que dá para o pátio interno, de onde salta uma luz bruxuleante. Em seu interior, um velho já cansado rumina memórias.

Casablanca, Whitechapel, Nova York, Cairo. Sir Denis Nayland Smith conheceu metade do mundo em sua longa e agitada vida, mas todos os lugares em sua memória, são nublados pela sombra de um homem. Uma sombra que se projeta sobre as ruas, becos, esgotos, palácios e casebres. Uma penumbra antiga, com aroma de jasmim, que remete a tubos de ensaio, animais de laboratório, seitas marciais e planos obscuros.

Sir Denis esteve absorto pela última meia hora em um volume dos seus diários. Leva a mão até os olhos e, fatigado, fecha o livro. Quase no mesmo momento, a porta do escritório se abre e uma senhora entra.

— Eles chegaram, Nayland. — diz a sra. Haversham.

— ...mande-os entrar. — a voz de sir Denis soa mais debilitada do que de costume.

Instantes depois, um casal oriental entra no vestíbulo. Ele veste uma camisa preta de gola rolê e ela um longo vestido vermelho de seda, com dragões dourados estampados. Nayland Smith toma a palavra:

— Olá, Shang Chi. Como vai, Leiko?

Sir Denis, o que houve? Será possível que...

— Que ele esteja vivo? Tudo leva a crer que sim, Leiko. Infelizmente. Esse é um tormento sobre o qual eu esperava não ter que voltar a falar nesta vida. Afinal, vários anos se passaram desde a última "morte" dele. Mas, como das outras vezes, ele ressurge como uma maldita fênix imortal.

Shang Chi olha para o chão, imerso em pensamentos. É Leiko quem pergunta:

— Quais são os dados, sir Denis?

— Agentes do MI-6 encontraram por aí menções a algo chamado "Argamassa". Os locais em que isso aconteceu me intrigaram: Hong Kong, Beijing e... Honan.

Chi levanta os olhos e fixa Nayland Smith, que prossegue:

— Mandei um amigo, agente do MI-6, investigar por conta própria, fora da agência. Ele desapareceu em um castelo a quilômetros daqui, também na Escócia. E seus últimos relatos, por rádio, deram a entender que ele havia encontrado a própria Argamassa, o que quer que isto seja, e seu fabricante. Sim, ele mesmo. O agente desapareceu sem deixar vestígios, mas pareceu certo de que era o maldito. Desculpe, Shang, por falar assim.

— Ele não é mais meu pai, sir Denis. O senhor sabe disso.

Leiko interrompe:

— E o senhor quer que eu e Shang entremos neste castelo? Podemos chamar Tarr e Reston e tentar descobrir o que...

— Não, não. — corta sir Denis — Infelizmente, isso não vai funcionar. Não estamos mais ligados ao MI-6 e o serviço de informações que mantenho aqui no Abrigo das Tempestades é hoje uma sombra do que foi. Na verdade, o Abrigo se tornou para mim somente um local onde posso passar meus últimos dias em tranqüilidade, longe dos horrores do passado. Tarr e Reston não têm mais operado conosco. Estão em Londres, levando suas vidas. De vez em quando, Tarr visita este Abrigo, em consideração a um velho que...

Sir Denis, não fale assim. — diz Leiko — Mesmo sem apoio, eu e Shang podemos...

— Não, Leiko, não desta vez. Estes tempos já se foram. Pelos poucos indícios que obtive, desta vez é diferente. A coisa toda é grande demais. Tenho uma idéia melhor. Anos atrás, eu e Tarr conhecemos, na China, um agente do FBI, na época um novato. Um certo Jimmy Woo. Meus contatos me disseram que agora ele lidera um esquadrão especial da SHIELD ou coisa parecida. E este esquadrão esbarrou em organizações provavelmente ligadas àquele que combatemos. Hoje cedo, falei com Woo pelo telefone. Em troca de um velho favor, ele aceitou alojar um de nossos agentes em seu esquadrão, em caráter extra-oficial. Assim, teremos apoio, ainda que não com comando direto.

— Eu serei esse agente. — diz Shang Chi.

Leiko tenta protestar, mas é interrompida:

— Leiko, se for verdade e meu pai estiver de volta, preciso pôr um fim aos seus planos. A sombra de meu pai já ameaçou o mundo centenas de vezes. Eu já o vi morrer em três ou quatro oportunidades, e em número igual presenciei seu retorno. Se ele estiver de volta, preciso saber.

E a sombra de Fu Manchu parece sair dos diários de sir Denis e cobrir todo o castelo nesta noite.

Porta-aviões aéreo da SHIELD, sobrevoando local não-divulgado. Sala de reuniões do departamento CLASH. Dez e quinze da noite.

Jimmy Woo, de camisa aberta, termina de trocar os curativos do corte em seu peito. Um corte estranho, feito por uma criatura inumana, mas que não parece ser tão feio. Em poucos dias, provavelmente terá cicatrizado. A porta se abre e Jasper Sitwell entra.

— Olá, Woo.

— Sitwell.

— Bem, Gabe me disse que...

— Eu sei. Nós dois somos líderes do CLASH agora.

— Woo, quero que saiba que não me sinto confortável com isso. Quero dizer...

— Está tudo bem, Jasper. Não é ter de dividir a liderança o que me incomoda. Para falar a verdade, estou pensando em seu irmão, Carl. Ele foi morto por agentes da Hidra, uma das organizações que o CLASH foi criado para ajudar a combater. Espero que pensamentos de vingança não estejam nublando sua mente.

Sitwell ajeita sua gravata borboleta e diz:

— Muitos seriam capazes de ter a mesma dúvida quanto a você, Woo, em relação ao Garra Amarela. Afinal, o Garra...

— Matou minha amada, SuWan? Sim, matou. Mas, ora, Sitwell, eu sou o único por aqui que acha que o Garra Amarela está por trás de todas estas ações recentes de terrorismo. Não vá me dizer que passou a acreditar nisso agora? — responde Woo, com ironia. Antes que Jasper possa retrucar, a porta se abre e entram os integrantes do CLASH.

Paladino, Katana, Falcão e Guy Gardner tomam seus lugares nas fileiras de poltronas em frente ao telão. Gardner diz:

— E aí? Qual é o filminho de hoje? "Alien: A Ressurreição"?

— Gardner, não deveria fazer piadas quanto a isso. Afinal, você desapareceu completamente enquanto Paladino, Sam e Katana enfrentavam a criatura. Até o Mercenário teve que ajudar, já que você estava em seu autoproclamado "dia de folga". — repreende Woo.

— Mas voltei e resolvi a parada, não foi? E quem é o almofadinha de gravata borboleta?

— Esse é Jasper Sitwell. Ele dividirá comigo as funções de comando no departamento CLASH de agora em diante. A coisa funciona da seguinte forma: um de nós será o líder de campo, enquanto o outro ficará no departamento, cuidando das coisas, em caráter de revezamento. Como este corte ainda não cicatrizou, isso significa que ele irá a campo na próxima missão. Aliás, antes de falar sobre isso, gostaria de...

Woo é interrompido por um sinal em seu comunicador.

— Woo, é o agente 23. O garoto, Sheridan, pegou no sono. Por enquanto, tudo está normal.

— Ótimo. Mantenha-o sob observação. E cheque regularmente as condições de segurança. Woo desligando. — ele se volta para o CLASH e continua:

— Como eu dizia, antes de passar os detalhes sobre a próxima missão, gostaria de apresentar nossos novos agentes.

— Quero só ver. São os caras que vão entrar no lugar do Fera e do Elástico, né? Até que enfim. — diz Gardner.

Woo faz um sinal com a cabeça para Jasper, que abre uma porta lateral. Por ela passam um homem negro, alto, com metade do corpo feita de metal, e um senhor de meia-idade, loiro e franzino, de óculos.

— Pfff. — desdenha Gardner.

— Gardner, não. Nem pense em falar nada. — fala Woo — Senhores, gostaria de lhes apresentar Victor Stone, o Cyborg. Talvez o conheçam da formação original dos Novos Titãs. Victor possui extensas capacidades cibernéticas e mecânicas, além de ser um gênio da eletrônica.

— Oh, uau! — diz Gardner — Eu já conheço o moleque. Cansou de brincar de polícia e ladrão com o Robin e o Aqualad, guri?

— Guy Gardner. Por que, Woo? — diz Cyborg.

— Sem perguntas complicadas, Victor. Bem, o segundo agente é um velho amigo pessoal meu, com quem tive a oportunidade de trabalhar muitos anos atrás. Seu nome é Hal Chandler. Ele é, digamos, a nossa carta na manga nesta missão.

— Tsc. Com esses dois manés, vamos precisar blefar mesmo. — diz Gardner para Paladino, que também não parece muito impressionado com os recém-chegados.

Cyborg se aproxima do grupo e, olhando para Sam, diz:

— Você é Sam Wilson, o Falcão, né? É um prazer conhecê-lo. Você sempre foi uma grande influência para mim.

Wilson agradece, um pouco constrangido. Gardner mais uma vez interrompe:

— Que lindo! Mas, guri, fica sabendo que a única coisa decente que o galinha aí fez foi ser parceiro do Capitão América. Por que cê não chama o Capitão pro grupo, Woo? Tá na hora de impor um jeito decente nessa merda de grupo.

Ignorando Gardner, Woo continua:

— Victor Stone foi convidado por mim para entrar no CLASH. Ele aceitou, em troca de arranjos e doações que beneficiarão determinadas organizações em prol das comunidades carentes de Nova York. — enquanto Woo fala, Sam Wilson sorri — E suas habilidades serão muito úteis. Já Hal Chandler está voltando à ação especialmente para esta missão, como um favor pessoal para mim. Bom, agora podemos dar prosseguimento à reunião.

Woo aperta um botão em um controle remoto e o telão se abre. Em seguida, as luzes se apagam e o som de um projetor em atividade é ouvido na sala. Na tela, surge um imenso deserto.

— Este é o nosso próximo alvo. A Austrália. Informes de missões anteriores da SHIELD indicam que uma base da IMA — Idéias Mecânicas Avançadas — foi montada em uma determinada montanha do deserto central australiano. O que eles estão fazendo, cabe a nós descobrir. Mas é bem provável que a base seja guardada por centenas de agentes da organização e, possivelmente, alguns meta-humanos. A suposta presença destes meta-humanos foi o que fez com que esta missão fosse passada para o departamento CLASH.

— Eu... Woo, acho que reconheço esta montanha. — diz Sam Wilson.

— Provavelmente. Talvez já a tenha visto nos arquivos dos Vingadores, Sam. Foi no interior desta montanha que, anos atrás, Bolivar Trask construiu os robôs gigantescos conhecidos como Sentinelas.

— Os caça-mutantes. — diz Paladino.

— Sim. Os robôs originais enfrentaram os X-Men repetidas vezes e, anos depois, neste mesmo local, travaram uma batalha contra os Vingadores após o rapto da Feiticeira Escarlate. Mas isso é apenas um detalhe. Os Sentinelas presentes no local foram completamente destruídos pelos Vingadores naquela ocasião. A idéia é nos infiltrarmos na montanha, neutralizarmos os agentes da IMA e sua força-tarefa e destruirmos o que quer que estejam fazendo por lá.

— Quando? — fala Katana, que estava em silêncio até então.

— Logo após esta reunião. — diz Woo — Mais detalhes com Sitwell, que será o seu líder nesta operação. Eu ficarei no departamento, monitorando tudo à distância.

Uma hora depois, a nave do CLASH (na verdade, uma nave dos Vingadores modificada) sobrevoa o Oceano Pacífico. Gardner, surpreendentemente quieto, escuta música em um par de headphones feitos de energia amarela. Falcão e Cyborg pilotam a nave, conversando de vez em quando. Jasper Sitwell e Hal Chandler estão sentados em um canto. Paladino fala para Katana:

— Sabe, eu detesto ter que concordar com o Gardner, mas realmente poderíamos ter alguém peso-pesado, pra variar.

— Não sei. — responde a samurai — O próprio Gardner é um peso-pesado. E já agi ao lado deste Cyborg. Ele tem muitos recursos, pelo que me lembro. Não é isso que me incomoda. É este senhor, Chandler. Nós deveríamos ao menos saber o que ele é capaz de fazer. Não gosto de ficar no escuro em relação às capacidades das pessoas com quem estou agindo.

Paladino fica calado, observando a enigmática e simplória figura ao lado de Sitwell. Pouco depois, Jasper se levanta e começa a falar:

— A Austrália tem um território de quase 7,7 milhões de quilômetros quadrados...

— Ah, não, pensei que sem o Woo a gente estivesse livre do momento-aula! — diz Paladino.

— Com a cara de professor desse mané? Viajou! — corrige Gardner.

— ...e isso faz dela o sexto mais extenso país do mundo, ficando atrás somente da Rússia, Canadá, China, Estados Unidos e Brasil. É o mais plano e, depois da Antártida, mais seco dos continentes, mas apresenta extremos de clima e topografia. Ao norte temos vastas florestas tropicais e planícies, mas o país ainda tem regiões geladas com neve no sudeste, um centro desértico e áreas férteis a leste, sul e sudoeste.

— Ninguém aqui tá pensando em virar fazendeiro na Austrália, CDF! — reclama Gardner.

— Será que vamos encontrar o Crocodilo Dundee? — pergunta Paladino.

Jasper ignora:

— Aham... cerca de um terço do país fica nos trópicos. A costa chega a um total de 36735 quilômetros. Se fosse possível dirigir ininterruptamente ao longo da costa a 60 quilômetros por hora, seriam necessários 24 dias para circundar o país.

— Mas como não é possível, essa informação é inútil. — diz Gardner. E, voltando-se para Paladino — Reparou que ele tá falando tudo de cabeça? Esse cara é ainda pior que o Woo.

— A Austrália faz parte do menor continente do mundo e, como disse, é o sexto maior país. Sua área é igual à dos Estados Unidos sem o Alasca, e duas vezes o tamanho da Europa sem a Rússia. O continente é uma das mais antigas massas de terra do planeta. Uma rocha maciça exposta à erosão por mais de três milhões de anos. Mais de um quinto de sua área é composta de desertos e é para um deles que estamos indo. É o único continente sem vulcões em atividade: a última erupção aconteceu há 1400 anos. As regiões mais frias ficam nas terras mais altas e na ilha da Tasmânia. A temperatura mais alta já registrada é de 53 graus Celsius, em Cloncurry, em 1889. É uma democracia independente com uma população de 18 milhões de pessoas.

— E quantos cangurus e coalas? — pergunta Gardner.

— Quanto aos cangurus e coalas, o isolamento do país por 55 milhões de anos criou um santuário natural para a flora e a fauna. A Austrália tem 280 espécies somente de mamíferos, dos quais quase a metade são marsupiais. A maioria só existe na Austrália. A bandeira australiana é a única que é adotada em um continente inteiro. A pequena Union Jack (*) no canto superior esquerdo representa a ligação com a Grã-Bretanha. As seis estrelas representam tanto os seis estados e territórios combinados quanto o Cruzeiro do Sul, aparição comum nos céus deste hemisfério. O seu dia nacional, 26 de janeiro, marca a data na qual, em 1788, o Capitão Arthur Phillip, da Marinha Real Britânica, comandando uma esquadra de onze navios, chegou a Port Jackson, formando o povoado hoje conhecido como o grande centro urbano que é Sydney.

— É isso? — pergunta Gardner.

— Sim, é isso. — responde Jasper — É prudente sabermos mais sobre algum local antes de agirmos nele.

— Oh, isso nos ajudará tanto contra a IMA! — zomba o ex-Lanterna Verde — Mas, ei, quem sabe eles não mudaram a sigla para Idéias Muito Australianas?

É quase meia-noite quando a nave pousa, silenciosamente, sobre as areias do deserto. A cinco quilômetros dali, como uma mancha negra sobre um cenário também negro, está a montanha da IMA. Todos descem da nave em silêncio. Sitwell diz:

— Quero que todos acertem seus relógios e chequem seu equipamento de segurança. Como não estamos em área povoada, não há necessidade de disfarces holográficos. Confiram seus apetrechos, poderes, o que quer que seja que façam nestas horas. E mantenham total silêncio. Provavelmente não detectaram a nossa nave, mas a IMA é dona de muitos recursos tecnológicos e sabe-se lá o que estão armando ali.

— Isso quer dizer que cê tem um plano, CDF? — diz Gardner.

Jasper olha para ele, irritado:

— Sabe, Gardner? Já encontrei vários agentes como você antes. Em toda a minha experiência de mais de uma década como agente da SHIELD, elo de ligação com as indústrias Stark e espião, esbarrei com valentões como você a cada esquina. A maioria deles eram inimigos do Homem de Ferro. E todos invariavelmente se davam mal. Mas tenho certeza que você é mais competente do que isso e certamente não terá o mesmo fim. Mas, sim, eu tenho um plano.

Ele dá alguns passos à frente e, de costas para o grupo, observa a montanha.

— Não podemos nos arriscar a seguir com a nave até lá. Por outro lado, também não podemos simplesmente ir andando em campo aberto. É aí que entra você, Sam. Quero que sobrevoe o terreno, a baixa altitude, rente ao solo, até cerca de duzentos metros do pé do montanha. Fique de olhos abertos para agentes, armas, minas, etc. Use o visor infravermelho de seu capacete, claro, já que estamos na lua minguante e a noite segue bem escura. Depois, retorne aqui e avançaremos com extremo cuidado. Mantenha contato pelo rádio, na nossa freqüência especial.

— He. Procedimento padrão do exército americano: mande os negros na frente. Não quer ir junto, robô? — diz Gardner, olhando para Cyborg.

— Cale a boca, Gardner. — diz Sitwell — Realmente eu não vejo a hora de vê-lo em ação e checar se é mesmo tão bom quanto arrota que é. Falcão, inicie o procedimento, por favor.

A equipe observa Sam Wilson e sua ave, Asa Vermelha, levantarem vôo. Uma sensação de apreensão se abate sobre o grupo. Mas, surpreendentemente, tudo vai bem. Minutos depois, uma comunicação pelo rádio.

Tudo OK, ao que parece, pessoal. Arbustos, lagartos, areia e mais areia. Nada de mais à vista. Estou indo mais devagar, por causa da baixa altitude de vôo. Estou a cerca de dois quilômetros da montanha.

Mais um minuto de expectativa. Todos ficam em silêncio. Sam Wilson já está fora do alcance de sua visão. Então, o rádio:

Ainda tudo OK. Estou a quinhentos metros da montanha. Nada de mais à vi... espere.

O grupo prende a respiração, instintivamente.

Há algo na areia, parece que alguma coisa está se desenterrando...

Uma imensa figura emerge do solo arenoso do deserto, como o parto de uma criatura infernal. Um gigantesco Sentinela levanta da areia, analisa Sam Wilson e fala, com voz monotônica:

— Mutante.

O guincho metalizado ecoa pela noite e, em seguida, todo o deserto entra em ebulição. Criaturas e mais criaturas saem do subsolo e falam em uníssono:

— Mutante.

— Mutante.

O Falcão, ao lado de Asa Vermelha, tenta escapar dos raios e mãos gigantescas de dezesseis Sentinelas. À distância, os enormes robôs são vistos pelos outros membros do CLASH como uma massa difusa de sombras negras em frenético movimento. Guy Gardner diz:

— E aí, qual é o plano agora, CDF?

Nova Délhi, Índia. Três da manhã.

O agente McMurdo passa as mãos na testa para limpar o suor. Os estranhos vultos entram em um casebre. Ele saca a pistola automática do coldre e a segura firme nas mãos. De repente, dor em seu pescoço. Um garrote. Alguém atrás dele aperta com força, tentando estrangulá-lo. Ele leva a arma até a parte de trás de sua cabeça e atira. O thug cai, seus miolos expostos. O barulho atrai três outros, que vêm na direção de McMurdo, armados com facões, lanças e garrotes. Algo faz um talho na coxa esquerda do agente.

Mais cinco tiros do agente e dois caem ao chão de terra, mortos. Vizinhos olham pelas janelas, assustados. O adversário remanescente atira seu facão, que rasga o ombro esquerdo de McMurdo. Uma última bala atravessa simetricamente a testa do indiano. O agente inglês corre e, atrás dele, a porta do casebre se abre. Dez ou doze thugs correm em sua direção, louvando gritos a Kali. Facas e lanças passam por seus flancos, enquanto McMurdo, suando em bicas, pega outra arma em suas costas. Sem parar de correr, atira de encontro à multidão às suas costas. Três ou quatro caem, gemendo de dor. O inglês aperta o passo e então pula na caçamba de uma caminhonete que passa pelo local.

Inútil: o motorista, um velho indiano de barbas brancas, ouve o ruído do baque de seu corpo e pára o veículo.

McMurdo sobe no teto da cabine do veículo e, desviando-se das lanças e facas como pode, dispara sua arma. Uma bala arranca a mandíbula de um dos thugs, que cai, sem o queixo. Outra estraçalha o joelho de um segundo assassino. Após um ou dois minutos de intensa balbúrdia, McMurdo dá cabo de nove inimigos. Três ainda estão vivos e tentam espetá-lo com suas lanças. As balas acabam. McMurdo mexe nervosamente em seu cinto, enquanto pula para dentro da caminhonete. Desfere um soco no rosto do ancião motorista, que baba sangue, dá partida no veículo e logo em seguida dispara seu taser. O cabo de aço se distende e a ponta metálica atravessa o pescoço de um dos assassinos. Um choque terrível elimina o atingido, que por alguns instantes é arrastado pela caminhonete, até que McMurdo solta o taser de seu cinto.

Um dos thugs restantes está correndo atrás do veículo. McMurdo engata a ré e o atropela. O adversário morre com uma oração a Kali nos lábios. Finalmente, o agente volta o veículo para seu caminho original. Mas onde está o assassino restante? Deve ter fugido. Ouvindo os choramingos do ancião no banco do carona, McMurdo estica o braço e abre a porta direita do veículo, despachando o velho para o chão de terra. É quando uma lança atravessa o teto da cabine e rasga seu braço direito. McMurdo xinga de dor e pisa no freio. O thug, que estava sobre o veículo, voa oito metros para a frente e se estatela em um monte de lixo.

Instantes depois, o inglês, ensangüentado, chega ao hotel onde está hospedado. Após fazer os devidos curativos e tomar uma revigorante ducha, ele se certifica de que as portas e janelas continuam trancadas e liga o videofone. A imagem distorcida de um loiro musculoso aparece na tela.

— McMurdo chamando CB. McMurdo chamando CB.

— Braddock falando. — responde a imagem — Como vão as coisas?

— Mais ou menos. Quase fui pro beleléu meia hora atrás. Mas o agente Wilson estava certo. O casebre é o foco deles. Pela quantidade de babacas que saiu de lá, deve ser apenas a entrada para alguma instalação subterrânea.

— Como a gente imaginava. E a mansão?

— Pois é, foi da mansão que partiram os vultos estranhos que me levaram até o casebre. Você tava certo, Braddock. São thugs. Thugs!! Pensei que os ingleses já tivessem prendido esses palhaços desde a época da colônia.

— O culto a Kali é uma tradição muito antiga, não iria desaparecer assim de uma hora pra outra. Mas o que você viu na mansão?

— Bom, se prepara, CB. Tá sentado? Você tava certo. A mansão é ocupada por ninguém menos do que ele. O china. Quer dizer, era ocupada. Ele fugiu de helicóptero assim que os outros agentes chegaram. Foi a última coisa que vi antes de partir em direção ao casebre: o china fugindo de helicóptero.

— E era ele mesmo?

— Com certeza. O maníaco que se autoproclama Mandarim.

Braddock fica em silêncio. McMurdo arrisca:

— E aí? O que vai fazer?

— Esse homem transformou minha irmã em algo que pouco pude reconhecer. Ela era uma mulher alegre, adorável e foi transformada em uma assassina rude, sombria e infeliz por esse desgraçado. Vou caçá-lo como a um cachorro.

— Tem uma coisa, CB. Provavelmente o cara voltou pra China. Você não pode agir na China, justamente na China, vestido com a bandeira inglesa! Vai dar a maior merda diplomática.

— Eu sei disso. Não, desta vez o Capitão Bretanha terá que agir de forma mais sutil. Mas tenho planos, McMurdo. Já sei o que fazer. Lembra-se do coronel Nick Fury, da SHIELD? Pois é, ele pode ser útil para o que pretendo fazer.

— Bom, boa sorte. Ah, outra coisa, CB. O china estava falando ao telefone sobre algo bem sinistro. Quer dizer, me pareceu sinistro. Pude ouvir algumas palavras: Nova York, hashashins e algo que ele chamava de "Argamassa". Tem idéia do que significam?

Porta-aviões aéreo da SHIELD, sobrevoando local não-divulgado. Sala de criogenia do departamento CLASH.

Em um dos dois cilindros criogênicos ainda ativos, um vulto azulado tem estranhos espasmos. Seus braços se retesam e sua boca se abre como que querendo falar. Se alguém estivesse presente naquele cômodo poderia ter escutado algumas palavras escaparem de sua boca.

"Hitler"?

"Congelado"?

"Bucky"?

Mas, com exceção dos pesadelos, a sala está glacialmente vazia.


:: Notas do Autor

(*) Union Jack é o nome popular pelo qual é conhecida a bandeira da Inglaterra. voltar ao texto



 
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