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Lobo # 07

Por Alexandre Mandarino

El Justiciero Cha Cha Cha

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Os arbustos rolavam pelo deserto, impulsionados pelo vento da madrugada. Alguns vinham de encontro ao jipe, como se a natureza desafiasse os dois mutantes por estarem cruzando uma de suas paisagens mais inóspitas. Preocupado com a ventania, Julio prendeu seus cabelos com dois palitos.

— Vai despentear tudo, depois da trabalheira que eu tive fazendo escova — observou o mutante conhecido como Shatterstar.

— Calma, Gavinho. Já estamos quase chegando a Guadalajara — replicou Rictor.

— Acho bom. Estou cansado de tantas lutas. Espero que sua cidade natal seja algo minimamente aprazível.

— Pode estar certo disso. Guadalajara já é bem grande, mas nada de perturbador vai nos acontecer por lá. Enfim teremos juntos o descanso de que precisávamos há muito tempo. Você vai adorar o México, fique tranqüilo.

— É bom mesmo, porque os últimos acontecimentos envolvendo mutantes não foram nada tranquilizadores — insistiu Shatterstar.

— Não seja chato, Shatty.

— Quem é o dono dessa biboca? — berrou Lobo, após um minuto de espera na sala de entrada da estalagem Sierra Rica. Foi quando viu na parede o aviso: toque a sineta para chamar o recepcionista. O czarniano esmurrou a sineta, que quebrou junto com a mesa da recepção, onde estava apoiada. O barulho chamou a atenção de um homem rotundo, que logo veio ver o que havia acontecido.

Sangre de Madre! Fique calmo, señor! Já estou a caminho. Pronto: Eduardito Ruetandaño à sua disposição! Bem-vindo à Sierra Rica! Deseja um quarto?

— Calaboca, bola! A parada é a seguinte: os manés lá na rua me disseram que dois mutantes tão hospedados aqui. Cadê os caras?

— Mutantes, señor?

— É, caceta! Pelas fotos que eu vi no jornal, são dois boiolas cabeludos.

— Ah, deve estar falando do par de maricóns! Eles partiram hoje de manhã.

— Pra onde?

— Creio que os ouvi falar em Guadalajara, señor.

— Como eu chego nessa porra?

Minutos depois, o Maioral estava sobre uma Harley-Davidson roubada, seguindo os sinais da estrada em direção ao local conhecido como Guadalajara. À sua frente, um carro com luzes no teto bloqueava a passagem. Lobo parou e observou.

— Veja, Galván, um motoqueiro cabeludo.

, Lopez, vamos tirar umas notas dele. Se tiver dinheiro como os dois maricóns que passaram aqui de manhã, vamos jantar fartamente hoje! Pare, Hell's Angel!

— Que porra é essa? Cês são o quê? Vamos saindo logo aí da frente, cacilda! — reagiu nosso herói.

— Calma, marginal! Para onde vai? Me mostre seus documentos!

Lobo desenrolou sua corrente e começou a girá-la sobre sua cabeça.

— Galván, el hombre é loco!

— Loco, não. Lobo!

— Ele diz que é um lobo. Atire!

As balas dos velhos revólveres 38 acertaram a pele de Lobo. Algumas ricochetearam, outras penetraram fundo na carne do mercenário.

Aaah! Filhos da puta!

Nosso herói acelerou e a moto saltou por cima do velho Mustang, perdendo-se nas estradas do deserto.

— Lopez, o que era aquilo?

"Esses babacas têm sorte. Se eu não tivesse caçando os dois mutantes pela recompensa, tinha matado os dois bonito. Mas se eu fizer isso, sou teleportado. Maldita Eternidade!", pensou o mercenário.

Julio e Gaveedra tinham deixado suas coisas no hotel e caminhavam pelas ruas de Guadalajara, em busca de uma cerveja.

— Sabe, Julio, este seu mundo continua me sendo estranho, mas começo a gostar de coisas que vejo por aqui. Este local é tranqüilo e me deixa calmo após tantas lutas sem fim.

— Eu disse que você ia gostar, Shatty. Além do mais, estamos juntos e logo pod...

Uma maçã na testa de Rictor interrompeu a frase.

— Mutantes! Saiam daqui! — gritou um pequeno grupo na calçada.

, nós vimos vocês no jornal de hoje. O que estão fazendo em Guadalajara? Aqui não há lugar para mutunas!

— Muito menos para mutunas maricóns!!

— Chega! — disse Shatterstar, desembainhando sua espada de lâmina dupla. — Agora vou ensinar vocês a não serem tão hostis. Vão engolir seus preconceitos com sangue!

— Espere, Shatty — disse Rictor. — Não piore as coisas. Veja, um leve tremor de terra e eles nos esquecem. Vou aproveitar e levantar um pouco de poeira para encobrir nossa fuga.

Rictor apontou para o chão e um pequeno terremoto assustou os pedestres, afugentando-os.

— Vê? Vamos, venha procurar um bar comigo.

— Negócio é o seguinte, putada. Tou procurando dois mutantes. Me disseram que eles tavam aqui nessa cidade escrota. É bom me dizer onde os caras tão ou vocês vão morrer.

— N-não, señor. Não é necessário violência. Viveiros, aqui ao meu lado, viu os dois que procura. Conte para o señor, Viveiros.

, eles estavam bebericando em um bar que freqüento, o Alegria Rosa.

— Onde?

Lobo invadiu o Alegria Rosa a pontapés.

— Muito bem, seus merdas, fiquem quietos ou essa porra vai ser detonada! Quem aqui é mutante?

Rictor e Shatterstar permaneceram olhando para a frente, sentados no balcão. As outras pessoas no bar olharam na direção da dupla.

— As duas frangas ali, é? — disse Lobo. — Vocês, boiolas, a morte chegou!

Rictor se levantou e, encarando Lobo, disse: — Quem é você, um soldado de Fitzroy? Um novo sentinela? O que você quer? Será que nunca teremos paz por sermos mutantes?

— Não. Não. Quero matar vocês. E a quarta resposta também é não.

— Chega! — gritou Shatterstar. — Rictor, essa gente só entende a linguagem da violência! Morra, imbecil!

Com esse grito, Shatterstar saltou sobre Lobo, brandindo sua lâmina.

— Sinta o gosto da minha espada de dupla lâmina, ordinário!

A agilidade do mutante fez com que ele cortasse profundamente o braço esquerdo de Lobo.

— Aah! Chega, porra! Esse meu braço tá machucado. Tu vai ver agora, ô gilete!

Um tabefe e Shatterstar atravessou o bar e a vitrine, caindo no meio da rua.

— Shatty! — gritou Rictor, que apontou os braços na direção do nosso herói. Um tremor de terra desequilibrou Lobo e todas as pessoas do bar fugiram em desespero.

— "Shatty"? Mas que viadagem, baitola! Tu vai sofrer antes de morrer.

Rictor intensificou as vibrações sísmicas e logo o próprio edifício ruía sobre suas cabeças. Lobo se impressionou.

— O cara joga pesado... mas eu sou o Maioral. Aí, perôba! Toma essa!

Em meio aos destroços, Rictor levou um soco e também foi jogado longe. Com o maxilar deslocado, murmurou para Shatterstar, que se aproximava: — Shatty... Temos que unir toda a nossa força contra esse monstro.

Voltando-se para Lobo, Shatterstar berrou:

— Minhas lâminas duplas vão fatiar você, seu animal!

— Para de falar nessa merda de espada dupla, sua bicha! Todo mundo já sabe que você corta dos dois lados!

— Antes que eu o mate, me diga: quem é você? Por que está querendo nos matar?

— Por causa da recompensa, seus manés!

— Recompensa? Não existe nenhuma recompensa por nós, seu idiota! Quem lhe disse isso?

— Todo mundo! Me falaram que vocês, esses merdas de mutantes, são perseguidos pelo governo.

— Mas não é como num país sem lei, seu cretino. Não existe recompensa!

— Não? — Lobo coçou a cabeça.

— Não!

— Humm... Bom, se não existe recompensa, as coisas mudam de figura. Não vou matar vocês por causa da recompensa.

Rictor se levantou e disse:

— Viu, Shatty? Até você consegue resolver as coisas conversando. É assim que tem que ser, chega de violência sem sentido.

— Como assim, perôba? Eu disse que não vou matar vocês por causa da recompensa. Mas vou matar vocês. — disse Lobo.

— Hã? Como assim? Não há motivo para lutar.

— Há, sim. Estou irritado, longe de casa, em um planeta escroto e primitivo. Tem uma maldição nas minhas costas. Se não existe recompensa pelas cabeças de vocês, não vou matá-los por isso. Mas agora é pessoal. Vocês vão morrer de qualquer jeito.

— Mas por quê? Por que somos mutantes? — perguntou Rictor. A população de Guadalajara observava à distância aquele estranho duelo em suas ruas.

— Não. — disse Lobo, com um olhar sombrio. — Não vou matar vocês por dinheiro, nem porque são mutantes. Nem sei bem que merda é essa de mutantes. Também não vou matar vocês por serem um par de bichinhas. Isso não me diz respeito. Também não vou matar por se vestirem como as merdas dos Cavaleiros do Zodíaco. Essas coisas me irritam, mas se não tem dinheiro na parada, eu não mataria vocês por isso. Não. Mas tem uma coisa em vocês que me irritou muito. Vocês poderiam ser mutantes, boiolas, idiotas, o diabo. Mas vão ter que morrer por usarem esses malditos mullets! Aaaarrggghhhhh!

Lobo saltou com ódio sobre a dupla. Um pontapé e Rictor voou metros de distância. Enquanto seu companheiro tentava se recompor e fazer a terra tremer, Shatterstar se esforçava para manter Lobo afastado com a sua espada. A lâmina dupla cortou mais uma vez o braço do mercenário, que gritou de ódio. Rictor provocou um longo e intenso abalo sísmico e todos em volta caíram ou fugiram em pânico. A rua se inclinou e Lobo rolou para perto do mutante, separando-se de Shatterstar por algumas rochas.

— Quer saber? Cansei dessa porra! Vem cá, seu terremoto de merda! — disse o Maioral, segurando Rictor com as mãos. — Aí, "Shatty", seu merda, olha pra cá!

Rictor se debatia, mas não conseguia se soltar. E estava sem forças para provocar outro abalo de grande intensidade. Voltando-se para ele, Lobo disse:

— Tenta fazer o inferno tremer, desgraçado.

Segurando Rictor, o mercenário arrancou a cabeça do mutante com as mãos. Um grito sem som saiu da garganta de Rictor antes da decapitação. Lobo rodou a cabeça e jogou-a para a frente.

— Segura aí, Shatty. Rebate a bola com a espada! Eh, eh.

Incapaz de crer em seus próprio olhos, Shatterstar avançou ferozmente na direção de Lobo, com ódio e lágrimas transbordando de seu rosto. Quando o mutante saltou na direção do mercenário, um campo de energia verde envolveu nosso herói.

"A maldição da Eternidade. Se não for esperto, vou perder o Shatty." — Aí, boiola, tou indo nessa! Tchau!

— Nããããããããããããooooo!

Shatterstar, que pulou sobre Lobo, tentando enforcá-lo. Nesse momento, envolvidos pela energia Kundalini, os dois desapareceram, deixando para trás um bairro inteiro destroçado de Guadalajara e um corpo mutante sem cabeça, caído no chão.

Um local incompreensível formou-se ao redor de Lobo. Com uma mão, ele retirou Shatterstar de seu pescoço e jogou-o longe.

— Que lugar escroto. Shatty, que merda é essa? Você entrou na energia Kundalini e influenciou na nossa viagem. Onde nós viemos parar, baitola?

— Não! Esse é o Mundo de Mojo! Maldito, você me fez voltar para cá! E Rictor... Julio, você será vingado! Aaaaahhhhhh!

Uma potente rajada de energia saiu da espada de Shatterstar e atingiu Lobo em cheio. O choque foi tanto que o mutante perdeu o mercenário de vista, graças à fumaça gerada pelo ataque. "Maldito. Que apodreça no inferno. Mas fiz isso muito tarde. Julio está morto e eu estou preso no Mundo de Mojo. E... estou sem forças... esse ataque acabou comigo".

— Mojo, é? Tipo Mojo Lamen? — disse uma voz.

A fumaça esvaneceu e Shatterstar não acreditou nos próprios olhos. O mercenário ainda estava lá, de pé.

— Fez cosquinhas... — disse o Maioral.

— Nããããããõoo! — Aos berros, Shatterstar arremessou sua espada na direção do nosso herói.

— Putz, tu gosta mesmo de gritar, né, ô escandalosa? Cansei de você.

Lobo aparou a espada em pleno ar e, rapidamente, lançou-a de volta. As duas lâminas penetraram fundo no peito de Shatterstar. Com os olhos arregalados observando o nada, o mutante cuspiu sangue e murmurou: — Ric...

Antes do corpo sem vida tombar no solo, Lobo já estava sendo teleportado pela energia Kundalini para longe do Mundo de Mojo. Por algum motivo, os nomes "Caos", "Gaia" e "Éter" passaram pela sua cabeça.

— Terminou seu plasmotranse, senhor?

— Sim... após semanas de meditação e inércia, descobri a resposta. Mijorr iluminou meus fluidos e logo teremos nossa vingança.

— Que Medularr abençoe suas palavras, senhor.

— Fique tranqüilo, fiel servo. Chame o esquadrão de auto-reconstrutos carnais.

— Mas... perdoe a afronta, senhor... eles...

— Eu sei. Mas somente estes seres poderão proporcionar a vingança que Uk merece contra o ser abjeto chamado Lobo. Mesmo sob o risco da própria realidade genético-social ser alterada, devemos nos vingar. Desça até as carnacumbas e prepare o esquadrão. Vá!

— Sim, Tarodequi.

:: Notas do Autor



 
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