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Por
Dell Freire
Prólogo
Na Casa de Mistérios, a conversa e agitação
incessantes causadas pelos dois irmãos começam a
incomodar Gregory, que carrega na boca um livro de capa dura e
empoeirada e caminha com passos pesados em direção
ao quarto onde está seu mestre.
Mas por que demorou tanto? pergunta Caim, agitando as mãos.
Aurgk! o gárgula responde com um pequeno grunhido
de insatisfação, soltando o livro, e sentando-se,
desajeitado.
Sim, sim! Eu sei que é chato, mas temos que tentar, está
bem?
Caim volta seus olhos furiosos para o irmão, enquanto pega
o livro do chão e lê o título.
Djavulens Oga... Talvez assim uma certa pessoa
possa fechar seus olhos e nos deixar em paz!
Abel pega um bonequinho na forma de Morpheus, agarra-se a ele
e esconde o rosto em seu cobertor, tremendo, deixando apenas os
pés com as pantufas à mostra.
A-a culpa n-n-não é mi-minha, irmão. diz, escondido em seu leito.
E de quem seria, ameba falante? Minha? ele ergue o livro,
quase jogando-o na cabeça do irmão.
E-e-estou sem do-dormir há três no-noites...
E você... hã... a-a-adorava me contar hi-histórias
antes de do-dormir, quando e-éramos pequenos... Talvez
pu-pudesse fu-funcionar...
Lindo! Maravilhoso! Você tinha que se lembrar disso...
P-por favor... o rosto gordo de Abel começa a aparecer
entre as cobertas.
Vermezinho desprezível! Já estou aqui com o livro,
não estou? Será que eu poderia ter, ao menos, um
minuto de sua atenção à fábula que
vou contar?
Mais à vontade, Abel ajeita-se na cama, arrumando seu travesseiro
e o cobertor, enlaçando o seu boneco com os braços.
Caim, aceitando o seu papel de narrador, ajeita os óculos
e abre o livro.
Era uma vez um antigo e lendário povo guerreiro, de grande
orgulho, capaz de realizar milagres com sua tecnologia. Como resultado
de tamanha ciência, acabaram por contatar um outro povo
alienígena de notável valor. O orgulho, porém,
acabou conduzindo-os a uma guerra para ver quem seria superior.
Uma guerra que durou séculos...
M-mais ou me-menos como nós.
Caim ignora o comentário e prossegue.
Nada parecia importar a esse povo lendário a não
ser dizimar os alienígenas. Para tanto, decidiram criar
um canhão que contivesse a arma mais destrutiva que se
teve notícia: a Equação Antivida. Mas, ao
liberar tamanha força, toda a existência num raio
de 200 anos luz foi dizimada, restando apenas dois planetas, que
voltaram a um período primitivo e tiveram que passar novamente
pela Roda da Evolução. Um desses planetas, Nova
Gênese, trilhou o caminho da busca espiritual e da paz,
guiados por seu líder, o Pai Celestial. O outro, Apokolips,
andou pela via da dor e da guerra sob a tirania de seu soberano.
E é a história de um dia na vida desse cruel governante
de Apokolips que irei contar a você: o dia em que a dor
lancinante de um terçol o incomodou mais do que tudo. Vou
contar a você a história chamada...
O
Olho de Darkseid
Parte I *
"Enquanto Darkseid
examinava seu olho com um espelho na mão, seu comitê
de conselheiros agitava-se. Pesquisadores, curandeiros, médicos
das mais variadas galáxias e bruxos de inúmeras
dimensões já haviam tentado curá-lo através
de todos os sortilégios, sem resultado.
Qual a razão disto acontecer comigo? o furioso
senhor de Apokolips estava sentado, observando diversas vezes
o olho ferido Será que ninguém pode me dar a resposta?
Nesse momento, um de seus conselheiros mais próximos chegou
com passos rápidos, o rosto coberto por um capuz.
Será que você, Desaad, me trará a cura?
Oh, não, milorde. Não serei eu o portador de tamanha
dádiva. Mas posso lhe assegurar que a causa do sofrimento
é a mais inusitada possível.
Darkseid ajeitou-se em seu trono, pondo o espelho de lado, esperando
com ansiedade por uma resposta.
Pois a causa de seu terçol é, certamente, a virtude
de uma mulher um silêncio se fez entre os presentes, como
se acabassem de ouvir a mais inoportuna das piadas.
Desaad... Se pensa que irá...
Acalme-se, senhor. Como nosso ambiente é inadequado para
o surgimento dessa doença e usamos dos mais avançados
aparelhos para conhecê-la, nossa única resposta se
encontra num antigo provérbio terráqueo: "A
virtude de uma mulher é um terçol no olho do diabo."
Darkseid levantou-se, com as mãos para trás, pensativo.
Se isso é verdade, não há muito que possamos
fazer... voltou a sentar-se, desiludido Maldito seja, Scott
Free! (**) O que acontece entre Nova Gênese e Apokolips
é tragédia; quando a Terra se interpõe em
nosso caminho, tudo vira comédia.
Mas, senhor, talvez seja na representação dessa
comédia que se encontre a solução. Uma doce
e definitiva solução. Basta apenas saber escolher
o ator apropriado para retirar a virtude dessa mulher tão
especial.
Hmm... Talvez você tenha razão. E talvez ele tenha
que ser humano, para chegar mais facilmente a ela. Um humano sem
escrúpulos, de caráter duvidoso e que tenha conhecimento
no trato com demônios, ele sorriu, tristemente porque
uma mulher também não deixa de sê-lo.
Acho que conheço o homem ideal para a tarefa, milorde.
Acompanhe-me disse Desaad"

"Em uma das
cidades mais antigas de nosso mundo, chamada Londres, morava um
mago vil, trapaceiro, de baixa índole e costumes hedonistas;
um verdadeiro filho da puta, em resumo. Não exibia seus
poderes, não se gabava do que fazia porque sabia que quem
conhecia das coisas ocultas nada revelava e nada dizia, respeitando
os quatro princípios das antigas tradições
mágicas: querer, ousar, saber, calar.
Nosso amigo, se seria prudente chamá-lo assim, não
conseguia dormir nessa noite, atormentado por pesadelos dos mais
diversos. Mas um, em especial, o inquietava por sua constância:
uma jovem e bela mulher aparecia em seu quarto e diálogos
banais de amor eram travados até ele conseguir a promessa
de poder provar de sua fruta que, não sabia ele, também
possuía uma certa dose de veneno. De repente, quando estava
prestes a desnudá-la, suas formas arredondas e apetitosas
desapareciam, transformando-se em fumaça. E ele, revoltado,
acordava.
Mas nesta noite, quando abriu os olhos, duas sombras estavam ao
seu lado. A maior ficou à esquerda e a menor à direita.
Adorável escolha... o rosto pétreo de Darkseid
examinou detalhadamente o rosto do homem, tão próximo
que quase era possível sentir o mau hálito do mago
naquela manhã Pode realmente ser o personagem que faltava.
Veja a feição bruta e o ar indolente.., o conselheiro
apontou, com seu dedo longo e retorcido. Em seguida, deu um tapinha
no peito do mago, como se este fosse uma mercadoria à venda
Ele é a verdadeira representação da pusilanimidade
de sua espécie. A segurança e o escárnio
quase pulsante querendo sair enquanto nos observa, indiferente.
Tem razão, Desaad. É ele!
Vão se foder! disse o mago, usando de seu mais fino
linguajar ao se levantar As duas putas velhas poderiam me dizer
o que fazem no meu quarto?
Quero fazer uma proposta irrecusável. Oferecer as maiores
riquezas em troca de algo que apenas você poderia conseguir.
O homem tinha ido ao banheiro lavar o rosto. Enxugou-o com a toalha,
como que para afugentar as duas figuras do outro mundo.
E por que deveria fazer algo para você, cara feia?
Tenho muito poder. Em troca, posso lhe conseguir o que desejar.
O ocultista sorriu de lado, desprezando a proposta.
Pois enfie seu poder...
John Constantine! Darkseid o surpreendeu ao dizer seu
nome Não me obrigue a ser descortês num momento
delicado para mim. Poderia obrigá-lo a fazer o que quero,
mas para esse tipo de trabalho o ânimo elevado é
imprescindível. Diga-me, o soberano de Apokolips aproximou-se
novamente de seu ouvido não há nada realmente
que deseje de mim?
Um favor.
Sim, é isso que quero de você.
Não, não quis dizer isso. Eu quero que você
fique me devendo um favor. Um trunfo assim na manga sempre pode
ajudar... Principalmente quando amigos quiserem me surpreender.
É isso que desejo, cara de pedra. Constantine olhou firme
para Darkseid E eu vou cobrar. Não importa em que porra
de mundo você esteja, eu vou estar lá, batendo em
sua porta!
Nada mais justo.
E o que eu tenho que fazer?
Seduzir uma mulher. Levá-la para a cama intervém
Desaad Mas lembre-se, um ataque impulsivo pode surtir mais efeito
que uma estratégia lenta. É necessário que
use de ternura e paixão com uma pitada de determinação
arrojada e ausência total de dúvida.
Não precisa me dizer como fazer Constantine começou
a se vestir enquanto o conselheiro tagarelava em sua cabeça.
Com uma cara dessas você é o último com
cacife para querer me ensinar...
Um certo ardor latino e refinamento ajudarão... prosseguiu
Desaad Não, não... Esqueça o refinamento;
seria forçado demais. Tente conter sua insensibilidade
e sua perversão, mas mantenha seu ceticismo aos ideais
contemporâneos e fale de sua utopia juvenil fracassada.
E como ela é?
Apaixonada, caprichosa e auto-afirmativa.
Como se chama? Constantine, terminando de ser vestir, colocou
um maço de cigarros no bolso.
Lois Lane.
O mago repuxou seu sobretudo. Sentiu que estava pronto."

C-Caim...
Abel está com um dedo levantado, como quem tem uma pergunta
a fazer. Seu irmão coloca as duas mãos sobre o rosto,
tentando controlar-se para não xingá-lo. Retira-as
em seguida, tentando se refazer e buscando seu sorriso mais cínico
para responder ao irmão.
Sim?
N-não en-entendo... Esses personagens pa-parecem f-familiares...
ele bota a mão sobre o queixo, tentando puxar pela memória
Mas h-há algo e-estranho...
E o que seria? Caim cruza as pernas, em atitude contemplativa,
esperando uma grande observação.
S-será que essa mulher é r-realmente tão
vi-virtuosa como você diz? E isso p-poderia ca-causar um
terçol n-nele? E como os h-habitantes de Apo...hã...
Apo... Abel desiste de dizer o nome do reino de Darkseid E
como e-eles puderam vi-viajar s-sem serem n-n-notados?
Caim balança a cabeça, sorrindo fraternalmente.
Aproxime-se, irmão.
P-por quê?
Deixe disso... Venha!
Es-estou a-aqui, Caim. Abel estava ao pé da cama.
Bom garoto. Diga-me: essa história é uma fábula,
não é mesmo? as pernas de Caim mantinham-se cruzadas
e seu rosto, supostamente sereno.
S-sim...
E quem a está contando?
Vo-você, Caim.
Numa explosão repentina, Caim levanta-se e começa
a berrar:
Sim! Eu estou contando uma fábula! Eu posso retirar
personagens, exagerar fatos, alterar nomes, fazer o que bem entender!
E, se você não me interromper, gostaria de continuar!
(***)
Abel já estava na outra extremidade da cama, encolhido
e envolto no cobertor.
Nossa história prossegue agora em uma estrada da pacata
cidade de Smallvile, onde Lois Lane visita seus sogros, a família
Kent. À espreita, escondidos atrás de uma árvore,
o ocultista e seu acompanhante de Apokolips esperavam o carro
de Jonathan Kent passar, o que ocorreu poucos instantes depois.
Constantine viu Desaad fazer um pequeno gesto com as mãos
e o motor do carro parou. O mago, percebendo sua deixa, desceu
a ribanceira até chegar à estrada, imediatamente
puxando conversa com o velho fazendeiro, oferecendo ajuda e um
acerto no motor do carro que ó surpresa começou
a funcionar logo após os toques de Constantine. Agradecido,
o fazendeiro ofereceu carona e hospitalidade a seu novo amigo.
Não sabia que, invisivelmente, na parte de trás
do carro, Desaad sentou-se rindo, agitando as pernas."

"Quando chegaram
à casa dos Kent, quase podiam ouvir ao fundo o som majestoso
do cravo, que Martha tanto adorava tocar. Apresentada a seu novo
hóspede, ela mostrou-se encantada com o cavalheirismo de
John Constantine. Desaad, tomando a forma de um gato preto, esgueirava-se
pelos cantos, vigiando a tudo e todos em nome de seu soberano.
Sabia que tinha escolhido o melhor dos farsantes.
Meu amigo, venha até o quarto de hóspedes.
Nem sei como agradecer tanta generosidade. A ironia de seu
comentário passou desapercebida pelo ingênuo dono
da casa.
Pouco antes de chegar ao quarto, Jonathan e John passaram pelo
quarto de casal de Lois Lane e seu marido. Imediatamente os dois
foram apresentados, trocando apertos de mão e sorrisos.
Com um gesto rápido, como se tivesse se lembrado de algo,
a jovem senhora aproximou-se de seu sogro.
A família Freire ligou há poucos instantes; eles
esperam por vocês há três horas.
Oh, Deus... Como estou esquecido... Me dêem licença...
Me dêem licença... Martha! Martha!
Assim que o fazendeiro e sua esposa retiraram-se, um pequeno silêncio
surgiu entre John Constantine e Lois Lane. O quarto do casal passava
por uma nova pintura. Ainda havia muito a fazer e a jovem pintava
as paredes de branco.
Parece que seu marido é bem ocupado...
Por que diz isso? Ah, a pintura... Não me incomoda. Alivia
minha culpa por não ser uma esposa convencional.
Não combina com você esse serviço ele
se aproximou um pouco dela, mas mantendo uma distância segura,
que preservasse suas segundas intenções.
Não me conhece há pouco tempo para dizer o que
combina ou não comigo? ela abandonou os pincéis,
puxando-o pelas mãos Quer conhecer a cozinha? Está
nova.
Por que você ri assim? perguntou Constantine, surpreso.
Pelo jeito como você me olha...
Você o ama?
Sim, muito. Ele é forte, sereno... Gosto muito dele.
Ah... Deve ser maravilhoso. Nunca brigam? Seu marido não
tem falhas?
Ele é barulhento quando come e não lava os pés.
Parabéns!
O mago resolveu voltar para o quarto do casal. Ela se adiantou
e fechou a porta em sua cara. Novamente sorrindo, a moça
lhe fez um pedido:
Feche seus olhos e tente me definir ela aproximou-se dele
por trás.
Seus olhos são lindamente escuros, mas é sua cintura
fina, seus seios e a forma de suas coxas que me dão vontade
de...
Que horrível! Não nos conhecemos há cinco
minutos!
Nunca beijou outro homem?
Nunca!
Acho que vou ser esse homem.
Ah, claro. Você é um verdadeiro Don Juan...
Ele se aproximou de Lois Lane com ímpeto, beijando-a a
força.
Isso foi um beijo? disse ela, afastando-se com deboche Deixa
eu te mostrar como se beija!
A ternura e a ousadia pegaram de surpresa o homem, que começou
a rir.
É assim que ama o seu marido, vadia?
Vadia? Eu amo Clark Kent. O que eu fiz com você foi apenas
uma brincadeira, um passatempo inofensivo. Adoro uma ousadia,
mas o meu amor é para Clark. Engraçado como os homens
sempre acreditam... Basta um pouco de sorriso, uma insinuação,
e vocês caem na piada...
Como eu caí? falou Constantine, ligeiramente confuso.
'Brinquem comigo', dizem os homens, 'encham meus ouvidos de
mentiras e juro que acreditarei'.
Você pensa que é tão invulnerável
e irresistível. Tão pedante; gostaria de não
ter te conhecido. Seu marido acredita em suas mentiras? Não
sabe de suas traições?
Não minto para ele. Nunca o traí dormindo com
outro homem e jamais o farei nesse momento, o terçol
de Darkseid doeu um pouco mais. O gato preto, que a tudo acompanhava,
eriçou os pêlos.
Ele a agarra com força, segurando seus pulsos.
Não brinque comigo. Não sabe do que eu sou capaz
pra ter você.
Que tipo de homem é você? ela olhou em seus olhos,
desafiadora.
Sou um canalha. Talvez não sejamos tão diferentes.
Faço da falta de princípio o meu princípio;
do vício, minha virtude; da orgia, minha abstinência;
da impiedade, minha religião.
Ela se desvencilha dele.
Você não é um homem comum... Você
é capaz de me fazer uma ferida mortal...
É o que mais desejo! ele volta a segurá-la.
Engraçado... Dentro de meu íntimo também
gostaria; mas nunca vou deixar isso acontecer.
Claro, deve preservar o seu maridinho...
Várias buzinadas fortes atrapalharam a conversa dos dois;
ela começou a correr para fora da casa.
Clark! gritou Lois Lane
John Constantine passou uma das mãos pelos cabelos e acendeu
um cigarro. Seu jogo estava apenas começando e ficava cada
vez mais perigoso."
A seguir: O final dessa fábula você e Abel
conhecerão em 30 dias.
:: Notas
do Autor
* Livre adaptação do filme O Olho do Diabo
de Ingmar Bergman
** Scott Free, também conhecido como Sr. Milagre, fugiu
de Apokolips, indo se refugiar na Terra. Darkseid o culpa pela
conexão que precisa ter com a Terra.
*** Embora use de personagens e conceitos do universo DC/Vertigo,
a história contada por Caim à Abel é uma
fábula e, portanto, não têm nenhuma relação
com os fatos e a cronologia do Universo Hyperfan.
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