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Por
Rafael 'Lupo' Monteiro
"Every cop is a criminal, and all the sinners saints"
Rolling Stones, Symphathy for the Devil.
Pleased to Meet You, Hope You Guess My Name
"Acho que foi na clínica que tudo começou. Quer dizer, além de eu ter descoberto que iria morrer, o que abala qualquer um, ainda descobri que meu pai mentiu para mim na única vez em que nos encontramos. Com mais de cinqüenta anos de atraso! Ou, o que foi pior, ele não mentiu para mim, eu é que fui burro o bastante pra não ter entendido o que ele quis me dizer. E fui burro por mais de cinqüenta anos. É claro que fiquei puto da vida. Quem não ficaria?"
"Mas você não deve estar entendendo nada. Meu nome é Willian Bishop. Já estou velho, mas não digo minha idade. Faça você as contas depois. Eu estava na ensolarada Califórnia, na cidade de San Francisco, numa clínica cujo nome não lembro, com aquelas revistas velhas que você não tem o mínimo interesse em ler, mas que acaba lendo porque sua consulta já está atrasada em mais de uma hora. E a porra do médico não aparece."
"Lá estava eu sem ter o que fazer, quando resolvi sacanear com alguém. Ao meu lado, uma senhora de uns sessenta anos tentava ser simpática. Acho que ela queria companhia ou ao menos um pouco de atenção; todos os velhos querem isso. Seu nome era Elisabeth Montgomery. Passou uma hora me falando da sua vida, que ficou viúva jovem, nunca mais teve homem nenhum, sem filhos e que todos os parentes próximos estavam mortos. Enfim, mais uma solitária, como tanta gente nas cidades grandes. E eu sorri para ela, o que pareceu incentivá-la a pegar uma foto sua mais jovem e, puta que pariu, como já era feia naquela época. Não é à toa que nenhum homem a quis depois do marido. Bem, teve uma hora que fiquei de saco cheio. Resolvi abrir logo o jogo."
Quero trepar com você!
O quê? Você está pensando que eu sou o quê?
Estou pensando que você é uma mulher que há trinta anos não dá uma e deve estar louca pra tirar o atraso!
Eu... eu...
E então? É pegar ou largar, não tenho o dia todo.
Tu-tudo bem.
"Ela deixou escorrer uma lágrima do olho, acho que se sentiu um pouco humilhada. Mas trinta anos sem trepar devem fazer qualquer um engolir o orgulho próprio. Levei-a para um motel barato. Gorda, com os peitos caídos, a pele velha, o corpo totalmente disforme, enfim, não era algo agradável de se ver. Acho que a velhice é o pior castigo que Deus aplicou aos homens, todos que morrem velhos e acabados merecem ter todos os seus pecados perdoados, pois nada pode ser pior do que envelhecer. Mas na minha situação, isso não importava, o que me excitava era a oportunidade de acabar com mais uma vida. E isso era o único afrodisíaco de que eu precisava. Eu a chupei, meti em todos os seus buracos, fiz ela gritar de prazer até não agüentar mais."
"Você precisava ver a cara de felicidade dela. Acho que ela nunca foi tão feliz em toda sua vida. Tudo que uma mulher precisa para ser feliz é de um macho que a faça gozar. Foi então, me vestindo, que fiz a grande revelação que destruiria a sua felicidade."
Esqueci de te falar uma coisa. "disse a ela."
O que foi, querido? "uma trepada e ela me chama de querido. Odeio mulheres fáceis."
Sobre os exames que fui apresentar ao médico hoje. Era um exame de AIDS.
O quê? "o sorriso no rosto dela desapareceu num piscar de olhos e reapareceu em minha boca."
Isso mesmo. Fiz um exame de AIDS e o resultado foi positivo. Eu sou a porra de um aidético.
Não é possível... não... isso não é justo, não mereço algo assim... "o choro escorria fácil pelo rosto" Você é um monstro!
Não imagina o quanto está certa!
"Depois disso, ela saiu chorando, dizendo que ia se matar, o que eu duvido que tenha feito. Ela não me pareceu ser alguém com coragem suficiente para fazer isso."
"Mas foi aí que tive a idéia que desencadeou todos os acontecimentos que me trouxeram até a minha situação atual. Se era para minha morte chegar, que pelo menos eu conseguisse alguém para continuar minha missão. Olhando pra Elizabeth chorando, com meu sêmen ainda escorrendo por suas pernas, eu decidi que, antes de morrer, teria um filho."

"Filhos. Acho que é para isso que todos vivemos. Bem, não só para isso, mas o principal são eles mesmos. Minha falecida mãe concordaria, pois teve que me criar sozinha. O engraçado é que posso me considerar como filho de dois pais, mas nenhum deles esteve presente na minha criação. E não estou falando nessas merdas sentimentalistas de filhos cujos pais são separados e o segundo marido da mãe se considera pai das crianças."
"Meu pai 'terreno', na falta de uma designação melhor, foi Aleister Crowley. Sim, o mago da Aurora Dourada. Certa vez, na Itália, ele organizou um de seus rituais mágicos com os membros de uma ordem esotérica fundada por ele, a Astrum Argentum. O ritual envolvia orgias e uso de drogas alucinógenas, o que levava todos a uma grande excitação sexual. No meio de uma orgia, ele escolheu minha mãe, Martha Bishop, e a fez ter relações sexuais com um bode, cortando o pescoço do animal com um punhal no momento em que ele chegou ao orgasmo. Crowley espalhou o sangue em seu próprio corpo e também no de minha mãe. A seguir, usando mais drogas, ele ingeriu seu próprio excremento e invocou o deus/demônio cananeu Baal (*), meu pai legítimo. Incorporando Baal, Crowley teve relações sexuais com minha mãe e a engravidou. Nove meses depois, eu nasci."
"Apesar disto ter ocorrido na Itália, minha mãe era inglesa e foi em Londres que cresci. Martha sofreu muito, era mãe solteira em uma época que isto não era nem um pouco bem-visto. Não que eu tivesse pena dela, também não vou mentir. Ela era atriz de teatro e vivia viajando, mas nunca fez nenhum papel digno de nota, o máximo que ela conseguiu foi um papel de ninfa na peça "A Tempestade". E isso porque ela transava com o diretor da companhia de teatro. Ela era uma bela mulher, alta, loira, olhos verdes e seios fartos. Nunca conseguiu ter um relacionamento estável, tudo dava errado em sua vida e acho que era por minha causa. Não que eu a atrapalhasse diretamente, mas sempre fui um fardo para ela, admito. Ela jogou isso na minha cara uma vez e respondi:"
Quem mandou foder com um bode?
"Nunca mais se tocou no assunto."
"Ela morreu assassinada quando eu tinha quinze anos. Minha mãe transava com algum homem casado e uma esposa ciumenta lhe deu uma facada mortal no pescoço. Lembro de ter visto a cabeça dela separada do corpo e não senti absolutamente nenhuma emoção."
"Segui a vida com a carreira de músico. Tocava violão, mas nunca fui um grande músico, para falar a verdade. Pelo menos conseguia me sustentar tocando blues. Na época da guerra, servi ao exército, mas nunca cheguei a entrar em combate."
"E assim cresci. Logo fui iniciado na ordem Ordo Templi Orientis, que meu pai também chefiou, aprendendo muito sobre magia e sobre as ordens iniciáticas. Mas nunca havia encontrado com meu pai até o ano de 1947, alguns dias antes de sua morte. Lembro-me bem dele, velho e na miséria, vivendo nas ruas. Ao passar por um beco, senti um magnetismo irresistível e o vi sentado no chão. Ele deu um sorriso para mim e abriu os braços, exclamando 'Meu filho!'. Respondi:"
Desculpe, mas acho que está enganado. Não conheço meu pai.
Você é Willian Bishop, filho de Martha Bishop, e eu sou Aleister Crowley, seu pai. "o homem falou isso com um sorriso nos lábios e uma expressão serena no rosto, que me passava tranqüilidade."
Por que resolveu me procurar só agora, depois de tanto tempo?
Não te procurei, você que passou por meu caminho.
Que seja!
Filho, tenho uma missão para você.
Há! É isso que tem pra me dizer? Não que eu esperasse algum tipo de afeto paternal, mas essa história de missão é ridícula.
Ouça-me atentamente. Você sabe como foi gerado, não?
Sei, aquela história do bode, e tal.
Não fale disso com desdém. Você é filho de Baal e abriga em si o mal puro. Você não tem mesmo idéia... "não falou isso com raiva ou excitação, mas apenas com um olhar de divagação."
Idéia do quê?
Não importa agora. O que importa é que siga com o que lhe foi designado desde o momento de sua concepção. Você irá seguir com minha doutrina, irá difundí-la por todo o mundo.
E por que faria isso, velho? "falei num tom bem ofensivo, mas ele pareceu não se importar."
Morrerei nos próximos dias e alguém precisa continuar meu trabalho. Em breve, a era de Peixes, a era cristã teocêntrica, irá acabar. Em seu lugar nascerá um novo aeon, uma nova era, a era de Aquário, que será antropocêntrica. Infelizmente não verei esta nova era, mas você poderá, filho. E poderá liderar a humanidade, bastando seguir a minha doutrina.
A idéia é tentadora, vou pensar a respeito.
Já falei antes, não trate esses assuntos com desdém. "mais uma vez não havia raiva em suas palavras."
Certo, certo. Você não tem a mínima moral pra me dar sermões. Mas me diga algo, aquela história de mal puro... você quis dizer que sou uma espécie de deus?
Não existe Deus senão o Homem.
Sei, já estudei sua obra, pai. "essa palavra saiu naturalmente de minha boca. Acho que finalmente eu o havia aceitado como tal" Mas o que você quis dizer quando afirmou que eu não tinha idéia de algo...
Filho, você é um imortal.
"Olhei incrédulo para ele. Quer dizer que eu nunca morreria? Foi isso que havia pensado até aquele dia no consultório. Não havia entendido que ele disse isso num sentido simbólico, espiritual. Depois disso, me despedi dele e segui pensando em tudo que ele havia me dito. Uma semana depois, ele morreu. E eu resolvi aceitar seu pedido, divulgando sua doutrina. Foi a partir de então que as coisas ficaram interessantes."

"Com o passar dos anos, fui aprimorando minha magia e difundi a doutrina de meu pai pelos quatro cantos da Terra. Virei uma espécie de guru. Muitos me procuravam para solucionar seus problemas e percebi que, aos poucos, poderia mudar a cara do mundo, solucionando problemas e realizando os desejos das pessoas. E eles eram os mais loucos possíveis, acredite. Já transformei namoradas infiéis em mulheres sem vaginas. Já fiz pais severos engolirem o próprio cinto e o defecarem logo a seguir. Já transformei escritores medíocres em best sellers (isso é muito fácil!). Tudo o que pedia em troca era obediência cega e que divulgassem a doutrina do meu pai."
"Acho que meu seguidor mais famoso foi um inglês, William Campbell. Talvez você o conheça pelo nome de Billy Shears. Ou Paul McCartney."
"Campbell era um jovem sósia de McCartney, fanático pela banda de seu sósia famoso. Chegou a mim pela música, tocava guitarra e outros instrumentos. Era inteligente, carismático e talentoso na música. Eu ainda tocava de vez em quando em bares, só por diversão. Certa vez, Campbell tocou comigo em uma apresentação. Depois do show, me convidou para beber e conversar."
Então você é o mago que realiza os sonhos das pessoas.
Vejo que está bem informado sobre mim. "falei, com um pequeno sorriso nos lábios. A verdade é que é bom ser famoso. Estava virando uma espécie de lenda urbana."
Então queria ver se o senhor é bom mesmo, realizando o meu.
Não é assim que a coisa funciona...
Se o problema é a doutrina de Crowley, saiba que já li todos os livros dele. Não tenho problema com isso.
Estou mesmo ficando conhecido, pelo visto. Diga-me, rapaz, o que você deseja?
Eu quero ser um dos Beatles!
"A decisão de Campbell nas palavras não me deixaram dúvidas que isso era o que ele mais desejava na vida. Tive a oportunidade de visitar sua casa e as paredes eram cobertas por fotos da banda. Ele tinha todos os álbuns, todos os singles e tudo o mais relacionado aos Beatles. Bem, se ele queria ser um deles, eu o faria ser."
"Certa noite, me encontrei com ele e entrei em seu carro; ambos rodamos por Liverpool, seguindo Paul. Quando ele estava atravessando uma rua deserta, acelerei o carro. Paul olhou para nós espantado. Tentou correr, mas escorregou. Estava de joelhos, tentando se levantar, quando o carro foi de encontro a seu corpo. Eu atropelei Paul McCartney e arranquei sua cabeça com a batida. Campbell me olhava, com satisfação. Ambos saímos do carro, pegamos o corpo de Paul e o colocamos no porta-malas. Enquanto ajeitava o corpo, Campbell corria, procurando pela cabeça, que havia rolado e estava vários metros a nossa frente, deixando uma pequena trilha de sangue no asfalto. Até hoje, Campbell guarda essa cabeça, embalsamada em um cofre de sua mansão."
"Depois precisei apenas fazer uns telefonemas. Em cerca de uma hora, entrei com Campbell na sede da gravadora Capitol, onde estavam os três membros remanescentes da banda e Roger Manson, representante da gravadora. Pedi a Campbell para me esperar do lado de fora da sala. Esta era pequena, com as paredes brancas muito sujas. Havia uma mesa feita de carvalho no centro, com vários papéis espalhados por ela. Os quatro olharam pra mim nervosos e começaram a falar todos ao mesmo tempo. Fui obrigado a gritar:"
Calma! Sei que estão todos ansiosos, mas a prova do que disse a vocês pelo telefone está dentro desta sacola.
"Abri a sacola e deixei cair na mesa a cabeça de Paul. Todos na sala ficaram nauseados. George Harrison quase vomitou. Ringo Star caiu sentado na cadeira, não sabia o que fazer. John Lennon foi o que primeiro se revoltou."
Isto não está certo, cara. É do Paul que estamos falando... como pôde fazer isso com ele?
O "como" não interessa, senhor Lennon. O fato é que Paul está morto.
Desgraçado! O que deseja de nós, filho da puta? Você vai pagar pelo que fez a Paul! "o ódio dele era intenso, e se pudesse ele me mataria ali; os outros estavam assustados demais para fazer algo."
Não irei, não. A sua banda está acabada! A menos que me deixe resolver esse problema para você e seus amigos.
Não quero ouvir nada de você, maldito!
Calma, Lennon! Deixe o homem falar. "disse o dono da gravadora."
Enfim, alguém sensato. Deixem-me apresentar a vocês Billy Shears.
"Neste instante, Campbell entrou na sala. Estava com um imenso sorriso nos lábios. Pela primeira vez, estava frente a frente com seus ídolos; o nome falso evitaria futuros problemas."
Quem é ele? "perguntou Ringo."
Sou um fã de vocês! "falou William, emocionado."
Que tipo de fã mata seu ídolo? "gritou Lennon."
Calma, quero todos com calma aqui. "disse o homem da gravadora. Virando-se para mim, perguntou" O que você quer, afinal?
Como vocês podem perceber, meu amigo aqui é a cara do falecido. Além disso, é um excelente músico. Minha proposta é que ele entre no lugar de Paul para que a maior banda de rock siga em frente e os fãs nunca saibam que um de vocês está morto.
Inaceitável! "exclamou Harrison" Está fora de cogitação nos unirmos a um assassino.
Então percam todo o dinheiro que ainda poderiam ganhar. "respondi, em um tom seco."
Prometo que não vou decepcioná-los. "disse Campbell, visivelmente emocionado" Deixem-me ser um de vocês. Os Beatles não são um sonho? Eu amava Paul, mas ele morreu. O que peço é para continuar o sonho.
Garoto, você não tem idéia do que está nos pedindo. Não bastasse ver a cabeça de um amigo morto, você quer que simplesmente ignoremos que foram vocês que o mataram por um motivo vil! "manifestou-se Ringo."
Ringo está certo, cara. O que vocês fizeram foi uma monstruosidade! "reforçou Lennon."
Ser famoso nunca poderá ser considerado um motivo vil, amigos. "respondi" Mas é claro que estão abalados agora, por isso darei um tempo para melhor pensarem e me respondam.
"Dito isto, peguei a cabeça de Paul e coloquei-a novamente dentro da sacola. Já ia me retirando quando voltei para encarar Lennon, ainda em estado de choque, e dizer:"
Sigam o que lhes digo e sua fama não só se perpetuará como se tornarão mais populares que Jesus Cristo.
"Saí da sala assobiando 'I Wanna Hold Your Hand'."
"No início, não aceitaram. Mas, aos poucos, com o passar dos dias, o homem da gravadora percebeu que o melhor a fazer era aceitar minha proposta e convenceu os membros da banda a aceitarem Campbell entre eles. Mas John Lennon nunca o aceitou completamente e espalhou diversas pistas de que Paul estava morto nas músicas e capas de álbuns da banda. Harrison também se arrependeu da decisão e começou a buscar no misticismo oriental um modo de aceitar essa culpa para o resto de sua vida. Ringo obviamente também se sentia culpado, mas nunca fez nada sobre o assunto. Como eu disse, ser famoso nunca poderá ser considerado um motivo vil para nada e acho que por isso Ringo se calou."
"Acho que esse foi o principal motivo desagregador da banda. Campbell apresentou a eles a doutrina de Crowley e também as drogas. E até hoje me orgulho de ter colocado o rosto de meu pai na capa do melhor álbum de rock da história." (**)

"Não queira conhecer o Brasil no verão. É uma das terras mais quentes e inóspitas que se pode imaginar e quando estive por lá, na década de 70, ainda havia um maldito regime militar administrado por um punhado de débeis mentais supersticiosos e covardes."
"Ser esotérico naquela hora e naquele lugar não era uma das coisas mais adequadas, afinal qualquer reunião com mais de três pessoas já poderia ser considerada subversão. Fazer isso em um ambiente reservado, usando de simbolismo e palavras cifradas, então, era um verdadeiro chamariz para que soldados invadissem o seu apartamento e o levassem preso."
"Quando cheguei ao Rio de Janeiro, fugindo de alguns probleminhas que tive com a polícia de Nova York, não imaginava a real situação do país. Através de alguns místicos brasileiros que moravam nos Estados Unidos, pude estabelecer contato com uma nova ordem brasileira que estava sendo desenvolvida por um grupo de jovens tidos por eles como ousados e esclarecidos: a Sociedade Alternativa."
"A sede ficava em uma casa simples, em um endereço pouco movimentado. Havia uma campainha e estava prestes a tocá-la quando percebi que a porta estava aberta. Tive que subir alguns degraus, segurando a minha mala, e temi que não houvesse ninguém a me esperar naquele momento; meus contatos haviam feito o possível e imaginava estar sendo esperado, sem modéstia, com a devida honra que deveria ser reservada ao filho de Aleister Crowley."
"Assim que cheguei à sala principal, minha surpresa foi grande. Uma dúzia de hippies estava espalhada pela sala, deitados pelo chão ou em cadeiras que, obviamente, deveriam servir para celebrações mágicas. Dois casais riam alto, mais do que todos, e chamavam a atenção no meio daquele grupo fedorento e desagradável. Todos estavam drogados. O que parecia mais lúcido, educado, conteve o seu ataque de riso com certo esforço quando me viu e levantou-se, dirigindo-se inicialmente em português, idioma que até então eu não dominava:"
Fala, amigo. O que tá procurando?
Saiam daqui, arruaceiros desgraçados! Vagabundos! Drogados!
"Comecei a gritar em meu idioma, a querer expulsá-los do templo de meus aliados brasileiros que estava sendo profanado sem cerimônias."
Opa, cara! Desculpa aí, camarada! "respondeu ele, já em inglês" Não sabia que já tava na hora de você chegar!
"Para minha surpresa, entendi o que meus olhos não queriam acreditar."
Vocês! Vocês são os representantes da Sociedade Alternativa? Vocês?
Não repare, a gente tá fazendo uma festinha íntima. Você é Willian Bishop, não é? Cara, é um prazer conhecer o filho da Besta! Meu nome é Paulo.
Onde estão seus instrutores?
"Nessa hora, as feições de Paulo envaideceram-se e o que ele disse, até hoje, não sei se era verdade ou mentira."
Sou o grande cabeça dessa Ordem. Eu sou o líder da Sociedade Alternativa!
"Chocado, deixei minha mala em uma mesa, saí de perto de Paulo e comecei a andar pela sala. Observei cada integrante da Ordem com desprezo. Uma coisa era o uso adequado das drogas em momentos ritualísticos e que preparavam a grande magia necessária para que pudéssemos nos encontrar com nosso grande mestre Aleister Crowley; outra coisa era aquela situação que desmoralizava nossos mais profundos conceitos."
"O que será que aqueles jovens realmente aprendiam naquela que deveria ser a minha sucursal brasileira? Resolvi, com a autoridade que apenas meu sangue possuía, chamar um dos meus discípulos para perto."
Você! Aproxime-se!
"O outro homem daqueles dois casais que riam desmedidamente me ignorou por completo e ficou tocando seu violão."
Você! Sim! Você mesmo, rapaz! Aproxime-se do filho de Aleister Crowley!
"Ele estava com as roupas sujas, barba por fazer e coçava a cabeça repetidas vezes. Cheirava a álcool. Sua única qualidade era falar em um inglês tão bom quanto o meu."
Qual o seu nome?
Eu sou o homem, bicho...
Perguntei seu nome, diabos!
Meu nome é luar ao contrário... mas acho que na sua língua isso não dá barato, não! Pode me chamar de Raul mesmo...
Você é um iniciado na Ordem?
Só.
Qual o seu grau?
Pô, bicho, dizem que tenho um e meio de miopia no olho esquerdo.
Qual o seu grau na Ordem?
Cara... não grita que meu ouvido não é penico. Tô numa ressaca brava e ontem mesmo eu e o Paulo viajamos num disco voador! As meninas também foram, precisava ver! O trânsito no espaço não é brincadeira, meu irmão... maior engarrafamento.
Você já transformou pedras em ouro? Já se comunicou com seu Guardião Supremo? Invocou demônios e dançou em nome do Anticristo?
Cara, uma vez eu fiz chover no sertão. Eu e o Elvis. Saca o rebolado do cara? Ele aprendeu com uma tribo americana, é o primeiro passo da dança da chuva. Pois é, a gente tava lá no sertão se requebrando todo quando caiu o maior toró, bicho. Tá valendo?
"Coloquei as mãos na cabeça. Não havia a mínima condição de uma nova sociedade ser fundada ali naquele momento e por aquelas pessoas tão desprezíveis."
Pô, Paulo. Cada figura que aparece por aqui, véio... na boa, solta uns raios e uns abracadabras aí pra desinfetar o ambiente.
"Não entendi o que Raul disse, mas Paulo, minimamente mais consciente, quis se aproximar e dialogar, explicar o que se passava e dizer que eu estava sendo intransigente, querendo me convencer a ficar e passar os meus conhecimentos para eles. Obviamente me neguei. Não poderia ficar mais um minuto naquele ambiente, mas mal sabia eu que o pior estava ainda por acontecer."
"Conversei alguns minutos com Paulo, que tentava me persuadir a ficar, me olhando fixamente como se fosse capaz de me hipnotizar, e pressionando os dedos médios e os polegares um contra o outro fortemente. Uma mulher bêbada passou a mão em meu traseiro. Aquilo foi o cúmulo e, rapidamente, fui até a mesa onde havia deixado a mala."
"Ela estava aberta. Minha mala, com meus instrumentos mágicos, ervas especiais, livros e pergaminhos sagrados havia sido violada."
Quem, em nome de Crowley...?
"Raul estava encostado na parede, parecendo ouvir uma música imaginária. Na mão, um cigarro. Já estava para virar o rosto quando notei o tom amarelo e envelhecido do enorme papel que Raul havia enrolado para fazer seu baseado."
Hippie desgraçado! Esse é um pergaminho egípcio, com a fórmula mais sagrada que já decifrei em toda minha existência!
"O vagabundo apenas deu de ombros."
Diz aí pro seu amigo faraó que esse papiro é dos bons. Nunca vi papel melhor pra puxar um fumo, velho!
"Poderia ter estapeado aquele verme. Poderia ter conjurado mil demônios para destruir aquele ambiente podre. Mas não fiz isso. Apenas fui embora. A Sociedade Alternativa estava fadada ao fracasso e não era preciso gastar minhas energias mágicas em derrubar aquele antro de mentiras."
"Hospedei-me em um hotel carioca durante alguns meses, tempo suficiente para que os problemas nos Estados Unidos fossem resolvidos por terceiros e meu nome ficasse limpo. Depois disso, voltei à América e jamais retornei ao Brasil, nunca mais vendo aqueles seres que desvirtuavam a causa verdadeira de meu pai." (***)

"Eu poderia passar semanas contando todas as minhas histórias. Quem sabe depois, se for o seu desejo. Mas agora devo me concentrar no momento mais decisivo de minha vida, embora na época não tivesse idéia disso. Vou falar de meu envolvimento com Shiro Takahashi."
"Quando o conheci, eu já estava em um período de decadência. Graças aos Sex Pistols e seu movimento de arruaceiros chamado punk, o rock já não era o mais mesmo. Nem as pessoas eram mais as mesmas. Além disso, o advento da magia do caos, que de certa forma suplantou a magia thelemica de meu pai, ajudou muito para que eu não fosse mais procurado como antes. De repente, tudo o que era velho passou a ser desprezado apenas pelo fato de ser velho. Ainda continuei com minha missão, mas ela havia perdido todo o seu glamour." (****)
"Foi nessa época que conheci Shiro. Ele era apenas um funcionário da Fujikawa, uma grande corporação transnacional com sede em Tóquio. Seu sonho era se tornar um grande executivo, e veio me procurar quando morava em Nova York, recém casado com Akemi Nishimura."
"Ele havia se mudado para a cidade dois anos antes, quando tinha trinta anos de idade, para trabalhar em uma das sucursais americanas da corporação. Já Akemi era uma jovem de vinte e dois anos, linda e talentosa cantora japonesa, que cantava nos bares e pequenos clubes novaiorquinos. Ela teria um futuro promissor, principalmente se tivesse se aliado a mim. Mas só serviu pra me dar trabalho."
"Recém-chegado em Nova York, Shiro sentia-se muito solitário, principalmente à noite, quando não estava mais no trabalho. Ia sozinho de bar em bar, não tanto para beber, mas sim pra ouvir boa música. Além de apreciador da música de seu país, Shiro também gostava muito de jazz e blues, sendo fã de Miles Davis e Ella Fritzgerald, entre outros."
"Foi numa dessas suas incursões noturnas que conheceu Akemi. Foi amor à primeira vista. Além de muito bela e boa cantora, o estilo de Akemi misturava brilhantemente a música americana com a japonesa. Logo os dois se conheceram e passaram a sair juntos, criando uma amizade."
"Mas havia um problema nessa história: Akemi tinha um namorado e era apaixonada por ele. Seu nome era Stephen Strange, maior cirurgião da cidade de Nova York e talvez de todos os Estados Unidos. Era uma pessoa egocêntrica e arrogante, que desprezava a todos, se achando superior por ser rico e bem-sucedido como médico. Mas seu pior defeito para Akemi era o de ser mulherengo."
"Shiro não sabia disso no início, obviamente. E quando soube ficou triste. Mas mesmo assim sua paixão não diminuiu."
"Com o tempo, Shiro foi se ambientando à cidade, conhecendo novas pessoas, freqüentando festas. Em uma dessas, conheceu o doutor Strange. Era uma festa de alta sociedade, num clube em Greenwich Village. O convite foi feito por Akemi."
Olá, Shiro! Como vai? "Akemi vestia um longo vestido preto, com um decote ousado, e um salto de 13 centímetros. Estava simplesmente deslumbrante."
Tudo bem. E com você?
O que há? Parece desanimando... venha, vou te apresentar a Stephen.
"Akemi pegou Shiro pela mão e procurou por seu namorado. Encontrou-o em uma roda de conversa, com outros médicos. Trajava uma belíssima camisa de cetim, e uma calça preta. Bebia champanhe Veuve Cliquot em uma taça de cristal e parecia de ótimo humor, falando pelos cotovelos com seus companheiros de profissão."
Para mim, cada paciente é como uma tela para um grande pintor. É só um espaço em branco onde você deposita sua genialidade. Algum dia, farei uma exposição com cada um dos pacientes em que fiz cirurgia, pois considero a medicina a mais nobre das artes. Todo médico deveria ser louvado como o mais nobre dos homens. "Strange falava isso com um brilho nos olhos, olhando para o nada, como se discursasse para si mesmo."
É verdade. "disse um dos amigos" Mas não temos o devido reconhecimento.
Muito bem colocado, Carter. Somos verdadeiros artistas e, como tal, somos incompreendidos por todos. Acho que...
"Neste instante, Akemi interrompeu Strange para apresentá-lo a Shiro."
Stephen, quero te apresentar...
Akemi! Não me interrompa, você sabe que detesto isso! Estou falando algo importante, e você sempre desvia minha atenção com suas futilidades femininas!
Mas, Stephen, quero te apresentar um amigo.
É alguém importante?
É um amigo meu.
E o que ele faz?
Trabalha na Fujikawa.
É um alto funcionário?
Não, é apenas um executivo.
Akemi, entenda bem: se esse homem não é rico nem famoso, que tipo de interesse posso ter nele? Em primeiro lugar, nunca poderá ser um paciente meu...
É meu amigo. Alguém que me ouve...
Então é alguém que não tem o que fazer; quem mais perderia tempo ouvindo suas idiotices?
Escute bem, amigo! "interveio Shiro na discussão" Quem te dá o direito de falar assim com ela?
E quem é você para ousar se dirigir a mim desse jeito? Você não é ninguém! Não tem dinheiro, não tem nome... você é apenas a ralé! Suma daqui! E você, Akemi, se quiser pode ficar com ele, ou então venha aqui e comporte-se!
"Akemi ficou com Strange naquela noite, mesmo com raiva. E Shiro foi para casa, humilhado. Uma semana depois, Akemi descobriu que Strange tinha uma amante. Na verdade, ele possuía várias, o que a fez terminar o namoro e procurar os braços de Shiro. Um mês depois começaram a namorar e, em um ano, estavam casados. Mas a humilhação ficou marcada para sempre na memória de Shiro e a idéia de ser alguém poderoso norteou suas decisões desde então. E foi assim que ele veio até a mim."
"Já Strange apanhou muito da vida depois disso. Certa noite, sofreu um acidente automobilístico que o fez perder o controle dos movimentos das mãos. Afundado em auto-piedade, perdeu o emprego, virou alcoólatra, passou a dormir nas ruas. Até que um dia ouviu um boato de que, nas montanhas do Tibet, vivia um ancião que podia curar qualquer pessoa. Juntando suas poucas forças restantes, Strange foi para as montanhas tibetanas procurar o curandeiro. Acabou encontrando-o e, mais do que curado, tornou-se seu discípulo. Hoje Stephen Strange é o mestre das artes místicas do planeta Terra e é conhecido por todos como o Doutor Estranho."
"Mas você pode estar se perguntando por que parei minha narrativa para falar sobre esses personagens. Lembram de que falei no início, que queria ter um filho? Pois foi Akemi que escolhi para ser a mãe dele, como contarei a seguir."
:: Notas do Autor
(*) Baal era deus do trovão e da chuva, possuidor do solo ao qual traz fertilidade (era também o deus do esterco, da merda). 
(**) Realmente, o rosto de Aleister Crowley aparece escondido entre outros rostos na capa do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", de 1967. 
(***) O trecho deste conto que relata a passagem de Willian Bishop pelo Brasil e seu curto envolvimento com a Sociedade Alternativa foi escrito por Dell Freire. 
(****) Você pode ler uma ótima história misturando o movimento punk e a magia do caos em Hellblazer #11 e #12.
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