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Por
Leonardo Araújo
O Assalto Versão 1
Gotham, cinco e meia da manhã. Delegacia central da cidade.
O policial Brian Smith Linson, tenente Linson, caminha pelo corredor em direção a sua mesa a fim de lavrar uma ocorrência no centro da cidade: a tentativa de assalto de uma joalheria.
Sr. Harry Atwater Dekker?
Sim, sou eu. responde o rapaz algemado na cadeira em frente a sua mesa.
Você está fedendo, minha nossa.
Se cê quisesse trabalhar com uma galera cheirosa, devia trampar em agência de modelos. responde o preso, arrancando risos de um sargento na mesa ao lado.
Muito bem, engraçadinho. diz o policial, enquanto liga um gravador Me diga o que você tava fazendo naquela joalheria às três da madrugada.
Eu sô homem e assumo que tava descolando umas pedras pra vender. ele olha para as algemas Cê tem um cigarro ai?
Não. Continue.
Cara chato. Bom, eu cortei os fios do telefone e arrombei a porta dos fundos. O alarme funcionava junto dos fios do telefone. Sou profissa. ele sorri Era limpeza: eu teria uns 15 minutos pra fazer o serviço.
Carl, traz um café pra mim! pede o tenente.
Dois, chefia, dois.
Traz mais um pra esse vagabundo aqui!
Vagabundo? Sou não. É a necessidade que me levou a isso.
Sei, sei. Vamos lá, continue sua história. Tenho outros para ouvir antes do fim do meu serviço.
Dekker olha para o policial e diz:
Cê quer saber do morcego, né? Cês se pelam de medo do cara. Eu sei.
Ô, palhaço, continua sua história.
Bom, eu tava limpando a loja, pegando tudo de bom, quando percebi que não tava sozinho. Ninguém me pega distraído.
Sei. Continua. diz o policial, pegando o café que lhe trouxeram.
O cara chegou de mansinho, na encolha, doido pra me pegar. uma xícara de café é posta na sua frente Como eu vou tomar café algemado?
Carl, leve o café dele. Ele não consegue tomar. ordena o tenente ao auxiliar.
Filho da puta. Dekker fica remoendo palavras e olhando para a mesa do policial.
Subitamente, uma pancada seca e forte irrompe no ambiente: o tenente Linson golpeia fortemente a mesa com o cassetete.
O prisioneiro olha assustado para o policial que, de forma tranqüila, guarda o cassetete.
Tinha uma barata na mesa. diz o oficial para os colegas nas mesas ao lado Desembucha. fala, voltando, novamente, sua atenção para o preso.
Eu tava dizendo que o cara tava tentando me pegar pelas costas, mas quando ele chegou perto, ah, aí o bicho pegou. Cara, a gente saiu no tapa, mano a mano, eu e ele. Sabe cumé? Ele pensava que podia me ferrar, mas eu sentei a mão no desgraçado. Pow, porrada comendo solta, eh!
Você saiu no tapa com o Barman? É isso que você está me falando?
Claro. Desci o bambu no desgraçado.
O tenente olha e aponta para o gravador.
Teve uma hora que ele tentou pegar algo no cinto. Eu saquei que ele tava armando uma. Daí, eu grudei com ele e não deixei o cara relar no cinto.
Tu tá drogado? o policial faz cara de bonzinho Pode falar pra mim.
Não curto essas merdas não. diz o marginal, profundamente ofendido Sou geração saúde.
Meu filho, você está falando do mesmo Batman que eu estou pensando?
É, aquele da Liga, amigo do cara lá de Metrópolis.
Incrível. Eu podia jurar que era outro. Achava que era o apelido de algum amigo teu.
Eu quase arranquei o cinto dele. Mas a fivela era resistente, da boa mesmo.
Você já foi internado, ou alguém da sua família, em clínica psiquiátrica?
Já fui interno de uma parada, uma casa de menores lá...
Internado, fazendo tratamento pra cabeça. explica o policial.
Nada. Lá em casa, até onde sei, todo mundo é legal. ele gira a cabeça em negativa Tem doido não.
Tem não, sei. agora é o oficial que acena com a cabeça, positivamente Sempre tem o primeiro caso.
Tá me tirando?
Nem pensar. Mas... uma curiosidade: você mal tem arranhões. Acho que o Batman não conseguiu te acertar, certo?
Dekker se olha, buscando por algum sinal no corpo.
Sabe que eu nem tinha percebido? Pelo jeito o cara não conseguiu me acertar. É, eu sou rápido.
Tô curioso. Continua.
Acho que ele tava doidão.
Tu não, mas ele sim? Batman drogado, é? o policial insiste.
Caralho, vou ter que desenhar?
Tipo maconha, cocaína...
Éééé.
Hum-hum. ele mexe o nariz de um lado para outro.
Acertei a cabeça dele nuns mostruários e o cara cambaleou, aí meti o pé no peito dele, uma voadora, sabe, que nem... Chuck Norris.
Sei, Chuck Norris. o policial coça o queixo e olha para alguns outros colegas que, sorrateiramente, escutam a história Prossiga, senhor Chuck Norris, por favor.
Dava pra ver que ele tava numa pior, estava se segurando em tudo que encontrava: mesa, cadeira, balcão, tudo.
Alguém me traga uma caixa de rosquinha. Preciso adoçar isso pra engolir.
Chefia, eu tô falando a mais pura verdade. Cá entre nós, eu quase vi o rosto dele.
O policial arregala os olhos, como quem está muito surpreso. Ele se inclina para frente e diz:
Você arrancou a máscara dele? Melhor, você é vidente?
Cê... faz um ar questionador tá me tirando sarro!
Não, imagina. Foi só expressão. Continua!
As porradas que eu dei na cara dele afrouxaram o homem e as roupas, inclusive a máscara.
Mal posso esperar pra saber como ele conseguiu te prender. Deixa eu adivinhar, foi pura...
Sorte, pura sorte.
Ele jogou a algema para o alto o policial joga suas mão para cima tentando fugir da tua surra e ela caiu nos teus braços?
Os policiais riem.
Engaçadinho, he-he-he. Tive uma câimbra na hora de fugir...
Não acredito que estou ouvindo isso. diz o oficial, com os dois cotovelos na mesa e a cabeça entre eles.
Minha perna doía muito. Aí, bom, ele me algemou.
Acabou?
Pra dizer a verdade, não.
Vai dizer que o Super-Homem apareceu e tu acabou com a raça dele também.
Vai zoando. Cês encontraram o Batman lá?
Não, nós raramente encontramos o Batman após ele efetuar uma pri...
Pois, é. Algemado, eu ainda dei umas porradas no boçal. O fantasiado se mandou. Acho que ele voa. Sumiu rapidinho.
O tenente Linson fica de pé e pergunta em bom som:
Alguém bateu na cabeça desse desgraçado aqui? Olhem bem, com cuidado, sem precipitações. Vamos lá, colaborem. os policiais riem e olham para o tenente Pode dizer, eu não vou pôr nos relatos da madrugada.
Desencana, general. o preso mostra-se confiante A parada é toda séria.
Sabe, uma vez prendemos um bêbado aqui por agressão a uma freira de quase 70 anos.
Gente malvada... o bêbado, lógico.
Escuta. adverte o tenente A freira disse que estava passando e o cidadão, completamente embriagado, a chamou. Ela, pensando que o rapaz precisava de ajuda, parou e se voltou para ele, tentando apoiar o cara. Foi quando recebeu o primeiro soco no nariz.
Uuui! exclama o preso, com certo espanto.
Ela caiu, e ele continuou batendo nela até que um guarda viu a cena e o prendeu. o policial cruza os braços.
Tem que prender mesmo. Sujeito covarde.
Mas o surpreendente foi o que ele falou quando o policial o segurava e ele encarava a freira.
Mandou o policial pro inferno, hehehehe!
Não. O bêbado disse pra freira: "Pô, tô decepcionado. Hic... pelo que diziam, esperava mais de você, hic... Batman!"
Alguns risos correm pela sala enquanto Dekker retorce parte do rosto, como quem despreza a história.
Sargento Fernandez, passe este arquivo gravado para texto e pegue a assinatura do Chuck Norris aqui, junto com as digitais. diz o tenente, entregando o gravador para o sargento Aproveita e faz um exame de sangue nesse cara.
Tenente, fala Fernandez, já conduzindo o preso deixo ele trocar as calças por uma que feda menos a mijo?

Já passa mais de duas horas após o depoimento de Dekker. Ao chegar na delegacia, o comissário Gordon recebe o tenente Linson. O oficial, após relatar sucintamente as ocorrências principais, arremata:
Se eu fosse o senhor, leria o caso da quinta pasta. Nunca li uma história tão furada. Um bom dia pra o senhor.
Bom dia, Linson.
Gordon vai direto à pasta: assalto à joalheria.
Na próxima edição: A segunda versão para este caso!
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