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Miles # 02

Por Matheus Pacheco

Poesia de Métrica Míope e Rima Miserável Para Ilustrar a Desilusão Com o Amor ou Auto-Piedade Para Leigos ou Eu Estou Mal, Você Está Mal?

É dia alto quando ponho os pés na rua
O sol cega meus olhos
Não mais guio meu andar
Nunca foi novidade que prefiro viver sob a lua

Em minha boca, dezenas de sabores
O gosto de Maria sobrepõe-se
Seguido de licores e fluidos
Quem dera poder dizer serem de um de meus amores

Caminho a esmo, hoje não creio ter destino
Uma vez mais (a rotina é assassina)
Uma fêmea me arruina
Será que entregar-se à paixão é sempre um desatino?

Não foram muitas, é verdade. Até posso dizer foram poucas
Mas cada uma marcou-me de uma forma
Todas ficarão para sempre
Por elas fui capaz das atitudes mais loucas

Pudera eu reviver os momentos de minha vida
Consertando todas os erros
Renovando os conceitos
Talvez não estivesse com a auto-estima assim caída

Maria não foi a primeira, não será a última desilusão
De um sujeito tão fracassado
Em uma vida tão longa
Murphy legisla e sobre tudo põe sua mão

Aliás, não sei ter sido uma perda definitiva
Suponho apenas, por experiência
De nunca ter ganho do Destino
Pro amor uma — bela e bem colocada — cadeira cativa

Nas ruas de Nova Iorque continuo vagando
No pior sentido de todos
Sem destino, sem ânimo
Taxado por outros de malandro

Minha mente continua numa espiral sem fim
Penso em mulheres, música, família
Penso nos amigos
Vejo que talvez não seja tão fodido assim

Vêm-me à cabeça todas as cervejas que tomei
Cada riso expelido com gosto
Cada sorriso estampado em meu rosto
E nas vezes em que bêbado enfrentei a lei

Nunca fui santo,meu amigo, temo admitir
Nunca fale pro meu velho
Mas de tudo já usei
Só tive sorte de ter cabeça pra sair

Ainda hoje às vezes acendo um baseado
Preciso de algo pra escapar
Não me julgue mal, amigão
Eu ainda não fiquei seqüelado

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Nada deve ser mais deprimente que estar sentado em um banco de praça, papel e caneta na mão, tentando extravasar as frustrações, por pra fora tudo o que me faz sentir o pior dos seres humanos.

Central Park, 10 da madrugada. O Sol está lá em cima, queimando. A moral cá embaixo (e queima ainda mais). Sabe-se lá o porquê de estar sofrendo por conta de uma mulher com que convivi não mais que uns 10, 15 minutos.

Sei lá. Parece que foi uma vida em comum rompida bruscamente pelo conhecimento. Parece que a noção da distância faz mal. Sei lá...

Olho à minha frente. A vida continua correndo, apesar de mim.
Quatro guris se divertem com uma bola de gude e um buraco escavado no chão (prazeres simples).
Algum maluco comunista tenta pregar pra meia dúzia de desocupados (sensação de utilidade).
Um casalzinho resolve suas diferenças em um banco à minha frente (a inocência do começar).
Dois velhos murrinhas discutem sobre o que eu penso ser política adiante (a agonia do acabar).
Um belo casal se encontra e estala um beijo apaixonado a um palmo de mim (prazer supremo).

Bem à frente, algum daqueles fantasiados dá uma entrevista sobre qualquer coisa a um bando de jornalistas-urubus.

Sabe-se lá quem são ou sobre o que estão falando.

Pra mim são todos iguais, com seus corpos perfeitos, índole irrepreensível e visual asséptico. Me pergunto se têm vida normal. Se vão ao banheiro, se sofrem por amor, se precisam de dinheiro, estas coisas. Será que estas figuras são humanas?

Eu acho que nem acreditaria que existem se não vivesse em NY, como o Jack. Também pudera, não deve nem chegar foto no Missouri, quanto mais uma figura destas ao vivo.

Ah, felizes são eles...

Casa.

Cena típica, eu chegando e a Aretha se arrumando pra sair. Taí um mistério dos grandes. Como pode ser que ela sempre esteja saindo? Será que a inutilidade aumenta tanto assim a circulação de uma pessoa? Isso dá medo...

— E aí?

— Fala, Smiley. Pai tá putão contigo.

— Normal, né? Ele ainda acha que você presta atenção no que eu digo ou faço. Onde tá indo?

— Lá no Andrew.

— Aquele cara que tem o incrível poder mutante de transpor sentimentos pra teclas de computador? Bah, este deve ser um pobre coitado.

— Ah, vai se foder, Miles! Eu não vou entrar nesta discussão de novo. E daí que o cara é DJ? E daí que ele faz música usando um computador? Ele tem que ter tanto conhecimento quanto você sobre teoria musical e estas coisas. Além do mais, qual é a diferença de um botão pra uma corda, quando bem manejado?

— Meu Deus do céu! Cala esta boca, herege! Um dia você ainda vai me dar razão.

— O cacete. Quero só ver quando tu ouvir algo dele. Você vai se apaixonar por acid jazz.

— E ainda chamam aquilo de jazz. Credo!

— Humpf. Já almoçou? Deixei uns pedaços de pizza na geladeira. Dá uma esquentada e manda ver.

— Outra heresia! Pizza boa é fria!

— BLUERGH! Eu tou indo.

— Falou. E diz pro cara que se ele quiser alguma dica de som pode vir pedir pra mim que eu dou um jeito de endireitar o gosto dele.

— Ah, vá à merda!

— Oi...

— Ah, oi pai...

— Onde passou a noite?

— Na casa de uma amiga, porque?

— E a banda?

— Fui chutado. Disseram que sou muito irresponsável pro lance.

— E você vem falando nesta calma toda, né? Lindo, maravilhoso.

— Queria que eu fizesse o quê? Ficasse nos cantos jogado, chorando? Eu não! Vou é descolar outro trampo amanhã.

— Você tem o resto do dia, vai fazer o quê?

— Tocar... Tou precisando de um tempo sozinho.

— Tá. Vai lá. Mas pelo amor de Deus, não fica jogado na vida. Pelo amor de Deus...

— Podeixar, velhão. Eu dou um jeito...

Trancado em seu quarto, Miles levanta seu contrabaixo e abraça-o, como se fora a uma mulher que ama muito, empunha-o como a um bisturi de neurocirurgião e começa a dedilhá-lo.

Miles começa o aquecimento explorando o corpo de sua amada com os dedos. Tirando todos os gemidos e sussurros que poderia querer ouvir neste instante. À medida que a velocidade aumenta, os sons extraídos são cada vez mais viscerais e profundos. O suor corre pela testa do amante, todo o seu corpo move-se harmoniosamente com os sons emitidos pela amante.

Um arrepio de prazer percorre o corpo de Miles. Poucas sensações podem se comparar a executar uma música com toda a paixão necessária.

Notas se sucedem, como se tivessem sido criadas para a execução naquela ordem, daquela forma.

O som vindo das ruas se mescla ao seu próprio, sua respiração ofegante já faz parte da música. Urros de prazer são soltos durante o ato.

Quando Miles acorda de seu transe musical percebe seu pai na porta, sorrindo.

— Os caras foram muito burros de te largar, filho.

— Sei lá. É raro sair um som assim.

— Não contigo. Teu nome foi muito bem colocado.

— Espero que sim, pai. Mesmo...

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

Blackbrid singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All you life
You were only waiting for this moment to be free

:: Notas do Autor

Aliás, nada de notas e sim ordens. Ouça ontem Blackbird (dos Beatles) por Jaco Pastorius. Isso me fez chorar um dia. Garanto que lhe fará bem (seja lá quem você é)...



 
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