Fanfiction: do povo (que entende) para o povo (que gosta)
por Fábio Fernandes

Segundo o escritor Mario Prata, um dos maiores presentes que a Internet nos deu foi o ressurgimento do hábito da escrita entre as novas gerações. E, além das listas de discussão e dos weblogs, essa recém-descoberta e muito bem-vinda febre de escrever agora chega à literatura pela via das cada vez mais populares fanfics.

Criado pela fusão das palavras fan e fiction, o termo fanfics vale para toda obra de ficção escrita por fãs utilizando personagens de seu universo ficcional preferido. No caso de Claudia Modell, a série de TV Arquivo X. Autora de um número notável de histórias ambientadas no mundo conspiratório e bizarro dos agentes Mulder e Scully, Modell inovou recentemente em seu site (http://subsolo.org/) criando um "reality show" com os personagens da série, o Huge Brother. Assim como nos programas semelhantes de televisão, os fãs votam para escolher qual o personagem que sairá da casa virtual.

Um dos sites mais originais de fanfics é o Hyperfan. Criado por aficionados de histórias em quadrinhos, o site está completando um ano e não pára de crescer. Neste momento, você pode ler grátis mais de trinta histórias serializadas envolvendo desde os heróis mais lidos dos quadrinhos, como Super-Homem, Batman, Hulk e Quarteto Fantástico, até outros menos cotados mas não menos queridos dos fãs, como o herói de faroeste Jonah Hex e o cínico e debochado Howard, o Pato.

Destaque para as minisséries de Hellboy e The Clash. Hellboy, um investigador do sobrenatural que por acaso é um demônio, mereceu um one-shot (http://www.hyperfan.com.br/tits/hellboy.htm) especial passado, pasmem, em Ouro Preto! Escrita por Cesar Rocha Leal, advogado carioca que mora atualmente em Salvador e é editor dos títulos DC do site, Hellboy é uma história curta, seca e direta, sem firulas.

Já The Clash (http://www.hyperfan.com.br/tits/clash.htm) é escrita pelo jornalista carioca Alexandre Mandarino, é uma criação exclusiva dele. The Clash, neste caso, não seria a famosa banda punk dos anos 1970, mas um acrônimo para a recém-criada organização Controle Logístico de Agentes Super-Humanos, uma divisão da SHIELD (por sua vez, uma fictícia organização para-militar ligada ao governo dos EUA, criada pela editora Marvel Comics). Muita ação, mas sem perder o bom humor.

Mas isso é arte? Pode ser, mas não é o que preocupa o pessoal do Hyperfan. Segundo Otávio Niewinski, editor-chefe do site: "a idéia para a criação do site surgiu da insatisfação de um grupo de amigos, aficionados por quadrinhos de super-heróis, com os rumos dados a vários personagens por suas editoras oficiais. Em vez de simplesmente ficarmos reclamando e dizendo 'eu poderia fazer melhor', decidimos partir pra briga e escrever nossas próprias histórias."

E quanto ao copyright? Não haveria a possibilidade de processos por parte das editoras? Com a palavra, Otávio:

"Não tenho certeza se a Abril sabe do Hyperfan, mas creio que sim, já que o site já apareceu em várias matérias na rede e há comentários sobre o mesmo em listas de discussão e fóruns. Já a Panini, que agora publica a Marvel, tem como editor o Fernando Lopes, que é escritor no Hyperfan. Então, podemos dizer que a Panini pelo menos tem consciência da existência do site... De qualquer forma, até agora, não tivemos problemas com nenhuma das duas editoras, mas não temos uma posição "oficial" das mesmas. Na minha opinião, eles não têm motivos para preocupação, já que estamos divulgando os títulos publicados por elas e não estamos ganhando - e nem pretendemos ganhar - um tostão por isso."

Pode até ser que não ganhem. Mas que mereciam pelo menos um convite das grandes editoras - americanas ou brasileiras - , isso mereciam.