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Shanna # 04

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Seu Destino... Nosso Destino

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— Olha a loira lá!

— O quê que ela tá carregando?

— Parece que é um homem!

Os homens e Elsa correram para ela. Ficaram espantados ao vê-la trazendo um homem nos braços.

— Quem é esse?— Perguntou Lee.

— Eu não sei. — Respondeu Shanna, suando muito com o esforço. — Um utahraptor o atacou. Ele está ferido. Precisa de ajuda.

— Leve-o para dentro. — Comandou Elsa.— Não sei se vai dar para salvar esse homem, mas tentaremos.

Com cuidado, Elsa e Shanna foram lavando e limpando a sujeira do corpo e dos cabelos do rapaz. Depois, Elsa colocou emplastros de ervas por cima dos cortes, enfaixando-os com panos limpos. Em seguida, aplicou em Max uma injeção de penicilina, das poucas que ainda haviam por ali. Fizera o que podia. O rapaz sobreviveria, se não tivesse ido muito longe.

Mas Shanna não pode deixar de notar uma coisa. Quando lavavam o rapaz, Elsa olhou para o pênis circuncidado dele e lançou um olhar de espanto e depois de nojo, apesar de continuar a tratar dele. Não entendeu aquela reação da parte dela. Depois ela perguntaria o porquê daquilo.

A noite toda, o coitado teve febre e ficou delirando coisas sem sentido. Elsa não se levantou para cuidar dele, de modo que Shanna teve de ficar a noite inteira passando um pano com água fresca na testa dele, tornando a molhá-lo quando secava. Também de tempos em tempos, dava-lhe chá pra febre em pequenos goles.

Enquanto cuidava dele, pensamentos começaram a ruminar sua cabeça. Aquele ser era um homem, sem dúvida algum, igual aos rapazes que havia no acampamento e igual á Doc, mas parecia diferente deles. No caso dos rapazes do acampamento, eles eram todos uns idiotas, que viviam querendo vê-la nua o tempo todo.

Coisa tola... Pra quê querer vê-la sem roupa? O que ela tinha de diferente de outras mulheres? Shanna odiava a todos eles, por isso. No caso de Doc, porém, ele fora como um pai pra ela, sempre a guiando, lhe dizendo o que fazer, como fazer e, principalmente, o que não devia fazer.

Mas no caso daquele homem era diferente. Definitivamente era diferente. Shanna não sentiu por ele, o que sentira por Doc ou pelos outros homens do acampamento. Era estranho. Sentia uma necessidade muito forte de estar ao lado dele, de cuidar dele e de prover o que ele necessitasse. Ela não entendia porque se sentia assim, especialmente por alguém que mal acabara de conhecer. Só sentia que tinha de agir como estava agindo. Era quase instintivo.

No meio da madrugada, a febre cedeu. Shanna estava muito cansada por não ter dormido até então, mas estava feliz de ver que seu novo amigo não morreria.

Por fim, cedendo ao sono, ela dormiu ao lado dele.

Já de manhã...

O rapaz acordou com o forte sol daquela selva no rosto. Sentia-se fraco, tonto e com muita dor, mas não a ponto de deixar de se emocionar ao perceber que a mulher cuidara dele.

Há muito tempo, ninguém cuidava dele assim, com tanta dedicação. Ninguém precisava ter feito isso. Podiam simplesmente tê-lo deixado morrer que isso não pegaria em nada pra eles. Afinal, literalmente ali predominava a lei da selva e alguém como ele, criado como fora no Queens, sabia muito bem o que isso significava. Era matar ou morrer. Não havia meio termo.

E a mulher parecia cansada. Muito cansada. Deve ter ficado a noite inteira cuidando dele.

— Coitada...

Max tentou se levantar, mas a dor não permitiu. O maldito bicho devia ter lhe partido uma ou duas costelas com a patada... Desgraçado!

Felizmente a mulher dera um jeito nele! O infeliz nunca mais iria incomodar ninguém!

Mas que mulher forte aquela... Max nunca vira nada igual! Imagine ela num vale tudo! Poria todos os outros concorrentes no chinelo!

Ainda ruminando esses pensamentos, ele percebeu que a mulher estava acordando. Que pena... Ela era tão linda dormindo...

— Bom dia... — Fez ele.

A mulher não respondeu. Simplesmente se espreguiçou e levantou-se.

— Está com fome?— Perguntou ela, simplesmente.

— Um pouco...

— Eu vou lhe trazer alguma comida.

E foi o que Shanna fez. Trouxe-lhe um ensopado que Max achou divino.

— Hm... Isso tá uma delicia mesmo... O quê é?

— Ensopado de lagarto do pântano. Eu mesmo que peguei.

Max sentiu enjôo. Mas como estava com fome, fingiu que estava comendo um ensopadinho de peixe. O gosto era parecido.

Shanna lançou um meio sorriso.

— Aposto que isso está doendo um bocado...

Max se animou.

— Pode apostar que está.

— Você não me disse seu nome...

— Desculpe... É Maxwell. Maxwell Willian Rossberg. Mas pode me chamar me chamar de Max. E você é...

Shanna! — Alguém gritou por detrás deles.

Era Elsa. E pela cara que fazia, não estava muito satisfeita de vê-los conversando.

— Sim, Elsa?

— Venha aqui. Preciso de você, agora.

— Está bem. Daqui a pouco eu volto, Max. Se precisar de qualquer coisa, grite!

— Tá bom. AI!

— O quê foi? Doeu alguma coisa?

— Não! Eu só gritei pra ver se funciona!

— Como?

— É! Gritei pra ver se você vem mesmo se eu precisar. Gosto da sua companhia... Shanna...

Eles se sorriram e Max piscou para ela. Elsa soltou um ligeiro resmungo de despeito.

Shanna ficou um pouco chocada por aquela atitude.

Alguns dias se passaram. Graças aos cuidados de Shanna, (Elsa só fez o básico por ele. O resto ficou por conta de sua pupila) Max ficou completamente bom.

Com isso, ele aproveitou pra levar a garota até o lugar onde seu avião caíra, cinco dias antes.

— Ah! Ainda está aqui, graças a Deus!

— Como é que uma coisa imensa dessas ia poder sair daqui?— Riu-se Shanna, como que zombando dele.

— Bem, vamos ver o que sobrou...— Murmurou ele, entrando com ela no avião.

Havia alguns pacotes de biscoito, um disc-man e alguns cd's, duas lanternas, um isqueiro, as roupas dele, um kit de primeiros-socorros, três canivetes suíços, alguns livros... E mais um monte de coisas, a maioria totalmente inúteis pra alguém naquela situação.

Ao verificar o estado de suas coisas, Max começou a imaginar como seria levar Shanna para a civilização. Levá-la á praia, a um shopping, apresentá-la aos amigos... Ah, esses iam cair de boca no chão, ao vê-lo chegar numa festa de braço dado com aquela tremenda loira!

Mas, ao verificar o estado do motor do avião, viu que voltar para a civilização seria impossível.

— Mas que merda! Droga!

— Que foi?

— O motor fundiu! Não vai levantar vôo nem em um milhão de anos!

— Deve ter explodido, na hora que o avião caiu...

— É... Mas que merda, viu... Como é que eu vou voltar pra casa?

— Não sei.

— Eu vou tentar o rádio!

Mas só deu chiadeira.

Max quase chorou de ódio. Não queria ficar ali! Ali não era seu lugar!

Mas infelizmente, aquilo parecia totalmente inevitável. Não havia meio algum dele sair dali.

E talvez nunca houvesse mesmo...

A única coisa boa, é que ele não estava sozinho. Havia aquela moça linda pra lhe fazer companhia e mais o pessoal do acampamento, apesar de não serem muito amistosos com ele.

Mas só isso não bastava. Ele queria ver mais pessoas, avistar os prédios do baixo Manhattam onde morava ao longe, sentir o cheiro da gasolina saindo dos escapamentos dos carros, ir ao supermercado, etc. Ele era o urbanóide perfeito, nascido e criado na cidade e não nascera pra Tarzan de jeito nenhum!

— Eu nem gostava muito das revistas dele...

— Do quem está falando?

— Do Tarzan. Você não conhece?

— Ouvi falar. Era um homem que morava na selva e que foi criado por macacos, não é assim?

— Exatamente. E acabei de crer que vou ter que virar um Tarzan, também. Não tem jeito de sair daqui! — Dizendo, isso Max chutou o avião de ódio.

— Mas você já está muito velho pra ser criado por macacos, Max!

O rapaz espantou-se. Não era comum ver Shanna rindo ou fazendo algum tipo de piada.

E ela ficava tão linda, rindo...

Ele também riu.

— Quem sabe tenha alguma macaca por aqui, que me queira como filhote... Pêlos pra isso não me faltam!

— É mesmo... Você tem muitos pêlos no peito...

Sem que Max pudesse evitar, Shanna tocou-lhe o peitoral forte, sentindo as cicatrizes que ficaram do ataque do utahraptor e o rosto que há dias não via uma navalha de barba.

Max sentiu um arrepio profundo subir-lhe pela espinha. O toque daquela moça era tão macio... Fora o toque mais suave com que alguém já o tocara...

O tempo foi passando. Devagar, quente, suave, como num dia de verão.

Aos poucos, Max, mesmo á força pelas circunstâncias, foi se acostumando á vida naquele lugar. O pessoal do acampamento não foi muito com a cara do recém chegado de modo que naturalmente ele foi achegando á única pessoa que lhe oferecia amizade e afeição, ou seja, Shanna. Esta era sua guia, lhe mostrando o que devia e o que não devia fazer ali, o que poderia ou não servir de comida, onde podia e onde não podia ir e como identificar se poderia haver animais perigosos por perto.

— Está vendo esses galhos quebrados aqui?

— Estou. Que têm eles?

— Está vendo como estão meio enfiados no chão?

— Sim, mas o que têm isso?

— Isso é sinal de que um animal acabou de passar por aqui. Ele pisou nesses galhos, formando essa depressão no chão. E pelo tamanho da depressão, posso dizer que é um animal grande. Bem grande.

— Pode dizer o tamanho?

— Calculo que uns 50 quilos, pelo menos. E é um carnívoro.

— Como sabe que é carnívoro?

— Por causa desses respingos de sangue nas folhas. O bicho deve ter acabado de pegar uma presa. Também por causa desse cheiro forte no ar. É cheiro de excremento de carnívoro.

— Cheira como carne podre. Ah! Olhe ali o excremento.

— Ainda está fresco, sinal de que o bicho não está longe. Temos de ter cuidado. E olhe essas pegadas.

— Puxa, você "lê" essa selva como ninguém, viu... Parecem pegadas de pássaro.

— Exatamente. Só que não é um pássaro.

— Lógico que não. Nessa selva maluca... Por que seria?

— Essas pegadas indicam é um réptil.

— Mamãe do céu...

— Mas não se preocupe. Eu conheço os hábitos de quase todos os bichos daqui. E sei com quais a gente deve se preocupar e quando. Esse carnívoro não está atrás da gente. Ele já matou sua presa e agora deve estar tranqüilamente devorando-a em algum lugar por aí...

— Nossa, isso me alivia tanto...

— Mesmo assim, não devemos facilitar, é claro. Vamos sair daqui...

Anda que anda, Shanna parou de repente.

— Cuidado!

— Cuidado com o quê agora?

— Com essa planta!— Com isso, Shanna apontou para um arbusto muito estranho, com folhas vermelhas, cumpridas e extremamente grossas.— Se você tocar nela, ela pega você e não solta!

— Há, quê isso...

— Quer ver? Olhe só!

Shanna jogou uma pedrinha no arbusto. Imediatamente, a planta girou suas folhas, imprensando a pedra entre elas.

— Puxa, eu nunca vi uma planta agir assim! Parece um bicho!

— Pra você ver! Vamos!

Porém, sem que ninguém reparasse, a planta, sentindo a vibração dos pés de Max, agarrou-o por um pé.

— Ai!— Gritou ele, tomando o maior tombo que já levara. — Essa merda agarrou meu pé! Droga!

— Eu falei pra você tomar cuidado!— Respondeu Shanna, cortando a planta com um facão.

Mas aquele não foi o fim daquele dia incrível. Na volta da caminhada, Max sentiu uma irritante coceira em suas partes intimas. Olhando pra dentro do short, pra seu horror, viu uma enorme sanguessuga agarrada bem onde não devia.

— Ai, mamãe...

— O quê foi agora?

— Você não vai adivinhar...

— Me fala.

— Adivinha onde uma maldita sanguessuga resolveu se enfiar?

— Pra você estar assim, eu bem posso imaginar onde ela está...

— E agora? Quê que eu faço?

— Você não está querendo que eu arranque ela, não é?

— Shanna, por favor...

— Mas nem brincando! Eu não vou por a mão aí de jeito nenhum!

— Shanna, me ajuda, merda! Essa diaba coça que um horror!

— Max, primeiro, se eu tentar arrancar ela daí, do jeito que está...

— Ai, meu Deus, tá me dando vontade de fazer xixi...

— ...a cabeça dela vai ficar presa aí. Daí, a ferida pode infeccionar e o seu... Você sabe o quê, vai apodrecer e cair!

— Ah, não! Nem vem!

— Tá bom, deixe-me dar uma olhada... Nossa, mas que coisa mais feia...

— Ele não é feio não, tá? É meu melhor amigo!

— Estava falando da sanguessuga! Bem... E dele também. Mas, voltando á sanguessuga... Bem, essa espécie só sai á base de fogo.

— Fogo? Você vai tocar fogo no meu...

— É, infelizmente, sim...

— Mas nem sonhando!

— Tem que ser assim! Senão essa coisa não sai!

— Isso é um pesadelo...

— Eu vou fazer uma fogueira. Quando as chamas estiverem bem altas, você chega perto, para a sanguessuga sentir o calor. Se tomar cuidado, ela sai e você não queima seu precioso... Amigo.

E foi o que aconteceu. Tremendo igual a uma vara verde, Max teve de fazer o que Shanna falara.

E não é que funcionou? Sentindo o calor, a sanguessuga se despregou dele, caindo na fogueira onde morreu queimada. Max até suspirou aliviado...

Elsa, é claro, não estava gostando daquela amizade. Não estava MESMO!

"Bem se diz que uma desgraça nunca vem desacompanhada!" Pensava ela. "Um judeu! Logo um judeu! Como se já tivessem homens inferiores ali o suficiente para me tirar o sono todas as noites por causa da Shanna, agora tinha de aparecer aqui a pior praga que poderia existir na face da Terra!"

E se o judeu e Shanna... Se apaixonassem? E se pior ainda... Ela e ele... Deus, nem era bom pensar nisso!

Mas se dependesse dela, isso nunca iria acontecer.

Mas mesmo assim, seria preciso cautela. Não era bom colocar o carro na frente dos bois. Vai ver que ela nem estava interessada nele desse jeito, por causa do que já passava com os outros homens e tudo aquilo não passava de paranóia dela, Elsa.

Mas mesmo assim, não custava nada ser cuidadosa.

Mas Shanna percebeu logo as atitudes de Elsa em relação a Max.

— Elsa...

— Sim?

— Por que você não gosta do Max? O que ele fez a você?

— Se você tivesse vivido algumas décadas atrás, você não precisaria me fazer essa pergunta!

Mas esse não era o pior problema que o pobre Max teria de passar. Como só podia acontecer, um homem a mais, significava concorrência para os outros que já estavam ali.

— Vocês viram? Mais um cueca!

— Como se já não tivesse homem suficiente por aqui!

— Putz...

— E a loira tá que tá, toda chanhenta pra cima dele!

— É... Mas ele que não pense que vai ter o que é da gente! Esse judeuzinho que se cuide!

Enquanto isso, sem nem desconfiar do transtorno que a chegada de Max estava fazendo no acampamento, o casalzinho lia junto um dos muitos livros dele.

Max era apaixonado por livros desde menino. Neles, ele viajava na imaginação. Amava tanto ler, que quase se tornou bibliotecário. Só não o fez, porque havia algo que amava mais que ler: voar.

Ah... voar... Sentir-se como um pássaro em pleno céu azul, ver-se no meio das nuvens... Para Max, não existia coisa melhor.

Mas voltando á cena em questão, Max e Shanna estavam lendo alguns dos livros dele. Mais precisamente "Clan of the Cave Bear", o livro preferido do Max.

— Essa cena é interessante. — Disse ele. — A maneira que a Ayla lançou as pedras com a funda para salvar o filho do Broud dos lobos é muito legal. Leia

Shanna leu a descrição. Logo, um sorriso aflorou em seu lindo rosto.

— Eu posso fazer isso.

— Você... Pode?

— Claro! Esse truque de poder jogar duas pedras ao mesmo tempo com a funda é bem fácil! Veja.

Ela pegou duas pedras do chão e as pôs em sua funda.

— Está vendo aquela manga ali? — Fez ela, apontando para uma manga no alto de uma mangueira.

— Aquela grande ali no alto?

— Exato. Vou acertá-la com essas pedras. Olhe.

E antes que Max pudesse piscar, ele viu Shanna girar sua funda com uma rapidez cada vez maior, até de repente, ela soltou as pedras que foram direitinho até onde disse que iriam!

Max ficou de queixo caído. Parecia até estar vendo ao vivo a cena de seu livro.

— Caraca... Se eu não visse... Não acreditaria...

— E aí? Você quer uma manga? — Murmurou Shanna sorrindo e pegando a fruta do chão.

No dia seguinte...

Max foi novamente ao avião. Shanna o acompanhou, a princípio. Mas achando aquilo entediante, a moça voltou.

Após terminar (de maneira frustrante, como sempre), Max seguiu o caminho que parecia mais óbvio, aquele que levava de volta ao acampamento. Imaginou que Shanna tivesse voltado pra lá. Mas, antes de chegar lá, ouviu um barulho para o qual não havia atentado anteriormente. Parecia água caindo, uma cachoeira, talvez. Desviou-se de seu rumo, seguindo direto para onde o som o levava.

Havia uma clareira e, ao chegar mais perto, ele pôde vislumbrar a cena mais fantástica de sua vida. Viu um lago de água azul turquesa, formado por uma cachoeira cristalina. Mas, a visão mais deslumbrante era Shanna banhando-se naquelas águas.

Ele nem pensou se sua presença iria assustar ou constranger a moça. Foi caminhando em direção a ela, com a boca entreaberta, e os olhos arregalados. Ao se aproximar, a viu passando delicadamente as mãos pelos cabelos molhados, depois, unindo-as para apanhar mais água e derramá-la sobre a cabeça.

Quando estava há poucos metros de distância, parecendo hipnotizado pelo magnífico panorama à sua frente, incluindo aquela atraente mulher, para sua surpresa, Shanna o chamou:

— Venha, Max, a água está uma delícia!

"O quê?!" Pensou ele "Ela está me convidando para um banho junto com ela, e nessa maravilhosa paisagem?! Será que eu desmaiei, e estou sonhando? Ou então morri e fui pro céu!"

— Vamos, você vai ficar aí parado? Venha logo! — Insistiu ela.

Max largou tudo o que tinha nas mãos. Não quis pensar em mais nada. Em segundos mergulhou de cabeça naquela água límpida e convidativa. Era tão clara e limpa, que se podiam ver os peixes no fundo.

Os dois ficaram ali por muito tempo, feito duas crianças, ora um mergulhando, ora o outro indo à procura do primeiro. Shanna surgia por trás de Max, e afundava sua cabeça. Por sua vez, ele a puxava pelos pés, e os dois voltavam abraçados à tona, rindo com satisfação.

Após várias horas de vadiagem e lazer, eles saíram da água e se deixaram ficar na relva verde e macia em torno do plácido lago, que só se movimentava próximo à cachoeira. Era verão, e o clima quente daquela selva, levou-os a um sono aconchegante e reparador.

Pelo menos para ele. Porque dali a pouco, Shanna teve um pesadelo terrível, sonhando com a suástica nazista e que estava presa, se afogando na cuba vital de onde viera.

Isso não passou despercebido a Max.

— O quê houve? Assustou-se com o quê? — Fez ele, acordando de súbito.

Ela não conseguiu responder. Só desenhou uma suástica na areia, tremendo.

— É o símbolo do nazismo. Você sabe o quê é isso, não?

Ela fez que sim.

— Eles, os nazistas, eram assassinos que matavam judeus e gente que não aceitava as crenças deles. Mas não precisa se assustar, Shanna. Isso já acabou a mais de sessenta anos atrás!

Shanna abanou a cabeça.

— Você está errado.

— Como assim? Eu sei que ainda tem os tais skeanheads, gente que não tem o que fazer na minha opinião, mas que eu saiba, não tem nenhum aqui!— Riu-se Max.

— Você não deve brincar com isso, Max. É mais sério do que você pode imaginar...

Ela parecia falar tão sério, que Max ficou momentaneamente abalado.

— Eu não entendo... Pode me explicar?

— Não. Não posso.

— Por quê?

Os olhos dela se encheram dágua.

— Porque se eu contar, você vai me odiar...

— Eu nunca poderia odiar você, Shanna. Você salvou minha vida, pombas! E mais, o que quer que você tenha feito no passado, não importa o que seja, não me interessa!

— Você não sabe do que está falando...

— Olhe, eu também não sou santo, tá? Já dei muita pisada na bola! O quê quer que você tenha feito, com certeza não é pior do que muita coisa que eu já fiz nessa vida...

— Aí que está... Não fiz nada.

— Ué, então não entendo! Se você não fez nada, que tem me contar o que te aflige?

— Eu não estou afligida por nada!

— Você tem muitos segredos, Shanna... Que tal me contar alguns? É mais fácil carregar um fardo, quando tem alguém pra ajudar a carregá-lo...

Os olhos dele pareciam lhe implorar pra que Shanna dissesse que não era nenhuma maluca ou assassina. Shanna bem que queria contar-lhe sua história (ou o que sabia dela), mas não confiava plenamente em Max, pra poder se abrir com ele. Ainda não.

E também lá no fundinho, a garota tinha medo de que, se Max soubesse que ela uma aberração genética, criada num laboratório nazista simplesmente pra ser uma máquina de matar, fria e sem sentimentos, ele ficasse com medo dela e sumisse de sua vida pra sempre. Ainda mais, ele sendo judeu, como ele já lhe dissera.

E ela já tinha perdido gente demais, pra perder mais um... Ainda mais Max, por quem começava a sentir afeto. Chegava a sentir falta dele, quando ele não estava por perto. Com ele, coisa curiosa, acontecia a mesma coisa.

— Então, não vai me contar sobre você?

— Não posso...

— Por que não?

— Já falei que não posso!

— Olha, não me importa o que você tenha feito no passado...

— Quem dera que eu tivesse tido um passado...

Max não entendeu essa frase.

— Como assim? Você não se lembra? Perdeu a memória?

— Não há nada pra lembrar...

— E sua família? Quer dizer, você já me disse que não tinha mãe, mas e o resto? Seu pai, irmãos, irmãs...

Ela começou a chorar.

Não posso falar sobre isso!

Shanna correu. Max novamente se sentiu a pior das pessoas que já pisaram na face da Terra. Não queria fazê-la chorar.

Ele foi atrás dela. Achou-a sentada á beira do lago.

— Olha, me desculpe, Shanna... Eu não queria magoar você...

Shanna não respondeu. Continuava pensativa, oscilando seus pensamentos no pouco que sabia sobre si mesma.

Aliás, esse "pouco", era pouco mesmo. Quase igual á nada. Só sabia que fora achada nua, dentro de uma cuba de vidro, tal como um embrião dentro do ventre da mãe. Sabia também que sua genética lhe permitia ser mais do que o comum para um humano, ainda mais para um humano do sexo feminino. Alguém, que ela não sabia quem, manipulara seus genes, tornando-a quase uma arma viva.

Agora a pergunta chave, que martelava em sua cabeça: Ela tivera uma vida antes disso? Tivera alguma família, como Max dissera, pai, mãe, irmãos, etc? Ou já nascera ali? Será também que fora criança algum dia, ou já fora produzida adulta?

Que ela tinha ou tivera um pai e uma mãe biológicos, isso era óbvio. Alguém teve que doar os óvulos e espermatozóides necessários para produzir a ela e os outros iguais a si, que não sobreviveram.

Mas quem seriam esses doadores? Onde estariam? Será que sabiam dela e dos outros? Teriam concordado com aqueles procedimentos?

— Está pensando no que eu disse, não?

Shanna simplesmente fez que sim.

— Olhe, não ligue pro que eu falo. Eu sou muito curioso, é isso. Adoro saber sobre as pessoas e ás vezes, não me controlo... Desculpe-me... Não queria te fazer chorar...

— Não precisa se desculpar... Você me fez pensar sobre muitas coisas...

— Que coisas?

— Coisas sobre minha vida...

Max a abraçou. Shanna continuou a chorar. Chorava por uma vida que jamais tivera e que jamais teria...

— Olhe, Shanna, eu sempre escuto você chorar assim á noite... E isso... Bem, isso dói, né?

— Dói? Não entendi...

Max olhou bem fundo nos olhos de Shanna.

— Quando alguém com quem a gente se importa sofre, a gente sofre junto...

Shanna não conseguiu desvencilhar-se do olhar de Max. Era um olhar fundo, penetrante, grave e amigo que demonstrava que ele desejava confiar nela, que queria apóiá-la, ajudá-la a enfrentar sabe-se lá o quê que a estivesse afligindo.

E ela nunca vira um olhar assim, em ninguém. Estava certo que Doc também a ajudara e que fora um bom amigo pra ela, mas ele sempre olhara pra Shanna de uma maneira diferente de Max. Os olhares de Doc sempre tinham sido ternos e amorosos, quase como se Doc fosse o pai e Shanna, sua filha levada e querida. Já os olhares de Max não eram assim. Eles exigiam e desafiavam, ao mesmo tempo em que a olhavam com carinho.

— Você sofre quando eu sofro? Doc também era assim...

— Ele também devia gostar de você... Como eu gosto.

— Não... Não como você gosta... Doc era como um pai... Você, não.

Os rostos dos dois se encontraram. Suavemente, Max encostou seus lábios nos lábios de Shanna, beijando-a com doçura. Imediatamente, ela sentiu um calor enorme subir por seu corpo.

— Por favor, não faça isso comigo... — Fez Shanna afastando-se dele.

— Tudo bem, desculpe, eu não devia ter feito isso... Mas é que você não ajuda!

— Eu?

— Sim, você! Você é linda demais, Shanna!

— Não é minha culpa.

— E quem falou em culpa? Graças a Deus que você é linda assim! Imagine se eu tivesse de ficar preso nessa selva com um dragão!

— Têm tantos por aí...

— Não, não, você não entendeu. "Dragão", nesse caso, quer dizer mulher feia. E eu quis dizer que, se eu tenho de ficar preso nesse parque dos dinossauros maluco, melhor pra mim ficar com uma garota bonita, a própria personificação da minha personagem preferida, do meu lado!

— Quer dizer que se eu fosse feia, você me abandonaria?

— Não, é claro que não! Mas com certeza, eu não sentiria por você o que sinto. E não faça essa cara pra mim, tá legal? Eu tô sendo honesto com você. Eu não sou santo e nem pretendo ser. Sou humano, é só. E de garotas feias, eu sempre mantive uma distância segura. Não que eu me ache o cara mais lindo e sexy do mundo, mas é que não está dentro de mim, namorar alguém de quem eu não goste inteiramente, que não corresponda ao meu ideal de mulher. Jamais ficaria com alguém por caridade. Tá bom, eu sei que gente feia também tem sentimentos, mas... Pra mim seria um inferno na Terra, ficar preso nesse fim de mundo cretáceo, com um tribufu do meu lado!

Shanna ficou uns minutos pensando, compartimentando em seu cérebro tudo o que ele dissera.

— E se um filho seu nascesse feio? O quê você faria?— Perguntou ela, por fim.

— Não sei. E também, eu nunca quis ter filhos. Mesmo porque, eu nunca achei uma mulher de que gostasse tanto, a ponto de querer ter uma família com ela... — Nessa hora, Max a olhou com aquele mesmo olhar amigo de antes. — Se bem que no seu caso, eu faria uma exceção.

Shanna ficou vermelha. Vermelha, mas feliz com a observação.

— É verdade... — Continuou ele, olhando-a bem fundo nos olhos. — Acho que tivesse que ter um filho, eu escolheria alguém como você, minha Ayla, pra ser a mãe dele...

Os dois se beijaram novamente. E novamente, aquele calor gostoso subiu pelo corpo de Shanna.

Elsa viu os dois se beijando na beira no lago. Primeiro ficou pálida de choque, depois furiosa e indignada, imaginando o que poderia fazer para evitar que o "pior" acontecesse...

Diversos tipos de conspirações foram fervilhando na cabeça dela. Poderia ser uma facada bem dada no coração ou até veneno na comida. Depois seria só uma questão de largar o corpo no meio da selva, que os raptors fariam o resto...

Não. Muito arriscado. Shanna iria querer descobrir onde o rapaz estaria e com seus sentidos extremamente aguçados, fatalmente acharia o corpo. E gostando dele como já gostava, ela reviraria aquele acampamento de pernas pro ar, até descobrir quem o matara. E coitado de quem o tivesse feito...

"Mas que abacaxi que me caiu nas mãos!"

Naquela hora, um belíssimo pôr do sol, Max estava tentando ensinar Shanna a dançar.

— Olhe, é bem simples. É só acompanhar o ritmo da música, tá ok?

Max ligou então seu discman, colocando um rock.

— Que coisa barulhenta... — Reclamou Shanna, tapando os ouvidos.— Parece o som dos mamutes acasalando!

— Ora, vejam só... Mamutes acasalando, essa é boa! Isso é U2, mulher, a melhor banda de rock que existe! Agora me deixe guiar você...

Porém, ensinar Shanna a dançar rock não foi tão fácil quanto pareceu a princípio. Depois de ela ter pisado nos pés de Max umas quatro vezes pelo menos, ele escorregou na grama úmida, fazendo os dois caírem num tombo feio. O pior foi que Max caiu de boca bem em cima dos seios dela.

Shanna ficou danada.

— Chega! Desisto! Não vou fazer mais isso!

— Ai, com essa quase que eu sufoco... Mas espera aí, Shanna, vamos tentar com uma coisa mais simples, então!

— O quê, por exemplo?

— Uma música romântica. Tudo bem?

Shanna aceitou, meio relutante. Mas como a outra musica era mais lenta, ela conseguiu pegar os passos, relativamente rápido.

— Essa música é mais bonita... Eu prefiro assim...

(Música do fundo: "Destino" de Patrícia Marx)

Ela abaixou os olhos. Quando tornou a levantá-los, Max estava perto, numa distância consideravelmente perigosa.

Shanna tocou-o no rosto.

Max fechou os olhos por instantes. Aquele toque... O punha fora de si! Era quase como se queimasse por dentro.

O olhar azul de Shanna fixou-se na escuridão violeta dos olhos de Max.

Os rostos se aproximaram para um leve roçar de lábios. Os dois se abraçaram com amor. O ar quase faltou a Shanna quando os braços fortes de Max fecharam-se em volta da sua cintura.

— Max, eu... — Balbuciou em meio a ofegante respiração.

— Eu também, Shanna... — Interrompeu ele, colocando a ponta de seu dedo sobre os lábios carentes de carinho dela.

— Max... Por favor... Nunca se afaste de mim... Preciso de você.

— Eu nunca me afastaria de você, Shanna... Nunca... Eu te amo... Te amo como nunca amei outra pessoa antes...

— Também te amo...

O beijo foi ficando mais intenso. Mais intenso e mais doce.

Shanna os conduziu para a lagoa e os dois submergiram juntos na água cristalina, debaixo da cachoeira, ambos iluminados pelo belíssimo clarão do luar.

Eles se olharam.

— Tem certeza? — Perguntou Max.

— Eu sou sua... É o que mais quero no mundo... — Sussurrou ela, se aninhando nos braços deles.

E assim foi. Apenas o céu profundamente estrelado foi cenário e testemunha daquela linda noite de amor. A primeira, a mágica, a especial. A primeira de muitas mais...

Na manhã seguinte...

Dois corpos cansados e felizes dormiam abraçados á beira d'água. O barulho suave na água feita pelos leves movimentos era o único som que se ouvia por ali.

Shanna acordou, se virou e deu um beijo em seu amor.

— Bom dia...

— Bom dia, minha Ayla... — Max acariciou os cabelos loiros de Shanna, que com a luz do sol da manhã, adquiriam um tom dourado que quase os fazia parecer ouro. — Passou bem à noite?

— Não poderia ter sido melhor...

— Não... Não poderia... Se tentasse melhorar, estragava...

Eles se olharam e sorriram.

Um abraço selou a união do casal que agora desejava, mais do que nunca, que aquele momento fosse eterno. Foi quando eles souberam que um olhar às vezes diz coisas que ninguém expressa apenas dizendo "Eu te amo..."




 
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