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Shanna # 03

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Os Olhos de Cor Violeta

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A vida prosseguia seu rumo.

Todos os dias iguais. Iguais e completamente vazios. Exceto por um ou outro dinossauro que por vezes invadia o acampamento procurando fazer de alguém o seu jantar, nunca acontecia nada de especial por ali.

Mas para Shanna era pior.

Pior, porque além de ter de agüentar calada as piadinhas e gracejos dos homens (ela se sentia obrigada a isso, por causa do que acontecera), ainda tinha de suportar a raiva que Elsa passara a nutrir por ela.

Não era mais uma raiva irada, como a que ela sentira no primeiro dia, mas uma cólera fria como gelo. Elsa raramente falava com Shanna e, se falava, era ou pra chatear e se queixar de uma coisa que a garota fizera ou deixara de fazer, ou para dar ordens.

Shanna tudo isso poderia suportar. Só não suportava estar sem Doc. Se ele estivesse ali... Tudo seria diferente.

Mas ninguém conhecia seus refúgios secretos, a caverna perto do riacho da cachoeira e a praia. Quando a coisa estava por demais terrível e ela sentia que já não estava mais conseguindo suportar aquele ambiente, era para um desses dois lugares que fugia.

E secretamente, sem que ninguém percebesse, ela foi, aos poucos, levando suas coisas para a caverna: Seus dois facões de caça, sua zarabatana, os muitos livros que Doc deixara e de que ela se apoderara (adorava ler), um saco de dormir e mais algumas outras coisinhas (pratos, talheres, panelas, etc.).

Seu plano era bem simples: Ir deixando o acampamento aos poucos, sem que ninguém o percebesse. Quando alguém notasse, ela já não estaria mais entre eles.

Seria melhor assim. Antes viver só, do que ter que conviver com pessoas que ou não gostavam mais dela ou só queriam dela algo que ela não lhe iria lhes dar. Nunca.

E assim foi. Quando Shanna percebeu, já tinha levado tudo.

Agora era só uma questão de ir se distanciando aos poucos. Ficaria um dia fora, depois dois, depois três e por aí vai, até o dia que definitivamente não voltaria mais.

Pela primeira vez na vida (Não contando a época em que estivera presa em sua cuba vital, visto que na ocasião nem mesmo tinha consciência de que estava viva), ela estaria entregue a si mesma. Inteiramente.

Não que tivesse medo de alguma coisa. Afinal, ela sabia se cuidar muito bem. Era forte, sagaz, inteligente e plenamente capaz de tomar conta de si.

Com cuidado, Shanna foi espalhando os itens que pegara pela caverna. Logo, tudo estava no lugar.

Sentindo-se suja e empoeirada, a garota banhou-se no lago, de onde aproveitou pra pegar alguns peixes. De repente, ela lembrou-se que estava com fome.

Só que não percebeu um fascinado par de olhos de profunda cor violeta a olhá-la...

Era um homem. Um homem que por engano estava ali.

Seu nome era Maxwell Willian Rossberg. Era um piloto de carga, cujo avião, por causa de uma pane no motor, acidentalmente caíra ali, dois dias antes.

Mesmo que tivesse se machucado um pouco na queda, Max (ele gostava de ser chamado assim), não pode deixar de ficar de queixo caído. Nunca, nem em seus sonhos mais loucos, ele alguma pudera imaginar que pudesse existir um lugar como aquele, primitivo e cheio de animais supostamente extintos.

E lógico, também nunca imaginara que num lugar tão inóspito e primitivo, pudesse haver uma mulher tão linda como aquela que tranqüilamente comia alguns peixinhos assados, ali à sua frente. Afinal, pra alguém que, até agora, só vira dinossauros, pterodátilos e outras criaturas afins, imaginar que houvesse um outro alguém ali e ainda mais uma mulher tão maravilhosa, praticamente perfeita, seria uma coisa totalmente impossível.

Max ficou a olhá-la, como que completamente hipnotizado. Como já dito, jamais ele vira mulher mais linda em toda a sua vida. Era quase como se estivesse vendo um anjo. Tão distraído estava, que não percebeu um utahraptor dos grandes, silenciosamente aproximando-se.

E o pior era que a criatura vinha contra o vento, tornando impossível que o homem percebesse seu cheiro, por mais forte que fosse. (Fedia a lixo!).

Só foram perceber o perigo quando já era tarde. O monstro saltou como um raio pra cima dele. Sua ânsia de matar era total.

O homem urrou de dor quando o utahraptor lhe mandou uma patada bem no peito, quase o abrindo por inteiro. Caindo no chão, o coitado viu que não podia com um ataque tão fulminante e preparou-se para a morte.

O que não esperava foi o que aconteceu a seguir.

A mulher. A mulher que o fascinara estava cara a cara com o utahraptor. Não parecia sentir medo algum.

O caso fora que Shanna ouvira o guincho de ataque da criatura, mas não ligara a princípio. Sabia que os raptores costumavam soltar aquele barulho estranho e irritante quando estava caçando e não seria ela que iria se meter no meio do jantar deles. Desde que não estivessem atrás dela, aqueles monstros assassinos podiam caçar o que quisessem que ela não queria nem saber. Porém, ao escutar um grito de dor humano, seu coração bateu forte e quase que instintivamente, resolveu acudir quem quer que estivesse sendo atacado.

Diante daquele inesperado ataque, o utahraptor começou a corcovear feito louco. Mas quanto mais pulava e tentava atingir a garota com suas dentadas e patadas mortais, mais ela se aferrava em seu pescoço.

O homem, mesmo se sentindo cada vez mais fraco pela perda maciça de sangue, não pode deixar de se impressionar com a performance daquela mulher desconhecida. Ela não sentia medo algum. Pelo contrário, cada reação defensiva do utahraptor parecia programá-la pra reagir com cada vez mais fúria.

Seus músculos pareciam que iam estourar, a medida que ela ia fazendo mais força, tentando torcer e quebrar o pescoço do monstro. Este guinchava e pulava de dor, tentando se livrar do aperto. Mas não conseguiu. Logo tombou no chão morto, com o pescoço esfacelado.

Shanna suava pelo esforço, mas de fato não estava muito cansada. Ela já enfrentara dinossauros muito maiores do que aquele.

— Pronto! Esse daí nunca mais vai levantar!

Shanna demorou a levantar os olhos e fitar o rapaz, mas quando o fez, achou que seria melhor não tê-lo feito. Max estava um verdadeiro trapo humano: suas roupas estavam rasgadas pelas patadas do utahraptor, seus machucados estavam saltados demais, e sua testa tinha um corte profundo, onde batera a cabeça quando caiu. Os cabelos do jovem estavam uma imundície de sangue e sujeira só, e seu corpo estava quase totalmente cheio de cortes e arranhões.

Ela olhou pro homem que se esvaía em sangue.

— Você está muito ferido. Vou ajudar você...

— Obrigado... Só não sei se vai adiantar muito...

— Você tem razão. Normalmente, eu nem perderia tempo em tentar ajudar alguém tão ferido, mas uma vez um amigo me disse que devemos ajudar os outros mesmo que tudo pareça totalmente perdido.

O rapaz ficou um pouco chocado pela frieza dela. Mas não disse nada.

— Vou leva-lo para um lugar onde vão cuidar de você melhor do que aqui. Mas primeiro, eu vou cuidar desses ferimentos. Estão sangrando demais.

— Você sabe... o que fazer?

— Sim. Primeiro vou limpá-los, e depois cauterizá-los para fazer parar o sangramento.

Depois de limpar os machucados, a moça pôs uma faca no fogo. Logo o metal ficou rubro.

— Morda esse pedaço de pau. Vai precisar.

Shanna, então, apertou a faca em brasa em cada um dos cortes. A dor foi tão grande que o rapaz quebrou o galho com os dentes, desmaiando logo no principio.

Shanna então o pegou no colo. Max pesava quase 100 quilos de músculos (fazia musculação e natação), e mesmo para ela, foi um árduo esforço carrega-lo quase três quilômetros até o acampamento.

Mas valeria a pena ajudá-lo. Especialmente porque, sem saber, ela estava ajudando seu próprio destino...




 
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