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Shanna # 01

Por Carolina 'Huntresscarol' Bastos

Manhã de Caçada

Diário médico... Um dia qualquer...

"Sem novidades no front. Os homens estão cada vez mais nervosos. Pelo visto, já perceberam o óbvio... Que jamais sairemos daqui."


Era a época do calor. Um calor escaldante, infernal.

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Fazia uns 40 graus a sombra. Respirar o ar ao redor era quase como respirar fogo. O vento fazia soprar uma poeira fina e irritante que dava nos nervos das pessoas do acampamento.

Quase todos ainda estavam se recuperando da doença que recentemente vitimara o acampamento e que matara vários deles, o que fizera piorar uma situação que já era ruim.

Dinossauros, monstros, aquela selva irritante cheia de mosquitos e cobras, ter que colher frutas, vegetais e raízes e caçar como homens das cavernas só para ter o que comer a cada dia... Deus, como eles poderiam ter tido o azar de cair logo naquele fim de mundo medonho?

Era como um pesadelo. Só que, infelizmente, um pesadelo de que eles não podiam acordar...

Colombo, Murph e Lee conversavam. Nessa ordem.

— Cacilda... A dispensa tá no fim!

— A gente vai ter que sair de novo.

— Eu não vou me enfiar naquela selva! Não de novo!

Na caçada anterior, Lee fora mordido por um compsognathus. Era um dinossaurinho do tamanho de um frango, cuja mordida era venenosa e que lhe causou várias noites de febre e desespero, além de uma "bela" cicatriz na batata da perna. A partir daí, era só falar em entrar na selva que ele partia logo para a briga.

— Alguém vai ter que ir, né?

— Desde que não seja eu...

— Por quê não vai a loira?

— É!!! Ela pode ir caçar para a gente!

— Tá bom. — Colombo aceitou.— Eu falo com ela.

Shanna, como sempre, estava com seus mentores, Elsa e Doc. Os três estavam sentados debaixo de umas árvores, aproveitando que o ar perto do rio era bem mais fresco do que no acampamento. O cérebro analítico de Shanna era como uma esponja, praticamente absorvendo tudo o que pudesse aprender.

Doc falava com ela. Como estava sem uma perna, estava sentado em um banquinho.

— Então, Shanna, você gostou do livro do professor Hawking?

— Sim... "Universo em uma casca de noz" é um ótimo livro. O professor que o escreveu é um grande homem.

— E você o entendeu?

— É claro que ela o entendeu, meu querido! — Murmurou Elsa, não escondendo o ar de orgulho.— Seu cérebro foi feito para reter e entender tudo!

— Explique um pouco do livro para mim. Só não entre em muitos detalhes, porque eu não entendo nadinha de física quântica...

E ela explicou mesmo.

— Bem... No livro do professor Hawking, ele nos mostra o denominado universo de Einstein, que é o modelo de espaço-tempo que Albert Einstein propôs quando não se sabia que o universo estava em expansão. Portanto é estático, mas ainda assim apropriado por ser simples. Segundo esse modelo, o espaço-tempo é como um cilindro, com sua extensão sendo o passado infinito e o futuro infinito. O presente seria como uma fatia desse cilindro, e imagine essa fatia em rotação, como um grande LP. Quem estivesse no centro deste eixo estaria fixo no espaço, como se alguém estivesse num centro de um carrossel. Quanto mais afastado do eixo, mais rapidamente estaria se deslocando. Assim, se o universo fosse infinito no espaço, pontos suficientemente distantes do eixo teriam de estar rodando em velocidades acima da luz. Mas, como o universo de Einstein é finito nas direções espaciais, existe uma velocidade de rotação crítica abaixo da qual nenhuma parte do universo está rodando mais rápido que a luz.

— Espantoso... Como conseguiu compreender tudo isso com apenas uma leitura?

— Eu não disse, Doc? — Fez Elsa, quase estourando de orgulho — Ela é perfeita! O ser humano perfeito!

Doc não gostava quando Elsa falava assim de Shanna. Aliás, não gostava nada. Parecia até que a garota era só um experimento de laboratório!

Tudo bem que era mesmo, que fora assim que ela, supostamente, nascera, mas acima de tudo, Shanna era um ser humano! Um ser que tinha sentimentos! Não era só uma experiência científica!

Houve uma época, que ele, Doc, também tivera medo de Shanna. Muito medo. Ela parecia tão feroz, incontrolável e intratável...

Mas, ao mesmo tempo, ele descobriu um lado sensível nela. Um lado humano que nenhuma experiência científica, por mais forte que fosse, pôde lhe tirar. Só o fato de ela ter se oferecido para ajudar os homens a buscar o antídoto para a doença que os estava matando e de ter-lhe cortado a perna para salvá-lo dos raptores — mostrando que gostava dele e que queria que ele vivesse, mesmo aleijado — já mostrava que ela não era, e nunca fora, o monstro que ele imaginava que ela fosse...

— Shanna!!! Loira!!! — Ouviu-se alguém chamar.

— Parece que o pessoal está te chamando...— Murmurou Elsa.

Shanna foi atendê-los sem muita vontade. A exceção de Colombo, que chegava a estóico em seu autocontrole, e de Doc, que tinha Shanna como uma filha, o restante dos homens sobreviventes do acampamento, que infelizmente não eram poucos, não perdiam uma oportunidade de mexer com ela. Só não ousavam ir mais além porque temiam sua força enorme e sua raiva, que, quando despontava, ficava quase incontrolável.

— Sim? — Murmurou ela para Colombo.

— Loira, a nossa despensa tá pela hora da morte. Os homens ainda tão muito fracos por causa da doença. Será que você podia dar uma força pra gente?

— Vocês querem que eu cace?

— Sim. Os homens tão com medo de entrar na selva, especialmente de todos esses acontecimentos... Cê entende, né?

— Vocês, machos, são é muito moles mesmo!

E dizendo isso, Shanna pegou sua lança e dirigiu-se para dentro da selva.

Os homens ficaram indignados.

— Ela chamou a gente de mole? — Gritou um negro chamado Peterson. — Eu mostro pra essa loira quem é mole! Quem é mole não foi para a Guerra do Golfo e nem para o Iraque, sua @#$%!

— Deixa, Pete! — Disse Doc, sempre tentando apaziguar as situações.— Fica na sua, tá? Fique frio, cara, fique frio!

— Mas, ela...

— Fique frio, cara! Não piore a situação!

— O Doc tem razão, Pete. — Murmurou Murph.— A gente depende da Shanna, se quisermos sobreviver nesse Jurassic Park dos infernos. Ela é a única que consegue caçar sem medo nesse lugar. E nós... Bem, a gente não passa mesmo de um bando de frangos molhados, morrendo de medo até das nossas sombras...

Enquanto isso, Shanna mergulhava selva adentro.

Dali a pouco, escutou um barulho parecendo com poc-poc, no meio dos arbustos. "Galinhas selvagens!" Ela pensou sorrindo, ao passo que silenciosamente armava sua funda com pedras. Uma daquelas aves, pelo menos, teria que ir pra sua panela.

As pedradas foram certeiras. Algumas galinhas selvagens estiveram chocando em alguns ninhos nos arbustos e três não conseguiram escapar. A carne delas era deliciosa e os ovos, se não estivessem chocos, seriam um bom prêmio extra.

Shanna quebrou um, pra verificar. Viva, não estavam! Parece que as galinhas tinham acabado de botá-los. Com cuidado, ela envolveu os 35 ovos restantes (o que quebrara, ela bebeu, pra não desperdiçar) com musgo macio e colocou-os delicadamente numa bolsinha de pele que sempre trazia consigo.

Porém, algumas galinhas e ovos não bastariam. Shanna queria levar o máximo possível de comida para o acampamento.

Com o olhar frio e sem emoção de um caçador, a garota foi perscrutando os arredores. Não deixava escapar nada que pudesse virar comida. Um almiquí, um tipo de roedor arbóreo parecido com um opossum, foi facilmente abatido com um dardo envenenado, atirado de uma zarabatana que ela mesma fizera. O veneno, tirado de um planta de bagas brancas muito comum por ali, era uma neurotoxina, que paralisava os músculos da presa, impedindo que ela se agarrasse ás árvores, voasse, corresse ou nadasse. Era uma coisa muito prática para um caçador, porque depois de cozida, a toxina perdia o efeito, permitindo que a presa fosse comida sem problemas.

Tá certo que os almiquís mais pareciam ratos gigantes, mas na falta de outra coisa... Um pato selvagem ali, outro almiquí ali, algumas frutas, bagas, raízes, nozes, uns peixes e...

"Mamutes!" — Pensou Shanna, ao avistar ao longe, um rebanho dos maiores paquidermes que já habitaram a face da Terra. Eram peludos e muito maiores que elefantes comuns, além de terem presas umas duas vezes maiores do que destes.

Portanto, Shanna precisava ser cautelosa, se quisesse se meter a caçar um daqueles animais enormes. Uma só pisada daquelas patonas peludas e seria tchau, tchau e até nunca mais pra ela.

Mas era um risco que poderia valer a pena. Se conseguisse abater um só daqueles animais, não precisaria sair pra procurar comida por talvez um mês ou até dois.

Ela fixou bem o lugar dos mamutes. Depressa, voltou para o acampamento, pra deixar as coisas que já pegara e afiar ainda mais sua lança.

— Ué, já voltou? — Perguntou Doc.

— Não posso conversar agora. Só vim deixar essas coisas.

— O quê você vai fazer?

— Espere e veja. Ah, está ótimo!— Fez ela, testando o gume da lança.— Eu já volto!

Correndo como uma bala pra não perder aquela caça fácil, Shanna subiu numa árvore e ficou espiando os mamutes, que mansamente pastavam ao longe, sem se dar conta da presença dela. Nem pareciam os animais ferozes que eram.

Logo, ela viu um jovem macho que lentamente foi se afastando do resto do rebanho.

"Vai ser aquele ali!" — Pensou ela.

E como que pra ajudá-la, perto da caverna havia um buraco no chão, grande, mas não muito fundo. Devia uns metros ou pouco mais por quatro. Descendo nele, Shanna enfiou sua lança no chão do buraco, cobrindo em seguida o buraco com uma camada de paus com folhas.

Agora, seria uma questão de atrair o mamute para a armadilha. Mas isso não seria difícil. Mamutes se irritam com muita facilidade. Seria só ela aparecer na frente dele, que o bicho partiria pra cima dela num átimo.

E foi exatamente isso que aconteceu. Vendo aquela intrusa ali, aparentemente dando bobeira, o jovem mamute correu pra cima dela, exatamente como Shanna imaginara que seria.

O cérebro analítico da garota foi calculando a distância decrescente entre ela e o mamute. Mais perto, mais perto, mais perto, mais perto e...

Num pulo, Shanna pulou por cima da imensa cabeça do animal, como uma ginasta numa competição olímpica. Após isso, ela deu um salto mortal em cambalhota por cima do dorso do mamute, apenas tocando-o com a ponta dos dedos. Ao completar o salto, porém, ela deu um empurrão nele por trás, jogando-o pra dentro do buraco, direto pra cima de sua lança. Soltando um barrido surdo, o animal morreu quase instantaneamente.

Suando, mas feliz com sua vitória, Shanna olhou pra dentro do buraco. Precisava calcular a força necessária pra poder tirar o mamute morto dali.

E tinha de fazê-lo depressa, pois o cheiro do sangue era "o" chamariz pros carnívoros, especialmente carniceiros oportunistas como os T. Rex. Eles eram caçadores, é lógico, mas diante de uma refeição fácil como aquela, eles não hesitariam.

E Shanna seria a sobremesa, sem dúvida.

Mas força pra tirar o bicho dali ela tinha. Afinal, o mamute que caçara ainda não atingira nem de longe seu pleno tamanho. Devia pesar apenas uns 1500 quilos que seriam muito bem aproveitados. Além do que, ainda havia a pele e os ossos do bicho que também teriam serventia.

— Olha! — Gritou alguém.— A loira tá voltando!

— E olha o que ela tá trazendo! Putz! Um mamute!

— Eita! Churrasco de mamute!

— É hoje que eu tiro a barriga da miséria!

— E graças a nossa loira querida aqui!

— É! — Fez Doc, acalmando a alegria do pessoal.— Mas primeiro, vamos ajudar a Shanna a descarnar esse bichão aqui.

Os homens começaram a reclamar, querendo assar logo um pouco da carne do bicho. Mas Colombo, que era uma espécie de líder entre os homens, tratou logo de fazê-los fechar o bicho.

— Doc tem razão! Quem quiser comer, vai ter que trabalhar! Shanna não é nossa escrava! Ela já fez sua parte caçando pra nós e não fosse por ela, poderíamos passar fome hoje. Então tratem de calar essas bocas e venham ajudá-la JÁ!

— Você pelo menos sabe como fazer isso, Colombo?

— Meu pai era curtidor de peles e dono de um matadouro. Eu cresci fazendo isso.

O dia voou com Shanna e o pessoal se revezando em defumar e preservar as carnes dos animais que ela caçara e vigiar os carnívoros que já começavam a rondar o lugar, atraídos pelo cheiro do sangue. Volta e meia, eles tinha de expulsar alguns carniceiros oportunistas, tal como compsognatos, que apesar de pequeninos, do tamanho de galinhas, eram uma amolação. Vinham aos bandos, atraídos por qualquer cheiro de sangue ou carne que sentissem e pra piorar, como já se sabe, ainda eram venenosos.

Porém, piores do que aqueles pestinhas eram os raptores e os tiranossaurídeos, tais como os tiranossauros e alossauros. Shanna já podia ouvir ao longe os rugidos e urros daqueles monstros, de modo que se pôs a pensar no que poderia fazer pra evitar que chegassem perto.

Fogo! Isso! Era a única coisa que afastava os dinossauros com eficiência. Depressa, ela foi até seu quarto no acampamento, pegou uma lupa e apontou-a para um arbusto.

Aconteceu exatamente o que ela previra. O vidro da lupa refletiu a luz do sol e logo o enorme arbusto estava inteirinho em chamas. Sentindo o calor do fogo e a fumaça, nenhum carnívoro se atreveu a chegar perto, apesar de continuarem a rondar por ali, e eles puderam continuar seu serviço tranqüilamente.

Primeiro despelaram os almiquís, deixando as peles macias deles secando ao sol. Depois despenaram e destriparam as galinhas e patos e cuidaram dos peixes. Logo, todos os bichos, devidamente limpos, despelados e depenados, estavam secando sobre o calor de uma outra fogueira que fizeram.

Mas e o mamute? Bem, com cuidado, Colombo foi destacando a pele dele com sua faca. Depois com um puxão certeiro, a pele do bicho saiu inteira. Enrolando-a, o rapaz deixou-a secando ao sol, junto com as peles de almiquí. Disso cuidaria depois. Sendo filho de um curtidor, ele sabia como mexer com peles de animais. Agora, era a carne do mamute que os interessava.

Com um facão, eles foram separando as diferentes partes do animal. Depois, quando as carnes secavam, Shanna e Colombo cuidaram das peles e ossos. Com um raspador, feito com uma afiada navalha de barba, a garota tirou os restos de sangue, carne e gordura que ainda estavam colados ás peles, evitando com isso que elas se estragassem. Depois, Shanna limpou os ossos. Com esses, ela poderia fazer ferramentas úteis e resistentes, tais como agulhas, raspadores para limpar escamas de peixes, pontas de flechas, machados, etc. Tudo isso ela aprendera em livros sobre os homens da pré-história.

Enquanto isso, Doc, olhando pra fora, observava tudo, completamente fascinado. Há princípio, ele imaginara o que aquela garota sabia fazer. Agora ele se perguntava o que ela não sabia fazer!

Já era noite fechada, quando o pessoal acabou tudo. Todos estavam imundos e cheiravam pior do que cadáveres.

Mas estavam felizes. Graças a um dia de esforço de Shanna e deles, haveria comida pra muitos dias...




 
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