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Por
Josa Jr.
Josa
Ex Machina
[Srta. Sodré, esta é para você.]
Este conto foi originalmente publicado em 22
de dezembro de 2000
Desculpem, meus leitores.
Não estou muito bem estes dias e talvez o texto de hoje
não tenha tanto humor. Acho que era uma necessidade de
dividir um pouco com vocês minhas frustrações.
Bobas, talvez. Mas deu vontade de escrever também. Nem
deveria ser publicado, mas...
Isto não é uma história engraçada.
Por favor, não ria.
Putz, que imitação do Will Eisner!
Não poderia perder esta chance, Wyatt. Desculpe.
Tudo bem, Josa. Bom... aqui estamos, numa legítima
mesa de um legítimo bar de histórias em quadrinhos,
tomando umas. Não sabia que bebia.
Não bebo, mas numa história imaginária,
o álcool só afeta pessoas imaginárias. Então,
vamos aproveitar.
Eu sou imaginário...
Ooops! Me esqueci. Bom... nossos leitores não devem
estar entendendo nada do que se passa.
Posso explicar. Em primeira pessoa.
Hmpft...

"Ontem, os eventos
dos últimos dias me fizeram perceber que há um bom
tempo eu e Jennifer não temos quase nenhum relacionamento.
Nosso último tempo a sós deve ter sido na edição
1. Isto me incomoda. Hoje cedo, tentei conversar com ela, mas
foi... complicado. Tinha medo do que poderia acontecer, mas tive
de falar."
"Lá estava ela, lendo alguns papéis na mesa
da cozinha. Não sei do que se trata, afinal ela estava
sem emprego há algum tempo. Sentei ao seu lado e tentei
iniciar um diálogo."
Jennifer, precisamos conversar.
Depois, Wyatt. Agora estou ocupada. A estranha sensação
de casamento falido passou rapidamente pela minha cabeça,
mas preferi ignorar esta idéia. Estávamos longe
de ser casados e já tínhamos terminado umas 10 vezes.
Uma a mais não mudaria muito.
Depois quando? Na edição comemorativa número
50?
Wyatt, agora não. Estou precisando pagar as contas...
E no próximo mês não tenho salário.
Tudo bem...
"Saí de casa decepcionado, quando a doutora Reyes
estava chegando. Ao ver minha cara, seu diagnóstico foi
certeiro."
Problemas amorosos, hein?
É...
Milagre, você e Jennifer sempre parecem tão
felizes que é impossível crer na veracidade dos
dois.
"Parecemos muito felizes. Essa era a verdade. E essa era
a mentira. Desci as escadas me lembrando do que tinha lido nas
edições anteriores. Jennifer teve tempo para bater
papo com o Demolidor, com o Homem-Molecular e com o Super-Homem."
(*)
"Para mim, faltava tempo..."
"Aliás, gostaria de saber que conversa "íntima"
era aquela que ela estava tendo com o Super-Homem. Incrível
como ele mexe com toda mulher que conheço. As meninas da
minha tribo só falam nele. Achei que Jennifer fosse imune
a esse tipo de coisa. HÁ!... Logo Jennifer. É estranho
como garotas adoram novidades."
"Foi então que me lembrei que a culpa não era
apenas de Jennifer, ou do Super. Eu me lembrei que nossa vida
tem um escritor... e ele tinha culpa do nosso relacionamento estar
se deteriorando. Resolvi então chamá-lo."
Josaaaa!
"Em alguns segundos, o rapaz alto, forte e bonito, com seus
belos cabelos castanhos tratados com todo requinte apareceu em
minha frente. Seu sorriso simpático e perfeito se abriu...
Eeeii! Porque está me fazendo pensar isso? Tá
achando que eu sou gay?"
Apenas achei que deveria passar uma boa imagem para minhas
leitoras.
É? Que leitoras?
Er... Bom... Por que me chamou?
Problemas amorosos. Eu estou com problemas por sua culpa.
Estou sofrendo por causa do que você escreve para mim. Isso
me angustia. Eu nunca consigo mais que 10 minutos com minha namorada.
Eu não gosto disso... eu só queria estar com a Jenny,
Josa... Josa?
Uh.. uh.. wya... BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!
Chuif... chuif...
"Aos meus pés, vi a cena mais rídicula da minha
vida."

"Milagrosamente,
um bar surgiu ao nosso lado enquanto ele derramava suas lágrimas.
É uma das vantagens de poder conversar com o escritor da
história. Nós entramos, fomos atendidos e voltamos
ao ponto onde esta edição começou."
E eu não chorei. Só dei um abraço
de solidariedade.
Um abraço nos meus tornozelos. E eu vi as lágrimas.
Mas você descreveu a cena como se eu tivesse chorado
como uma mocinha.
Ok. Não foi tão ridículo. Mas vamos
voltar ao assunto...
Eu... Entendo você. Quando disse novidades lá
em cima, você se referia a...
Sim.
O arroz com feijão sempre é desprezado.
"Desta vez, ele pede um copo de leite ao invés de
algo pesado. Deve ser a síndrome de Super-Homem que o abate
de vez em quando normalmente quando está melancólico.
É outro Josa, não o sacana que escreve Mulher-Hulk
e Justiça Jovem."
"Hmpft. Mas ainda faz propagandas escondidas nos nossos pensamentos."
Eu detesto leite puro.
E porque bebe? Ah, tá... Você não sente
o sabor do leite imaginário.
Isso. Mas vamos voltar pela quinta vez ao assunto que te
trouxe aqui. Problemas?
Na verdade, estou ficando muito nervoso com esta situação
que você criou.
Oxe? Situação que criei?
Você me afastou da Jennifer para poder escrever essa
história ridícula sobre suas frustrações
amorosas.
Eu? Putz! Hahahaahahahahaah!
"O maldito ri da minha cara. Deve estar adorando a reação
dos leitores a sua 'brilhante' idéia. A esta hora, as mensagens,
os e-mails devem estar chegando em sua caixa postal. Me indigno
com ele e torno meu tom de voz mais hostil."
Do que está rindo, "Sr. Morrison"?
Senhor Morrison? Acho que você deveria me chamar
de senhor Gaiman, porque deve me considerar um gênio!
Não entendi.
"Josaías termina de beber o leite e pede um milk-shake
de chocolate. Vantagens de ser o criador da história. Ele
dá uma chupadinha e volta a falar."
[Nota do Lopes: Contexto é tudo.]
O que quero dizer é: Você acha que eu preparei
tudo, desde a edição 1, para contar uma história
sobre minha desgraça? Você deve me considerar uma
espécie de Gaiman, então: o cara que ficou 5 anos
fazendo preparativos para a morte de Morpheus e ninguém
notou. Eu tenho capacidade nem de fechar todas as pontas soltas
da história! Eu sou burro, Wyatt. Fui muito burro.
"Meu autor encurva o corpo mais do que ele faz normalmente.
Talvez sua postura cabisbaixa para continuar a beber represente
a postura com que ele encara a vida atualmente. A cabeça
baixa não se move. Apenas os lábios continuam falando,
num perene tom melancólico."
Esta história é apenas uma forma de me esquecer
um pouco uma pessoa na minha vida... e ao mesmo tempo, não
esquecer. O que fiz foi perceber duas pequenas semelhanças
entre nós: uma mulher adorável e problemas. Só
isso. Resolvi decepcionar meus leitores com algo sem tanto humor
desta vez, mas que me ajuda a entender tudo que se passou há
algumas semanas.
Desse jeito, vamos acabar cancelados.
Pouco importa agora, mas sei que nossa conversa está
sendo muito agradável, apesar de tudo.
É... Espero que você melhore. A Jennifer me
contou mais ou menos o que houve.
É uma sensação terrível tudo
ter dado errado. Vocês heróis vivem aparecendo em
realidades alternativas... Pois neste momento eu me sinto em uma
delas. Como se nada tivesse dado certo...
...Como em "Ruínas"?
Sim. Não deveria ser assim. Numa suposta história
de amor eu acabei me tornando o vilão, e não o mocinho
que beija a garota no final eu fui o Luthor, o Dr. Destino,
o Gastão... Será que existe, em algum lugar, alguma
realidade certa? Por que eu acho que estou na maxi-série
"O que aconteceria se tudo desse errado?"
"O 'vilão' bebe mais um pouco e leva sua carteira
à mesa. Após mexer entre os documentos, ele tira
uma foto de um casal. O casal é formado por ele e pela
pessoa que comentou. Sorrio para mim mesmo quando observo melhor
a fotografia. É gozado como, até em recordações
como estas, ele tenta dar um pouco de humor. No retrato, ele entrega
uma flor para a garota, mas a cara que os dois fazem..."
Uau! Ela é muito bonita. Apesar do que escreve,
até que você tem bom gosto. Se bem que não
curto muito garotinhas, acho já passei da idade. Aliás,
acho que você também.
Já me disseram isso... hmpft.
Hehehehe... E porque essas caras na foto?
Para parecermos infelizes... Mas este momento foi um dos
mais felizes que tive. Você sabe como sou, sempre procurando
um jeito de pôr humor nas situações. Estou
te mostrando esta fotografia... porque eu queria que vocês
ficassem com ela.
Mas ela parece tão importante para você...
É melhor você guardar.
Esta foto... não existe mais na minha realidade.
Eu... fiz uma bobagem. Queria acreditar que ficou com pessoas
que prezo muito você e Jenny. Por favor, guarde com
você.
Se você quer assim...
Obrigado, Wyatt.
Acho que isso é tudo. Há algo mais que você
queria dizer?
Não, amigo. Fale com Jennifer agora.
Tsc. Ela deve estar em casa essa hora. Com suas contas.
Pode ter certeza que não.
"Com um gesto, Josa derruba a parede da frente do bar, e
podemos ver a cidade novamente. Um dia vou tentar ser escritor.
Esse rapazote de 21 anos faz o que quer no nosso universo! Tenho
uma certa inveja."
"O garoto aponta uma direção com o dedo e me
manda olhar. Obrigado, Josa, por isso. Eu vejo minha amada caminhar
pela rua, mais linda que nunca. É difícil acreditar
que ela exista. Meu Deus, ninguém parece ser mais bonita
que ela... Mas será que ela tem algum tempo para mim?"
Uma linda mulher, Wyatt.
Hã?
Minha amiga... Ela adorava uma música. Nós
cantávamos juntos. "Pararuraruriruru... Pararuraruriruru...
Pretty Woman, walking down the street..." Bons tempos.
Será que um dia eles voltam?
Eles podem voltar. Acredite. Mesmo que não voltem,
faça isso: guarde apenas os bons momentos. Esqueça
aquilo que saiu errado. Eu não tenho muitos conselhos para
te dar, afinal, você me escreve, mas espero que goste da
idéia.
Eu gosto. Você pode, em parte, ser algo criado por
mim, mas me ajudou bastante, Wyatt. Veja, a Mulher-Hulk está
vindo em nossa direção.
"Jennifer me abraça e se senta na terceira cadeira
de nossa mesa. Cadeira que não existia até então,
mas Josa fez questão de providenciar. Nosso escritor fica
silencioso e posso perceber uma pontinha de inveja quando me vê
agarrado em Jen."
"Acho que ele sempre preferiu o nosso mundo ao dele. Dizem
que é mais colorido e feliz... Sinceramente, eu não
sei. Mas acho que é como o Homem-Animal disse: 'Como vocês
conseguem viver num mundo sem super-heróis?' Jennifer pega
a foto que estava em minha mão e faz um de seus comentários
que, como sempre, são uma mistura de desprezo e deboche
com o Josa."
Você não está meio velho pra ela?
Calaboca, Jennifer.
Tô brincando... Parece ter sido um momento muito
feliz. Digo, apesar das caras de vocês dois.
É, pena que talvez só eu me lembre disso.
Como muitos outros momentos as músicas, aquela vez
que assistimos o horroroso Fim dos Dias dublado... Queria
entender. Por que as pessoas são assim? Por que apenas
um dos dois se lembra destes momentos bobos que mudam e marcam
para sempre nossas vidas? É tão... injusto.
Olá, senhor Gaiman.
Hein?
Gaiman já falou disso, Wyatt. Em Morte: O Grande
Momento da Vida. Lembra, Josa?
Sério, Jennifer? Foi, Josa?
Hmpft... Foi. Mas eu me identifiquei com isso e precisava
deixar minha marquinha.
Sinto muito, Josa... Tem algo que posso fazer pra te deixar
melhor?
Eu pediria para você tirar a roupa, mas em respeito
a Wyatt, vou pedir apenas que o ame. É triste se sentir
afastado das pessoas que você gosta. Não o largue.
Não dê tanta atenção para as contas.
"Jennifer nem escuta o final da frase e me beija. Depois
de trinta segundos, ela se volta para seu autor novamente."
Isto é uma ordem para mim, Josinha. Ei, ei, eiiii...
Olha só! O que é isto na sua mão direita?
Hã? Como isso apareceu no meu dedo?
Uma aliança? Parece que você não me
contou tudo, senhor Ribeiro.
Ela deve ser... Ela é imaginária. Acho que
só aparece aqui. Lembra o que passou. Acho que vou deixá-la
com vocês também.
Não. Isto fica com você. Eu te disse para
guardar os bons momentos.
Ouça o Wyatt, Josa. Fique com ela. As meninas nem
irão vê-la mesmo...
"Rimos do comentário e Josa se levanta da cadeira.
Avisa que já vai embora. Antes porém, ele nos transporta
do bar para o quarto de Jennifer. É bom ser amigo do escritor.
Noto que a casa está vazia, provavelmente ele deu um jeito
de manter a doutora Reyes longe daqui. Jennifer estranha, mas
fica calada quando ele diz:"
Aproveitem. O próximo número só sairá
no próximo ano. Espero que tenham um ano novo feliz e um
bom Natal juntos... Mesmo que no Universo Hyperfan não
esteja nevando e quase nenhum personagem tenha percebido que estamos
em dezembro. Adeus.
Hã... Josa?
O que foi, Wyatt?
Obrigado por ter nos dado esse tempo... Você não
precisava. Problemas sempre aumentam as vendas das edições.
E você se esqueceu disso para nos agradar.
Desencana, eu sou um escritor legal. E tenho fé
que o meu escritor também é. Torçam por mim.
"Então ele desaparece. E eu e Jennifer aproveitamos
o tempo a sós, sem nos lembrarmos de nada errado, sem frustrações.
Estamos juntos por um mês. Só isso importa. Espero
que nós dois sempre nos lembremos deste feriado juntos."

Enquanto isso, em
outra realidade, que poucos sabem o que é e onde está...
Senhor, está na hora da ceia.
Obrigado por me avisar, meu bom servo Gabriel. É
difícil se lembrar destas coisas quando você se diverte
escrevendo uma boa história. Vamos indo.
Senhor, o que estava escrevendo?
Uma história sobre um cara bobo, com problemas amorosos.
Mas ainda gosto muito dele. Pode ler, se quiser, depois de comermos.
Você salvou o documento?
Salvei.
Por via das dúvidas...
Curioso, o rapaz bem mais jovem que o autor se aproxima do computador
e passa os olhos sobre o trecho em que seu mestre parou de digitar.
"... então aquele rapaz, ainda em sua juventude, percebeu
que poderia escrever algo otimista, mesmo passando por alguns
dos piores momentos de sua vida. Ele sabia que provavelmente achariam
piegas ou coisa de alguém com síndrome de Super-Homem,
mas o moço ignorou o que os outros pensariam como
fazia quando comentavam a idade de sua amada.
Ah, sua amada...
Com certeza, era por isso que ele estava escrevendo. O jovem resolveu
esquecer a dor e se concentrar em momentos felizes naquele conto.
No final, a história foi dedicada àquela jovem e
ele sentia que com isto, estaria perdoando-a. E pedindo perdão.
Fim da Parte 2000."

Feliz Natal a todos
vocês. Desculpem se não gostaram da história.
Acho que ela teve vida própria: deveria ser uma história
triste, mas terminou de forma extremamente otimista (coisa de
Super-Homem). Eu diria que este conto se guiou de forma totalmente
inesperada, como são nossas vidas.
Até 2001, amigos! Nos vemos lá.
Ass.: Josa, Wyatt e Jenny.
:: Notas
do Autor
* Respectivamente edições 05,
06 e 09
Observações para leigos e neófitos:
1 Will Eisner ( deveria se envergonhar se não o
conhece) é provavelmente o maior artista da história
das HQs, criador do Spirit e do conceito das graphic novels. Eu
tenho "O Último Cavaleiro Andante" com dedicatória
dele e esse é um dos meus maiores tesouros :-)
2 Os senhores Grant Morrison e Neil Gaiman são dois
dos mais brilhantes escritores ingleses, sendo que o primeiro
escreveu uma história chamada "Deus Ex Machina",
onde explicava ao personagem Homem-Animal porque sacaneava tanto
a vida dele em suas histórias. O sr. Gaiman escreveu, entre
outras coisas, Sandman e Orquídea Negra além
de romances, como "Belas Maldições", que
os leitores preconceituosos que não gostam de quadrinhos,
mas lêem livros, podem procurar.
3 Ruínas é uma mini-série de Warren
Ellis em que tudo no universo Marvel dá errado e um repórter
chamado Phil Sheldon passa duas edições falando
"está tudo errado". Eu não gostei, mas
passei a entendê-lo melhor. :P
4 Morte: O Grande Momento da Vida (de Neil Gaiman) é
uma bela história que faz parte da mitologia de Sandman.
Para quem não sabe, Sandman é o rei dos Sonhos e
tem um família, às vezes inconveniente e às
vezes legal. Normalmente, a responsável pela parte legal
é a Morte, irmã mais velha de Sandman e uma das
personagens mais adoráveis dos quadrinhos.
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