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Demonomania - O Quarto Círculo

Por Alexandre Mandarino

Por um Punhado de Dólares

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(*******) olhou para trás e viu que seu rastro deixava sangue sobre o chão de mármore. "Sangue" é um eufemismo para o líquido furta-cor, com cheiro de hidromel, que pingava de suas costas. Poças do líquido se misturavam às penas que caíam e, pela primeira vez em milênios, (*******) sentiu que estava tonto e enjoado. Então, como quem retira a tampa de uma piscina e pula no redemoinho que se forma, ele caiu.

Como uma queda tão profunda pode ser tão rápida? (*******) estava agora de joelhos; um rastro de penas e "sangue", caídos de seu próprio corpo, havia acompanhado sua queda e agora gotejavam sobre sua cabeça. O lugar era escuro, quente, úmido e abafado.

"Bem-vindo ao Cofre", disse uma voz vinda de todos os lugares e de sua própria mente. Foi quando (*******) percebeu onde estava.

"Não. Em nome da Palavra, não aqui."

Ele havia dado apenas três passos e foi cercado por criaturas acinzentadas, com cerca de 40 centímetros de altura. De suas bocas, saía um líquido verde. Solenemente, as criaturas realizaram um círculo ao redor de (*******) e abriram as bocas ao mesmo tempo. Tinta de impressão e notas de dois dólares voaram em sua direção, em um tsunami esverdeado. Quando abriu os olhos, as criaturas haviam desaparecido. Foi quando ouviu outra voz:

— Vejo que já conheceu os falsários.

Ele se voltou e um menino de dez anos de idade, cabelos pretos como a desesperança, o encarava. Seus olhos eram verdes, fluorescentes.

— Você já sabe onde está, não? O Quarto Círculo. Esbanjadores. Avaros. Os que vivem por e pelo dinheiro. Estão todos aqui.

— E quem é você, criança?

O menino sorriu, encarando-o.

— De onde você vem, me chamam de "demônio". Prazer em conhecê-lo. Eu sou o Acionista. O Operador. Compro e vendo ações, lotes de terrenos, propriedades. É a mim que eles vêm, oferecendo suas lágrimas, corpos e sangue no escambo definitivo.

— Eles quem? — disse (*******)

— Os condenados. Para um "anjo", você não é muito esperto. Deixa eu terminar de falar. Eles querem comprar, vender, trocar. Tudo sem valor. Lotes esquecidos do nono círculo, para onde nunca poderão ir. Pedaços de calcário e rochas fumegantes. Fios de cabelo. Na falta de moeda corrente, transformam seus próprios corpos em objeto de permuta. E assim se condenam cada vez mais.

— Eles deveriam perceber que poucas coisas têm verdadeiro valor.

— Tais coisas não existem aqui, anjo. Eles jamais perceberão.

Foi quando uma terceira voz se fez ouvir:

— Nasdak! Saia daqui, já!

O menino virou-se, assustado, e desapareceu em pleno ar. Atrás de onde ele estava, surgia a figura de um velho, negro e corcunda.

— Um anjo. Nosso Mestre deve tê-lo trazido até aqui. E, se Ele não apareceu até agora, cabe a mim ser seu guia por nossos labirintos. Eu sou Fortknox. Acompanhe-me.

(*******) percebeu que o ancião recurvado tinha dentes de ouro cariados. Após caminharem por alguns metros, o velho apontou um desfiladeiro.

— Venha comigo.

Caminhou até a borda e olhou para baixo. O anjo fez o mesmo. Trinta metros abaixo de onde estavam, havia uma laje de pedra, que antevia a queda para a escuridão sem fim. Debaixo dela, soprava um vento bem forte. Sobre a laje, uma multidão se empurrava.

— Aqueles são os "bondosos" — disse Fortknox. — Homens e mulheres que passaram suas vidas gastando boa parte de sua fortuna com obras de caridade, orfanatos, asilos.

— Mas... por que estão aqui?

— Não seja tolo, anjo. Veja, agora vem a melhor parte. Eles tiram notas de cem dólares de suas testas e arremessam ao vento.

— Para quê?

— Para nada. Aqueles mais magros, repare nas mãos deles. Eles dobram as notas antes de arremessá-las, como um origami.

— Por quê?

— São os mecenas.

Um urro horrível chamou a atenção de (*******). Ele se voltou e viu vultos ao longe, na escuridão. Fortknox disse:

— Vá até lá. Nem quero me aproximar. O esperarei mais à frente, perto daquela estalagmite.

O anjo caminhou, cauteloso. Ao chegar perto, forçou os olhos para enxergar no breu. Finalmente conseguiu discernir. E não pôde evitar que sua boca se abrisse:

Pela Palavra!

Quem? Quem diz isso aqui embaixo? — gritou uma figura enorme e esverdeada. — Ah, é um anjo. De passagem ou veio para ficar? Eh, eh.

A enorme figura carregava em uma das mãos moedas de zinco, com cerca de dez centímetros de diâmetro. À sua frente, com máscaras de plástico de porquinhos, uma multidão sem fim estava nua, de quatro.

— Sou um demônio precavido, entende, anjo? Faço minhas economias. Por isso, preciso dos homens-cofrinhos.

Ele se adiantou do condenado mais próximo e enfiou uma das enormes moedas em seu ânus. Enquanto fazia isso, gritava:

Diga seu nome! Diga! É a única chance que terá de falar perto de um anjo! Vamos!

O homem, que chorava um líquido prateado como mercúrio, balbuciou:

— Jo-José da Silva.

— Os outros! Os outros!

— Miguel Fuentes... John Voorhes...

— Em todas as suas encarnações, ele foi avaro. Como Miguel, o mão-de-vaca recusou pagar pela cirurgia de seu enteado, que morreu em agonia. Como José, negou ceder parte de sua fortuna para livrar o irmão do desespero. O mesmo irmão que se matou ao não conseguir emprego por cinco anos. O que ele fez como John só mesmo o Mestre pode lhe dizer. Isso é o que são, anjo. Uma colheita de pãos-duros. Meu banco particular. Meus lindos homens-cofrinhos.

Atordoado, o anjo se afastou, enquanto a criatura verde empurrava mais moedas para dentro do condenado. Enquanto caminhava, o anjo percebeu que alguns dos infelizes tilintavam quando se mexiam. Seu pavor foi interrompido por Fortknox:

— Chega disso. Vamos até o mezzanino.

Subiram por uma enorme escada em espiral, que parecia não ter fim. Quando finalmente chegaram ao topo, (*******) escutou barulhos de pedras se chocando. Dois grupos de homens tomavam distância, cada um deles carregando uma enorme rocha prateada pendurada no pescoço. Depois, em frenética e patética carreira, se chocavam — as pedras soltando faíscas e sangue quando colidiam com outras pedras e corpos.

— E agora, que insanidade é essa?

— Heh, vejo que está interessado, anjo. O que lhe lembra isso?

— ...

— São os apostadores. Os que gastavam todo o seu salário nas roletas, nas máquinas de videopôquer, nas mesas de carteado. Agora, eles apostam em quem vão acertar com suas pedras. Se errarem ou acertarem, deverão voltar atrás e tentar de novo.

— Mas então eles nunca ganham!

— Deveriam ter aprendido isso em vida.

— Não consigo encontrá-la! Onde está? Onde está?

O grito veio abafado. (*******) olhou para o lado oposto do gigantesco mezanino, onde era levemente mais iluminado.

— Ah, agora, isso sim é pura diversão. Vamos até lá, você precisa ver pra acreditar. — disse Fortknox.

Quando a dupla se aproximou, os gritos recomeçaram:

Achei! Achei! Não! Não pode ser! É de 1767! Não é o ano certo! Mas como?

Inúmeros homens, vestindo macacões de velcro, escarafunchavam uma montanha sem-fim de moedas. Todos os tamanhos, épocas, cores e valores.

— São os numismatas. Colecionadores. Homens que passaram suas vidas em busca de um exemplar cobiçado e raro. Amantes da arte da cunhagem.

— Mas... mas isso não diz respeito direto ao valor! — protestou o anjo.

— E daí? Ficarão aqui pela eternidade, procurando nesta e em outra pilhas por uma moeda que não existe. A moeda com a efígie de Shumma Gorath.

O anjo estremeceu ao ouvir em voz alta o nome do governante do Quarto Círculo. Um dos seres infernais mais obscuros, pouco conhecido até mesmo pela Palavra. Nas torres de mármore, dizia-se que ele era um dos demônios mais antigos e que não estivera sempre ligado ao Inferno. E pior: tinha escolhido governar um círculo, enquanto quase todos os demais governantes também eram condenados, ainda que com status diferenciados. Shumma Gorath, não. Ele fazia aquilo porque assim o desejara.

Fortknox continuou:

— Shumma Gorath é grande demais para que Sua forma caiba em uma moeda! Ele vem de fora deste Círculo, dizem que até mesmo de fora deste plano. Ele é antiqüíssimo e imortal. Muitas vezes, os demônios rimadores do Quarto Círculo, com suas bocas feitas de níquel, são vistos balbuciando versos ironicamente baratos sobre Shumma Gorath. Versos que muitas vezes incluem nomes já esquecidos até mesmo por nós. Nomes como Cthulu e Tsathoggua. Mais não posso lhe contar.

Mal acabou de dizer esta frase, a corcunda de Fortknox explodiu e dela transbordou uma quantidade enorme de moedas de ouro. Os numismatas correram em direção às moedas, ansiosos. Mas suas mãos não conseguiam apará-las; elas eram intangíveis. Foi quando (*******) ouviu uma gargalhada. Ela vinha de uma criatura que havia parado ao seu lado. Uma mulher, com o dobro de sua altura, pele púrpura e dentes de platina que ardiam como chamas brancas.

— Olá, anjo. Como Fortknox está caído aí no chão e deve demorar horas para recompor sua corcunda, acho que terei de ser sua guia daqui pra frente. É o preço que ele paga por deixar segredos escaparem: ele é arrombado. Eu sou HellStreet. Vamos. Está na hora de encontrar o Mestre.

Imediatamente, os dois desapareceram e (*******) se viu em uma câmara enorme, tão extensa que o anjo não podia divisar suas paredes. Ao seu lado, HellStreet falou para uma tríade de demônios rimadores:

— Drakma! $$$! Peso! Onde está o Mestre?

Foi o gordo e dourado Peso que respondeu, com seus lábios de níquel:

"Com asas cortadas e sangrando mel

O alado caiu sem ter o que gastar

Pois basta de turismos inanes ao léu

Shumma Gorath está para chegar"

Uma explosão ensurdecedora e dois terços da câmara foram preenchidos por uma massa amorfa, levemente arredondada. Um círculo desenhado por um bêbado; uma bola de material indistinguível, que em seu "centro" ostentava, em meio a diversos tentáculos asquerosos, um enorme olho. O anjo sobressaltou-se e, mais uma vez, conheceu uma emoção que jamais experimentara em seus milênios de existência: o terror.

"Anjo. Anjo".

"Você. Nome indizível".

Era a "voz" de Shumma Gorath, ressoando na cabeça de (*******).

"Fácil extrair suas asas. Cirurgia. Eh".

Incapaz de se mover, (*******) sentiu seu corpo ser agarrado por três dos tentáculos que saíam do corpo de Shumma Gorath. Quando atingiu uma certa altura, notou um corpo humanóide, nu e gordo, que estava de quatro ao lado de Shumma Gorath. O gordo lambia a pútrida matéria sem nome que fazia as vezes de carne do líder do Quarto Círculo. Vendo para que direção o anjo olhava, foi HellStreet quem falou:

— Aquele é George Soros. Tecnicamente, ele ainda está vivo, mas os rimadores artesãos criaram um construto dele, feito de prata e bosta, para que pudéssemos treiná-lo à distância para o que o espera. Ele é bom, sabe? Muitos homens arruinaram, em sua ganância, a vida de seus filhos, mulheres, namorados, pais. Até de cidades inteiras. Mas quantos podem dizer que sua avareza provocou a derrocada de países inteiros? Soros pode. Ele gerou a falência dos locais que os humanos chamam de Indonésia e Tailândia. Despertou neles a miséria, a prostituição infantil, o roubo e a fome. Com tempo, depois que "morrer" e finalmente chegar por inteiro aqui, talvez possa até deixar de ser um condenado e virar um demônio. Ele tem o dom.

HellStreet foi completada por Shumma Gorath, cuja voz se arrastou, pantanosa, na mente do anjo:

"Corpo imenso. Antigo. Alguém deve lamber caracas. Carnegões. Partes podres. Ele bom nisso."

Sentindo sua voz falhar, o anjo disse, ainda pendurado pelos tentáculos, a frase saindo como um sussurro:

— Por que estou aqui?

"Antes. Ainda não. Shumma Gorath é o nome. Poucos sabem. Antes disso, fui outras coisas. Moloch. Moloch. Veja isto".

De seu corpo, brotou uma enorme nota de dez dólares, pegajosa. Enquanto ela flutuava no ar espesso diante do anjo, a criatura "disse":

"Ao contrário do que acham. Existe. Minha efígie. Aqui está ela. Minha moeda. O olho sobre a pirâmide. Meu olho. Shumma Gorath. Moloch. In God We Trust. Vê? Nunca perguntaram que deus. Agora você sabe. Gorath. Moloch. In Shumma We Trust".

HellStreet e os três demônios rimadores começaram a uivar e gritar. A carcaça gorda do construto Soros gargalhou, emitindo sons que pareciam os guinchos de um porco.

— Mas... por que estou aqui? — repetiu o anjo, como uma vela que se apaga.

"Sua religião. Milagres dizem respeito a multiplicações. Peixes. Vinho. Tudo multiplica. Religião da quantidade. Dos gastos. Ornamentos de ouro. Batinas decoradas. Você. Aqui. Arranquei suas asas e vou arrancar sua cabeça. Isso".

Por quê?? — e agora o anjo finalmente conhecia a ira, sua última nova amiga.

"Motivo mais antigo. Eu. Eu fiz uma aposta".

Os tentáculos se moveram para lados opostos, separando cabeça e corpo de (*******). A câmara ganhou uma cachoeira de hidromel. Todos desapareceram. Exceto Soros que, ao se ver sem a carne de Shumma Gorath para lamber, se arrastou até a gigantesca nota de dólar, que flutuava no centro da câmara quase vazia. Levantando as patas da frente, o construto do condenado começou a mastigar uma das pontas da cédula, comendo-a. Sua mastigação fazia um barulho inconfundível:

"Moloch."

"Moloch".



 
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