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Demolidor # 03

Por Alexandre Mandarino

Toda Morte é Negra

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Matt Murdock vestiu o terno Armani sobre o tradicional uniforme vermelho-escuro. Decidido, pegou um táxi até a Corte Criminal de Justiça. Chegou no prédio às nove da manhã e foi direto para sala de Maxine Lavender, assistente da promotoria.

— Maxine, preciso falar com você!

— Bata antes de entrar, Murdock! Onde você acha que está? — assustou-se Lavender.

— Desculpe, Maxine, mas é um assunto urgente.

— Todos acham que têm urgência...

— Maxine, é sério. Você viu na televisão os dois crimes ocorridos ontem, não?

— Claro. Um deles, um garoto... Isso está ficando terrível.

— Sim. Mas estou aqui para falar dos crimes. Vim soltar meu cliente, Melvin Potter.

O quê? Murdock, Potter foi o Gladiador durante anos e, além do mais, ele pode muito bem ter...

— Não, não pode. Os crimes dessa madrugada foram claramente cometidos pelo mesmo responsável pelas tragédias anteriores. Exatamente o mesmo M.O., Maxine. Você não pode negar. Isso abre aquele nosso precedente velho conhecido de inocência por incapacidade de ação.

— Diabos, Murdock... Certo, fale com a Taylor, secretária da promotoria. Peça para ela agilizar estes papéis para você.

Meia hora depois, um apressado Murdock saía com um abatido ex-criminoso da cadeia.

— Muito obrigado por tudo, seu Murdock. Sabe, não é a primeira vez que o senhor livra a minha cara e me ajuda. Eu nunca vou esquecer isso.

— Não tem importância, Melvin. Eu sei que você é inocente.

— Já fiz muita coisa horrível, seu Murdock. Mas eu não mato mais. E nunca iria matar um menino. O que eu quero dizer é... obrigado. É bom saber que pelo menos uma pessoa no mundo acredita que um criminoso possa realmente se arrepender.

A respiração de Potter estava irregular. Ele tentava prender o choro de emoção e manter a pose.

— Mas ainda não entendi uma coisa, Melvin. Por que você destruiu sua própria loja?

— Isso é o mais estranho. Eu não lembro. Foi como se tudo tivesse ficado negro de repente.

— Bem, examinaram o sangue em suas antigas lâminas de Gladiador e descobriram que se tratava de sangue de cabra. Você não virou praticante de vodu, certo?

— Claro que não. Eu nem mexia naquelas lâminas há anos. Só as guardava comigo justamente para impedir que alguém as usasse para me incriminar.

Enquanto caminhava pela calçada, a dupla continuou a conversa. Os passantes observavam curiosos o homem cego de bengala e Armani ao lado daquela montanha de músculos de calça jeans e camiseta.

— Não se preocupe, Melvin. Você está inocentado dos crimes. E logo descobriremos o motivo de seu acesso de loucura. "Ou melhor, um certo demônio descobrirá", pensou o advogado.

Uma hora depois, uma figura escarlate se balançava pelos arranha-céus da cidade. O demônio chegou irritado ao edifício de Wilson Fisk.

— Rei! — disse o Demolidor, ao invadir o escritório no último andar de um imponente prédio. Dois capangas do Rei do Crime levantaram suas armas. O imenso gangster, com um gesto da mão esquerda, mandou a dupla sair da sala. A sós com o demônio, o Rei disse:

— Estava sumido, Murdock. O que você quer?

— O serial killer.

— Ah, claro. Como não imaginei? "Da Red Evil". E por que você acha que tenho algo a ver com isso?

— Sei que não tem nada a ver com isso. Muito sujo, não faz seu estilo. Quero informações.

O Rei se levantou de sua mesa e caminhou até a persiana. Dando as costas a Murdock, passou a observar a cidade que, em grande parte, possuía.

— E porque eu as daria a você?

— Primeiro: o assassino está matando gigolôs, traficantes, bandidos de rua. A escória que alimenta você. Segundo: você não é mais o maioral, Rei. Chefes de quadrilha como Cabeça-de-Martelo, Cara-de-Pedra, Lápide e Sanguessuga minaram seu poderio na costa leste. Como a Máfia e a Maggia não deixam que você reaja, temendo um banho de sangue desnecessário, basta que alguém sacuda com vontade o seu império para que ele desmorone de vez. Eu posso decidir sacudir com vontade.

Wilson Fisk deu uma longa tragada em seu charuto. Olhou para a fumaça, que se misturava às folhas da persiana e finalmente disse:

— Asilo Arkham.

— Como?

— Se eu fugisse de lá, me sentiria em casa em Nova York.

"Quinta avenida, Luxor Flat. É aqui", pensou Franklin Foggy Nelson.

O advogado se apresentou e subiu até o 29º andar do estapafúrdio edifício. A decoração assírio-babilônica o deixou com vontade de rir. A porta do apartamento 2901 interrompeu seus pensamentos. Tocou a campainha. Uma mulher alta, belíssima, de longos cabelos negros e olhos castanhos, atendeu a porta.

— Você deve ser Franklin Nelson.

— Sim, sou eu. Você é... Fiona Lions?

— Claro. Sabe que eu não tenho obrigação de falar com você, senhor Nelson. Legalmente, não preciso dar satisfações à defesa de um estuprador.

— Sim, eu sei.

— Mas não sabe por que concordei em fazer isso, senhor Nelson.

— Vamos ficar aqui na porta?

— Certamente. Você não é bem-vindo em minha casa. E vou ser breve em relação ao que tenho a lhe dizer.

— Diga, então.

— É mentira.

— Hã?

— É mentira. Ele não me estuprou. O idiota não se lembra, mas sequer fizemos amor. Ele apenas acordou em minha cama.

— Você... está admitindo que foi uma armação?

— Sim. Mas você não poderá fazer nada sem provas. E tampouco saberá os motivos. Passe bem, senhor Nelson.

A porta bateu, posicionando o número 2901 a poucos centímetros de seus olhos. Estranhamente, a decoração assíria passou a fazer todo o sentido.

— Alô? Asilo Arkham?

— Sim?

— Meu nome é Matt Murdock. Sou um advogado de Nova York e...

— Sim, já ouvi falar do senhor.

— Quem está falando?

— Jeremiah Arkham. O número para o qual ligou é o direto do meu estúdio. O que deseja, sr. Murdock?

— Tenho razões bastante fortes para acreditar que um de seus ex-internos esteja agindo em Nova York. Vocês sofreram alguma fuga recentemente?

— Fuga? Poderia ser mais específico, sr. Murdock?

— Bem...

— Nos dê o M.O. da pessoa que está despertando suas suspeitas.

— Basicamente, é um estripador.

— Vítimas?

— Inicialmente, somente bandidos de quinta categoria.

— Mortos ou desaparecidos?

— Mortos.

— Bem, isto elimina o Carcereiro.

— O que disse?

— Nada, sr. Murdock. Continue.

— Bom, as vítimas logo saíram desse padrão. Ele passou a matar pessoas de outros tipos, inclusive uma criança.

— Loira?

— ...

— A criança era loira, sr. Murdock?

— Sim. Isso tem importância?

— Depende. Havia inscrições com sangue na cena dos crimes?

— Sim...

— Isso tem importância. Murdock, você e Nova York têm um problema.

Ben Urich olhou-se no espelho do boteco. O bigode falso estava mais grisalho que seus cabelos naturais, mas teria de servir. Seu contato já deveria estar chegando. Saindo do banheiro (o fim do fedor foi um alívio), Urich encontrou o homem que se intitulava o Coletor, sentado em uma mesa perto da porta. Magro, alto, ex-policial, chamava-se na verdade Trevor McDuffie.

— E então, senhor Maddock? Pronto para conhecer a luz?

Quinze minutos depois, os dois chegavam em uma igreja abandonada, na região mais insalubre da Cozinha do Inferno. Começava a anoitecer. O repórter vestiu um manto que lhe foi dado por um estranho ancião desdentado e posicionou-se na nave da igreja, em meio a um grupo de fiéis.

"Umas quinhentas pessoas... putz, nada pode dar errado aqui", pensou.

Logo o altar foi tomado por uma grande figura. Red Papa.

— Boa noite vermelha, irmãos de sangue — sussurrou o homem, com uma voz que estranhamente chamava a atenção de Urich.

— Nossa ação ontem à noite foi um sucesso completo. Mas não podemos nos restringir a depredar essa imundície que chamam de bairro. Não! Temos que estender nossas garras e abraçar o mundo! Amanhã à noite, daremos o próximo passo em nossa cruzada por igualdade: vamos destruir completamente a Cozinha do Inferno e fazer de seus destroços a nossa base, uma terra de ninguém!

"Terra de ninguém... que idéia mais estúpida", pensou Urich.

— Daqui, do nosso ninho rubro, vamos matar, envergonhar e empobrecer os que merecem. Chega de piedade com quem nos espolia e humilha! Os únicos merecedores de nosso perdão somos nós mesmos!

"Este som... algo grave e quase imperceptível. Ele está usando freqüências subliminares", descobriu o repórter. "Ninguém percebe simplesmente porque não quer perceber. Querem integrar esta loucura".

Red Papa continuou seu sacerdócio:

— Em nome de Bakunin, Stalin e Strucker, havemos de tomar o que é nosso! Nossos dias de pobreza acabaram!

A platéia estava em delírio. À medida em que as palavras se tornavam mais caóticas e contraditórias, mais a turba se empolgava.

— Não ofereceremos perdão! Os ricos, as autoridades, os policiais, os judeus, todos haverão de pagar pelo nosso sofrimento! Irão para o inferno por maltratar cachorros! Beberão do sangue de suas próprias crias! Amanhã é o dia sagrado, onde o diabo finalmente virá preparar carne assada em sua Cozinha!

A multidão uivava.

— Mas antes, preciso atender à imprensa! Senhor Urich, queira retirar seu manto, por favor!

Urich gelou. Nem precisou pensar no que faria: seu corpo não iria atendê-lo de qualquer forma.

— Não quer? Pois bem, senhores. Ali, o terceiro homem na quinta fileira. Peguem-no!

Urich foi levado até o altar.

— Estupidez... Não sou um cretino, senhor Urich. O que o fez pensar que eu não investigaria um pretenso novo adepto? Uma pena: você não terá o privilégio de presenciar nossa ascensão às alturas vermelhas! Levem-no para o estábulo!

O "estábulo" era o porão da igreja, já umedecido pelo tempo e pelo líquen. Estava tudo perdido. Sobrevivera a tanta coisa — fora esfaqueado por uma ninja enlouquecida, jogado de alimento para um imenso jacaré nos esgotos de Nova York — para acabar aqui, no porão de uma igreja perdida no meio do gueto. Subitamente, algo brilhou na escuridão. A luz vinha do chão. Urich se abaixou e, tateando, encontrou algo de metal. Felizmente, sempre levava fósforos com ele. Acendeu um palito e viu o que era: um medalhão de jade, com a forma de uma caveira enrolada por serpentes.

Hidra.

Matt folheava as páginas de fax enviadas por Arkham. Era preciso passar as pontas dos dedos sobre a tinta bem levemente; faxes desbotam com facilidade.

George Washington Smith. Era esse o nome do serial killer. Fugira há dois meses do Arkham e, como não agira por Gotham até então, o próprio Jeremiah deduziu que estava em outra cidade. Estava preso no Asilo há muitos anos e havia matado em Gotham durante apenas um mês: foi logo capturado por um justiceiro local. Mesmo Modus Operandi. A única diferença é que, em Gotham, as inscrições em sangue incluíam a expressão "Dat Man" (*).

Matt trancou por dentro a porta de sua sala e despiu o terno, preparando-se para voltar para casa. Saindo pela janela do escritório de advocacia Nelson & Murdock, o demônio estava perturbado. Mortes em série eram demais. Mas uma criança estripada era algo que ele não podia conceber. Isso iria terminar hoje. Mais de uma hora e meia perambulando por guetos, armazéns e bares imundos e nada. Nem uma pista. Restava uma chance: o apartamento de Melvin Potter, no andar superior de sua alfaiataria. Era para lá que ele iria.

A um quarteirão da alfaiataria, Murdock captou com seu sentido de radar um vulto musculoso saltando o muro externo de um edifício comercial. "Pode ser o assassino", pensou. Balançando-se até o homem, Murdock arremessou seu bastão, que ricocheteou na parede, a um metro da cabeça do suspeito, e voltou para suas mãos.

— Quem é você? O que estava fazendo naquele prédio?

— Quê? Quem você pensa que é, demônio? Nem você pode medir forças com um mestre armeiro.

A figura de negro arremessou uma adaga sai, que teve seu vôo interrompido em pleno ar pelo bastão do Demolidor.

— Seja você quem for, hoje não é um bom dia para tentar me atingir logo com uma sai.

A adaga foi arremessada de volta, prendendo o misterioso ser pelas roupas na parede.

— Vejo que é um exímio atirador, demônio. Mas duvido que seja páreo para Zaran.

"Zaran?", pensou Matt. "Se não me engano, é um mestre no uso de várias armas".

Zaran libertou-se da sai e arremessou, com as duas mãos, nada menos que dezoito shurikens. Matt conseguiu desviar-se de quase todas, mas uma delas rasgou sua máscara, passando de raspão pelo lado direito de sua fronte.

Zaran começou a correr, tentando fugir, mas antes se abaixou para pegar um envelope caído no chão. O movimento retardou-o o suficiente para que o Demolidor prendesse suas pernas com o cabo de aço da segunda metade de seu bastão.

— Maldito demônio! Por que está se metendo nisso?

— Você obviamente roubou esses papéis, Zaran.

— Sim, e daí?

Com essas palavras, Zaran jogou um pó sobre Matt, que sentiu-se tonto.

— Aproveite bem a viagem do pó de Mimosa, demônio.

Matt imediatamente prendeu a respiração, mas já havia inalado uma pequena quantidade da substância. Afastou-se em busca de ar. Minutos depois, quando finalmente se recobrou, Zaran já tinha escapado do cabo de aço de seu bastão e fugido, levando o envelope. Mas seu sentido de radar mostrou-lhe que um papel havia caído no chão. Matt recolheu-o e passou os dedos sobre a tinta. Era uma espécie de recibo, onde se lia o nome da empresa: Recuperações e Arranjos, Ltda.

Depois de colocar o papel no bolso do uniforme, Matt esperou mais alguns minutos para recuperar-se completamente dos efeitos da Mimosa e pensou sobre a estranha aparição de Zaran. Roubo de documentos não fazia o estilo de um mestre armeiro e caçador.

Minutos depois, Matt finalmente entrava no apartamento de Potter, que dormia pesadamente em seu quarto. Com cuidado para não acordá-lo, o Demolidor investigou todos os cômodos. Nada. Faltavam apenas a cozinha e o quarto. Subitamente, no chão da cozinha, seu radar notou um estranho saquinho de papel. Antes mesmo de pegá-lo, seu olfato hiperdesenvolvido já havia lhe informado o que o pequeno pacote havia abrigado.

"Pó dos Anjos. Então Potter foi mesmo drogado por alguém. Faz sentido: uma dose grande de Pó dos Anjos é capaz de aumentar a força de uma pessoa e fazê-la agir violentamente durante uma boa meia hora. Isso explica porque Potter destruiu sua loja. Alguém deve ter misturado a droga no pote de açúcar ou algo assim. Isso me poupará tempo. Apenas três bocas de fumo em Nova York ainda vendem esse treco".

No dia seguinte, ao acordar, Melvin encontrou em sua mesinha de cabeceira um bilhete com as palavras: "Troque agora mesmo todo o açúcar, café e leite em pó que você tem guardado. DD".

Uma pequena vila ao norte do Iraque

Em uma modesta casa, dois homens de manto vermelho discutem em árabe.

— Como assim, "explodiu"?

— Você não viu na televisão? Dez quarteirões de Badgá foram pelos ares.

— Baixas?

— Acabei de lhe dizer, Youssef! Nada menos que vinte irmãos estão mortos.

— Você acha que quem armou a explosão sabia da localização de nossa seita naquela área?

— É possível. Informantes nossos disseram ter visto meta-humanos americanos e, talvez, o Mercenário agindo no local.

— O Mercenário? — disse Youssef, perturbado. — Acho que isso exige uma mudança de planos. Vamos ter de agir mais rapidamente do que esperávamos.

— E Nova York?

— É disso mesmo que estou falando, irmão. Em breve, a capital do demônio será dos hashashins. Mas agora vamos voltar ao paraíso — disse Youssef, tomando de um narguilê cheio de haxixe.

— Porra, Demolidor, já disse que eu não sei de nada! Agora deixa eu voltar pro chão! — berrou o marginal conhecido como Tex.

— Sabe, Tex, se eu fosse você abria o bico.

— Tá achando que eu sou quem, demônio? O Tucão, pra ter medo de você desse jeitooooooooooooooo...

Tex foi solto de uma altura de 10 andares, mas sua queda foi aparada pelo Demolidor a dois metros do chão.

— Putaquepariututácompletamentemalucoseudemôniodesgraçado!

— Fala, Tex.

— A boca do Jacaré! É ele que tá comandando a parada de Pó dos Anjos em Nova York!

Em dez minutos, Matt estava invadindo a boca-de-fumo chefiada por Jacaré, na zona leste de Nova York.

— Saco, Demolidor. Tu quer o quê agora? — disse o traficante — Nem precisa atacar o cara, pessoal. Vai poupar a vocês a grana do hospital. Quer saber o quê?

— Pó dos Anjos. Algum cliente novo ou estranho nos últimos dias?

— Essa é fácil. Pouca gente na cidade ainda quer tomar essa merda. Apareceu um cara, sim. Ruivo, grandão e todo musculoso. Tem uns dez dias. Sujeito esquisito, não parava de falar em Abraham Lincoln e em como os comunistas eram vermelhos porque eram... Eram o quê, mesmo, Cabecinha?

— Asmodeus.

— Isso. Ele comprou com a gente duas vezes. A primeira, aqui. Depois, o Troglô foi entregar um pacote na casa do cara.

— Onde?

Bowery — 1h03

Matt desceu pela escada de incêndio de um edifício condenado pela Prefeitura. Parou em frente ao terceiro andar, como indicado pelos traficantes. Nada. Nenhum batimento cardíaco. O apartamento estava vazio.

As feridas em seus braços e pernas, causadas pelos seis meses que passou pendurado no disco de metal, finalmente começavam a cicatrizar. Seu pai havia ido à cidade, comprar arroz e farinha. George finalmente caminhava com mais liberdade pela fazenda, mas sabia que isso duraria somente mais algumas horas. Logo, o velho estaria de volta e sua liberdade estaria tão vazia quanto o velho casarão.

Matt abriu a janela silenciosamente e entrou no apartamento. O cheiro de incenso logo invadiu suas narinas. No chão, encontrou caixas vazias de palitos de incenso. Passou os dedos sobre uma delas: "Aroma de Benjoim. Aumenta a espiritualidade; exorcismo".

Era a chance de, pela primeira vez, desde os dois anos de idade, entrar no quarto de seu pai. Não, muito arriscado. E se ele voltasse e o visse lá dentro? Com a calma de quem não tem mais nada a perder, George levou a mão até a maçaneta. Abriu a porta silenciosamente e entrou no cômodo. No escuro, tudo o que sentiu foi um hediondo cheiro de morte, o mesmo que sentia quando passeava pelo cemitério, ao lado do sítio dos Johnson. Logo, seus olhos começaram a se acostumar com a escuridão. Procurou acender a luz, mas ela não funcionava. Com o tempo, as sombras deram lugar a formas mais familiares. A cama, o espelho, o armário, o... Não, não era possível. Não podia ser.

Sobre uma escrivaninha, Matt visualizou com seu sentido de radar um estranho altar. Um crânio que parecia ser o de uma cabra; velas da cor negra, apagadas e quase completamente derretidas; pôsteres de Abraham Lincoln, George Washington, Tio Sam e Sylvester Stallone, afixados na parede ao lado de uma enorme imagem de um demônio de três chifres.

"Mãe?"

"Asmodeus?"

George caminhou até a parede. Era verdade. Era sua mãe. Quer dizer, o esqueleto de sua mãe, pendurado de cabeça para a baixo na parede oposta à janela. Sim, era ela. As mesmas roupas. Lágrimas que pareciam ser de sangue começaram a jorrar dos olhos de George. Naquele momento, o último brilho de sanidade presente nos olhos de George Washington Smith enclausurou-se para sempre nas trevas do quarto de seu pai.

Subitamente, ouviu passos.

"Só pode ser Asmodeus, pelo que o traficante falou", pensou Demolidor. "Que estranho raciocínio juntaria patriotismo e demonismo em um só altar? Seria bom o Capitão América ver isso", pensou Matt, com um riso nervoso.

Subitamente, ouviu passos.

— Seu demônio desgraçado! Quem mandou você entrar aqui? Agora você vai ver o que acontece com quem desafia os sete círculos, seu comunistazinho de merda! Seu mal vermelho!

O velho brandia um ancinho e avançou na direção de George. O fedor de sangue parecia ter aumentado e vinha de seu pai.

— Seu demônio desgraçado! Quem mandou você entrar aqui? Da Red Evil! Da Red Evil!

Carregando um enorme tridente, o musculoso assassino de roupa vermelha avançou na direção de Matt. O odor de Benjoim estava mais forte do que nunca.

:: Notas do Autor

* Corruptela da express„o em inglÍs "that man" (aquele homem) e ůbvio trocadilho com o nome do defensor de Gotham, Batman.



 
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