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The Clash # 02

Por Alexandre Mandarino

Areias de Sangue

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Porta-aviões aéreo da SHIELD, 8h. Sobrevoando região não-divulgada.

— Chega! Eu disse chega! Quando nós embarcamos para o Iraque?
— berrou Guy Gardner, enquanto batia a porta da sala de treinamento.

— É melhor você ficar calminho, Gardner. — respondeu James Woo — Não esqueça que eu estou no comando aqui. Se eu fosse você, me comportaria.

— Ah, é? E por quê eu faria isso?

— Porque nós somos a SHIELD. Porque foi assim que o Capitão América sempre agiu. Porque eu quero.

Ao ouvir o nome de seu ídolo maior, Guy imediatamente assumiu uma postura mais séria.

— Você está certo, Woo. Conte comigo como agente e não se arrependerá.

Bufando, o ex-agente da CIA abriu a porta que levava da ante-sala do departamento de treinamento para a cantina das novas dependências do CLASH. Gaffer já estava de pé e bebericava um pouco de café quente e bem preto.

— Nervoso, Woo?

— Nem me fale, Levine. Guy Gardner é um pé no saco. Tenho a impressão de que estou trabalhando em um jardim de infância.

— Bom, Jimmy, foi você quem escolheu esses caras.

— E continuo achando que podem funcionar muito bem como grupo. Não vejo a hora de entrarmos em ação, para que Gabe e Fury possam ver que não errei em recrutar estas pessoas para a primeira versão do CLASH.

— Bem, isso acontece amanhã. Em menos de 24 horas, você e seu bando estarão sobrevoando Bagdá, em busca da base secreta da Hidra.

— Gaffer, você é cientista e está na SHIELD há anos. Alguma idéia do que pode ser esta arma secreta que eles estão pesquisando?

— Infelizmente, não. Os líderes da Hidra são loucos. Sempre foram. Desde o Barão Strucker até a Madame Hidra, todos os que assumiram o nome de Supremo Hidra tinham vários parafusos fora do lugar. Difícil tentar aplicar à lógica às suas ações.

— Isso ao menos mostra que estou certo.

— Hã? Em relação a quê?

— Guy Gardner.

— Mais rápido, Falcão!

O grito de Hank McCoy veio em boa hora. As asas controladas ciberneticamente por Sam Wilson bateram mais rapidamente e o ex-parceiro do Capitão América ziguezagueou com perfeição por entre os feixes de laser. O próprio Fera saltava alucinadamente pela sala de treinamento, escapando por pouco dos raios que partiam em sua direção. No outro canto da sala, Ralph Dibny, o Homem-Elástico, distorcia seu corpo maleável freneticamente, em uma tentativa bem-sucedida de fugir dos disparos. Desesperados, Katana e Paladino se posicionavam atrás dos outros e se perguntavam até quando suas habilidades atléticas e marciais os permitiriam escapar dos raios, que se tornavam sucessivamente mais rápidos e perigosos. Em um canto da sala, sentado, Guy Gardner calmamente se protegia dentro de uma bola de energia amarela emitida por seu anel.

— Gardner, seu escroto, faça alguma coisa! — gritou Paladino.

— Ué, o CLASH não é tão bom? Se me deixarem ser seu líder, eu ajudo vocês.

— Vá para o inferno, Gardner!

— Pode ser, mas não com vocês.

Os lasers se agitavam e estreitavam cada vez mais, tornando a sobrevivência na sala de treino virtualmente impossível. Foi quando Fera gritou:

— Os feixes estão vindo de um canhão embutido na parede. Pelos meus cálculos, seu motor está logo atrás daquela ranhura maior, no canto esquerdo. Ataquem ali!

Falcão arremessou seu arpéu automático, que penetrou alguns centímetros na parede. Ele puxou com toda sua força, mas a liga de aço e adamantium era forte demais. Em segundos, um dos raios cortou o cabo de aço que ligava o arpéu à sua luva. Dibny tentou esticar seu braço esquerdo e puxar o arpéu, que ainda estava preso à parede, mas aquela região era uma verdadeira teia de lasers. Paladino sacou sua pistola laser e desferiu vários tiros na região indicada pelo Fera. Nada aconteceu. Os segundos se passavam. Gardner permanecia sentado em seu canto, protegido pela esfera amarela. Foi quando, surpreendendo a todos, a pequena Katana deu um salto espetacular e, em pleno ar, em meio a um emaranhado de feixes de laser, lançou mais de dez shurikens. Todos acertaram o alvo, mas a parede era espessa demais. A ex-membro dos Renegados continuou avançando e desviava os lasers com a lâmina de sua espada samurai. Boquiabertos, Fera e Elástico só conseguiam observá-la. Quando estava a meio metro da parede, desfechou um golpe com sua katana, mas mal conseguiu arranhar a caixa que continha o motor principal do feixe de lasers.

— Saco. — disse Gardner, que se levantou pela primeira vez desde o início do treino e, envolto por um campo de força amarelo, caminhou lentamente em direção à parede oposta. À medida em que se aproximava, os raios se concentraram em sua figura. Logo, Gardner mal podia ser visto, encoberto por um verdadeiro mundo de fumaça e disparos laser. Foi quando levantou sua mão direita, apontou-a para a área indicada por Hank McCoy e disparou um raio maciço de energia amarela. Uma grande explosão e o silêncio tomou conta da sala. O canhão laser estava destruído. Voltando-se, Gardner caminhou para fora da sala de treinamento, não sem antes dizer:

— Quando precisarem de ajuda, é só assobiar, amadores.

Observando a tudo por um jogo de câmeras escondidas, Gabe Jones não pôde evitar que um sorriso escapasse de seus lábios.

— OK, CLASH. Partiremos em três horas. Aqui vão os últimos detalhes da missão. — disse Woo, de pé em frente a um telão no palco do auditório. Imediatamente, um mapa do Iraque surgiu na tela.

— Como vocês já sabem, a diretriz básica é descobrir onde fica a base secreta da Hidra, invadi-la e destruir a arma misteriosa que eles estão desenvolvendo. Problemas: a base fica no deserto e não temos idéia da localização exata. Este deserto, por sua vez, fica no Iraque. Não preciso lembrá-los de quão delicada será a situação de agentes americanos no Iraque, certo?

— Claro que não, china! — disse Gardner, empolgado.

— Hum. Nossa nave nesta e nas futuras missões será uma variação do tradicional jato dos Vingadores, modificado por Gaffer. O formato do jato permanece o mesmo — uma imagem da nave apareceu na tela — mas, como podem ver, este modelo é preto e possui diversas inovações bélicas. Tudo a cargo do nosso gênio de plantão, Sidney Levine.

Num canto do auditório, Gaffer sorria, orgulhoso. O mapa iraquiano voltou a aparecer no telão. Woo prosseguiu.

— Chegaremos ao Iraque às três horas da manhã, horário local. Aterrissaremos no deserto, a poucos quilômetros de Bagdá. A nave permanecerá camuflada até nossa partida. Na capital iraquiana, encontraremos nosso contato, que talvez tenha mais detalhes sobre a localização da base da Hidra. Tudo o que sabemos é que ela fica em algum local entre Bagdá e a cidade de Ar Rutbah, a oeste da capital. São grandes as chances de que a base esteja próxima do rio Eufrates, para facilitar a sobrevivência e proporcionar mais rotas de fuga. Outro problema: não sabemos quantos homens a Hidra tem ali, mas certamente são muitos. Com certeza, alguns meta-humanos estão entre eles. Portanto, preparem-se para o pior.

— E a tal arma? — perguntou o Fera.

— Vamos descobrir na hora o que é. — disse Woo. — Obviamente, não preciso lembrá-los de que esta é uma missão secreta. Lembrem-se: vocês nunca ouviram falar do CLASH e muito menos da SHIELD. Para que não perambulem pelo Iraque nestas roupas ridiculamente chamativas, usaremos disfarces.

— Isso pode ser um problema... — atalhou o Falcão. — Minhas asas, por exemplo, precisam estar prontas para a ação.

— Sabemos disso, Wilson. Por isso, estaremos utilizando versões aprimoradas do indutor de imagens criado por Tony Stark. Gaffer — sempre ele — desenvolveu unidades adequadas para cada um de nós, levando em conta nossa aparência, armas e poderes. Fera, você deve estar familiarizado com este aparelho: é do mesmo tipo daquele utilizado por você e Noturno, seu colega nos X-Men. Lembrem-se que o disfarce é apenas uma imagem: ou seja, enganará somente aos olhos. Se tocarem em vocês, perceberão a verdade. Bem, é isso. Depois de desembarcarmos no deserto, estaremos chegando à capital propriamente dita às 3h20. Teremos cerca de dez horas para investigarmos a cidade — discretamente, ouviu, Gardner? — e tentarmos obter mais dados sobre a base e as ações da Hidra. As autoridades iraquianas não devem ser envolvidas sob hipótese alguma. Por volta das três da tarde de amanhã, deveremos estar invadindo a base secreta. Antes disso, darei mais detalhes sobre o restante da missão. É isso. Preparem-se e estejam no hangar em uma hora.

A saída de Woo e Gaffer deixou o grupo perdido em pensamentos. Cada membro do CLASH se perguntava em que havia se metido.

A nave adulterada dos Vingadores viajava a uma velocidade espantosa. Mais impressionante era o seu silêncio.

— Precisamos batizar esta banheira. — disse Ralph Dibny, quebrando o gelo. — Vou pedir uma sugestão para Sue, ela é boa com nomes. Elástico pegou o rádio e falou com Sue, que estava no porta-aviões, na sala de comunicações do CLASH.

— "Pássaro Negro?" Não, querida, não podemos usar este. Por quê? Pergunte ao Fera.

A conversa foi interrompida por Woo, que retirou o rádio das mãos de Dibny e o pousou em seu gancho.

— Não é hora para isso, Elástico. Você não está na Liga Europa. Faltam dez minutos para chegarmos ao espaço aéreo iraquiano. Uma das vantagens de termos adaptado uma nave dos Vingadores é que, certamente, sempre haverá no CLASH alguém que tenha passado pelo grupo. Afinal, meio mundo já passou por lá. Com isso, sempre haverá alguém capaz de pilotá-la sem grandes dificuldades.

Fera e Falcão, que pilotavam a nave, olharam para Woo de soslaio. O agente continuou:

— Cinco minutos para o espaço aéreo iraquiano. Fera, ligue os defletores de radar. Preparem-se, todos. Iremos sobrevoar Bagdá em menos de dez minutos.

Katana olhava pela janela. Fora da nave, tudo era escuridão. Ela não sabia o que esperar dessa missão, mas certamente seria ao menos um ótimo treinamento.

— Contagem regressiva para entrarmos no espaço aéreo do Iraque: cinco... quatro... três... dois... um! Estamos dentro! — disse Woo, olhando para seu cronômetro e para o GPS* que trazia no pulso. Após alguns minutos de silêncio, o líder das operações de campo do CLASH voltou a falar.

— Aquele amontoado de luzes lá na frente é Bagdá. Fera, Falcão, vamos contornar a cidade e pousar no lado oeste, pouco antes das margens do Tigre. Assim que aterrissarmos, liguem o sistema de camuflagem criado por Gaffer e a nave ficará virtualmente invisível a olhos humanos.

Gardner estava cada vez mais excitado:

— É isso aí, galera. Daqui a pouco, vamos estar no meio da nossa própria Operação Tempestade no Deserto! Vamos detonar!

— Cale-se, Gardner. — disse Woo. Sussurrando, Falcão comentou com Fera:

— Hank, não gosto desse cara. Ele vai estragar tudo, escreva o que estou lhe dizendo.

— Ele é um idiota, Sam. Mas tem poder. Pode nos ser útil nesta missão.

Ao contornarem Bagdá, as palavras de Sam Wilson mostraram-se proféticas. Gardner, com um olhar maníaco, levantou-se de sua poltrona e rapidamente saiu por uma das escotilhas. Do lado de fora da nave, criou um gigantesco megafone amarelo com o seu anel de energia e gritou sobre a cidade que dormia:

— Nós somos o CLASH, palhaços! Abram alas para a nossa descida!

Woo, com os olhos arregalados, não podia crer naquilo.

... Maldição! Quem voa aqui? Falcão, vá... não, você está pilotando. Dibny, estique seus braços e cate este cretino agora mesmo!

Elástico estendeu seu braço esquerdo e envolveu Gardner, que foi trazido novamente para dentro, esbravejando.

— Que idéia é essa, chiclete? O que você acha que está fazendo me enrolando assim?

Cale a boca, seu idiota! — gritou Woo. — Sua besta, já viu no dicionário o significado da palavra "discrição"? O que quer fazer, imbecil? Quer que toda Bagdá saiba que estamos aqui e quem somos?

— É o jeito americano de chegar a um país. Nada que um china pudesse entender mesmo.

Woo saltou e deu um pontapé na cara de Guy. Antes que este pudesse reagir, Jimmy esbravejava:

Vamos! Reaja, cretino! Me deixe colocá-lo numa prisão federal pelo resto da vida! Falcão, conte para este cretino como o Capitão América costuma agir em missões como esta!

Gardner, roxo de raiva, nada disse. Elástico se manifestou:

— Pense no lado positivo, Woo. Ninguém deve ter entendido o que Gardner disse, já que ele falou em inglês.

"Devo contar a esses babacas sobre o tradutor universal automático do anel? Nah...", pensou Guy, em sua poltrona

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

— Que ruído é es...

Antes que o Fera pudesse terminar a frase, a nave explodiu em mil pedaços, como se nunca tivesse existido. Woo, aos berros, tentou organizar o grupo em pleno ar:

— Raio desintegrador! A Hidra já sabe que estamos aqui! Falcão, pegue Katana e Paladino e desça até o deserto!

— Não dá, Woo, só posso levar uma pessoa de cada vez!

— Merda! Pegue Katana e desça!

Sam Wilson e a Renegada foram vistos descendo os oitocentos metros até o solo iraquiano.

— Não se preocupe, comigo, Woo! — gritou Paladino, ligando um jato portátil às suas costas. — Fera, venha comigo!

Sustentados pelo jato portátil, mercenário e mutante começaram a descer em segurança até o chão. Abrindo os braços para retardar a queda, Woo gritava:

— Dibny! Assuma a forma de um pára-quedas e desça comigo!

— Gardner sumiu, Woo! — disse o Homem-Elástico.

— Já percebi! Vamos descer!

Ralph Dibny distendeu seu corpo elástico e transformou-se em um pára-quedas humano, com seus braços e pernas amarrados em Jimmy Woo como um jogo de cintos de proteção. Logo, os dois desceram em segurança. Em meio ao frio vento noturno do deserto iraquiano, o grupo novamente se reuniu.

— Onde está Gardner? — perguntou Woo.

— Não o vi descendo. — afirmou Paladino — Será que o idiota teve a decência de morrer?

— Estou aqui.

A voz vinha de uma duna de areia atrás do grupo. Sentado sobre ela, em uma cadeira de praia de energia amarela, Guy Gardner descansava.

— Demoraram para descer. — escarneceu o ex-Lanterna Verde. — Se tivessem me pedido, eu teria aterrissado todos nós dentro de uma bolha de energia.

O grupo ficou boquiaberto. Paladino sacou sua pistola concussiva e implorou:

— Deixe-me matá-lo, Woo, por favor!

— Nosso raio destruiu a nave, Supremo Hidra.

— Vi tudo pelos monitores. Quem são esses idiotas? — respondeu o misterioso líder da Hidra.

— Pelo que um deles gritou, se chamam CLASH, senhor.

— "CLASH"? E que diabos é esse CLASH?

Na periferia de Bagdá, no interior de uma enfumaçada taberna, o Mercenário bebericava um pouco de vinho.

"Estranho... parecia uma nave espacial. E que merda é essa de CLASH?", pensava o assassino mais perigoso do planeta. Em seguida, ele falou em um árabe canhestro:

— Taberneiro, mais uma caneca!

Neste momento, uma visão o deixou de olhos arregalados.

"Não posso acreditar. Eles... aqui? Não me reconheceram sem meu uniforme. Mas são mesmo os cretinos. Dois deles... Vou segui-los".

Olhou discretamente para os dois homens sentados à sua esquerda, no balcão. Túnicas brancas, olhares distantes e avermelhados. Não havia mais dúvida. Eram mesmo hashashins.

"Malditos", pensou o Mercenário.

— Muito bem, a destruição... imprevista da nave muda os nossos planos. — disse Jimmy Woo, fuzilando Gardner com o olhar — Precisamos nos proteger do frio do deserto até chegarmos a Bagdá. Apertem o botão vermelho na parte inferior de seus indutores de imagem. São reguladores de temperatura. Rodem o dial até que a temperatura os agrade. Prontos?

— Parece que os indutores estão funcionando. — disse o Fera. — Estamos parecendo típicos iraquianos.

— Esta missão começou errado. — completou Woo — Vamos cuidar para que termine certo. Guy, crie uma esfera de energia amarela e nos leve até as imediações da cidade. Cuidado para que ninguém nos veja, voe o mais baixo que puder.

A um quilômetro da periferia de Bagdá, o grupo voltou a caminhar. Eram quatro da manhã.

— Estamos atrasados. — observou Woo. — Nosso contato deve estar preocupado. Enquanto caminhamos, vou transmitir a vocês mais informações sobre o Iraque. Não quero que ninguém morra por ignorância. Cinco idiomas são falados no país: árabe, aramaico, armênio, assírio e curdo. Eu, Fera e Katana falamos árabe. Deixem as comunicações por nossa conta. Em hipótese alguma, abram a boca para falar uma vírgula em inglês.

À medida em que se aproximavam da capital iraquiana, Woo continuava sua pequena aula:

— O Iraque cobre um total de 437 mil quilômetros quadrados. Faz fronteira com o Irã, Jordânia, Kuwait, Arábia Saudita, Síria e Turquia. O clima é predominantemente desértico, como já notaram. Algumas regiões montanhosas ao norte chegam a ter neve, mas passaremos longe de lá. Os principais recursos naturais do país são petróleo, gás natural e fosfato. A população total da República do Iraque é composta por aproximadamente 24 milhões de pessoas.

— Acabou a aula, chefe?

— Cale-se, Gardner.

James Marston havia saído da base secreta da Hidra há pouco mais de duas horas. Deveria encontrar-se com Jimmy Woo na taberna Verme de Areia, mas estava atrasado. A Hidra havia descoberto que era um espião infiltrado e só lhe restou fugir desesperadamente. Agora, o agente da SHIELD caminhava assustado pelos becos de Bagdá, contando com as sombras da madrugada para manter a própria vida. Caminhava assustado e cuidadosamente, olhando para os lados antes de cada movimento. Finalmente parecia ter despistado seus perseguidores. Mas não ele. Estranho. Ele não seria despistado tão facilmente. Onde estaria o Mercenário?

Marston soube que sua fuga seria mais difícil assim que viu que o Mercenário era o novo chefe de segurança da base da Hidra. Assim que se embrenhou pela cidade, saindo do deserto, conseguiu despistar os agentes da organização. Mas o Mercenário era melhor e mais experiente. Por que ele havia sumido também? Bem, não importava mais. O Verme de Areia estava do outro lado da rua.

Ele deveria estar perseguindo o espião infiltrado, mas a Hidra que se danasse. Assim que entrou naquela taberna, seguindo os passos de Marston, a missão do Mercenário foi substituída por outra, muito mais importante e pessoal. A visão dos dois homens havia obliterado a caçada a Marston da cabeça do assassino. "Malditos hashashins", pensava o Mercenário, enquanto seguia a dupla pelas ruas de Bagdá. "Isso... me levem até onde seus irmãos de seita estão escondidos, para que eu possa eliminar todos vocês". Ao virar uma esquina, a silenciosa dupla entrou em um bar. "Hum... entraram naquela biboca", pensou o Mercenário. "Verme de Areia... Vamos ver se faz juz ao nome".

Sentado em uma mesa, no interior do bar, Marston se assustou ao ver o Mercenário entrando no ambiente. Virou-se de costas para a entrada e ficou imóvel. "Maldição! Ele me encontrou! Mas... espere. Não. Ele parece estar perseguindo aquela dupla estranha que entrou no bar antes. Melhor ficar quieto e esperar os três irem embora". Por via das dúvidas, Marston armou sua pistola automática e deixou-a no seu colo, debaixo do sobretudo.

Em seu estúdio particular, o Supremo Hidra montava um quebra-cabeças. Enquanto as peças se uniam para formar o símbolo da caveira com serpentes, o líder meditava sobre o andamento da missão. Parou por um momento, olhou para a frente e ligou o comunicador sobre a mesa.

— Agente K12, os corpos já chegaram ao laboratório?

— Sim, Supremo Hidra. Os quatro cadáveres já foram dissecados. A operação está adiantada.

— Excelente. E o Mercenário? Retornou da caçada ao espião infiltrado na nossa base?

— Não, Supremo Hidra. Nosso chefe de segurança permanece em Bagdá e não deu notícias.

— Avise-me se ele retornar.

— É ali. Verme de Areia. Vamos entrar. Gardner, comporte-se ou eu o mato. Deixem que eu e McCoy falemos o necessário.

Com essas palavras, Jimmy Woo entrou na taberna, seguido pelo CLASH. Mesmo com seus indutores de imagem, o estranho septeto de beduínos chamou a atenção do Mercenário, de James Marston e até mesmo dos dois hashashins. O grupo observou o ambiente por um momento e, finalmente, sentou-se na mesa ao lado da de Marston.

— É ele. O nosso contato. Fiquem aqui. — disse Woo, levantando-se e caminhando até a mesa do agente. Em pé ao lado dele, disse:

— Todo artista é amoral.

Marston respondeu:

— Toda arte é completamente inútil. É você, Woo? Sente-se. Nem o reconheci com este disfarce.

— Vamos ao que interessa, Marston. Onde fica a base da Hidra?

— Tenho aqui um mapa detalhado, que fiz com a ajuda do GPS. Está no meu bolso...

Enquanto Marston procurava o mapa em seu sobretudo, uma nova figura entrou na taberna. Com um turbante e carregando um pacote, o estranho sentou-se na mesa ao lado da dos membros do CLASH. Enquanto isso, Mercenário notava a movimentação na mesa de Marston.

"Aquele homem de costas parece ser o espião. Pense, Mercenário. Devo matá-lo agora ou abordo os hashashins? Se atacar um, perco o outro. O que é mais importante? Sua honra pessoal ou sua fama como assassino de aluguel que honra seus contratos?".

Antes que o Mercenário se levantasse, Woo notou que um garçom se aproximava da mesa do CLASH. Fera fez alguns pedidos, em um árabe corretíssimo. Perfeito. Nada que chamasse a atenção.

"A resposta é: as duas coisas", pensou o Mercenário, levantando-se. O assassino pegou a garrafa de vinho e, chocando-a contra a mesa, partiu-a. O barulho chamou a atenção de todos, mas antes que qualquer um pudesse agir, Mercenário arremessou dois cacos grossos de vidro com a mão direita e um terceiro com a esquerda. Os dois primeiros cacos atingiram as jugulares dos dois hashashins, que tombaram mortos em um mar de sangue.

— Por Alá! — gritou o homem de turbante que entrara no bar momentos antes.

O terceiro caco de vidro se dirigia às costas de Martson, mas foi paralisado em pleno ar por uma pinça de energia amarela. "Gardner fez algo certo", pensou Woo.

Depois de checar os dois homens mortos, o beduíno se dirigiu até a mesa do Mercenário. Falando em árabe, disse:

— Não sei quem você é, assassino, nem porque matou estes dois homens. Mas ninguém faz isso e escapa na frente do Cavaleiro Árabe!

Com esta frase, deixou cair o papel que embrulhava o que carregava e, num gesto teatral, sacou uma cimitarra. Imediatamente, o Mercenário saltou para trás, arremessando quatro shurikens na direção do inimigo. O Cavaleiro Árabe desviou três delas com sua cimitarra. A quarta estrela mortal chocou-se contra uma garrafa de metal na parede do bar, atrás do balcão, ricocheteou e dirigia-se rapidamente para o pescoço de Marston.

— Chega! — gritou Katana, que saltou de sua mesa e, com sua espada, colheu a shuriken que se dirigia à jugular do agente da SHIELD. Antes de pousar no chão, a pequena samurai ainda arremessou cinco shurikens na direção do Mercenário. Surpreso, este conseguiu se desviar de duas das estrelas, aparando as três restantes com o cardápio.

— O que é isto? Estou numa adega de assassinos? — disse o Cavaleiro Árabe.

Jimmy Woo finalmente agiu:

— CLASH, aquele é o Mercenário. Parece que temos uma ajuda involuntária. Peguem-no!

Antes que Gardner, Elástico e os outros pudessem agir, Mercenário escapou do ambiente saltando para as ruas através de uma vidraça.

"Esse é o CLASH, então? Reconheci a samurai, é a tal de Katana. Seus gestos são inconfundíveis, mesmo disfarçada. E o sujeito que defendeu minha vítima com um raio de energia amarela deve ser um Lanterna Verde ou coisa parecida. Gente cascuda, é melhor apelar". A essa altura, a polícia iraquiana já se dirigia para a taberna. Um dos policiais foi atingido à distância por um dardo mortal lançado pelo Mercenário. Enquanto os outros entravam na taberna, o assassino entrava em um prédio vizinho e se dirigia ao telhado.

A esta altura, Woo e o CLASH já haviam saído pelos fundos, acompanhados de Marston. Ao ver a polícia se aproximando, o Cavaleiro Árabe tomou o mesmo caminho.

— Hora de sumir, galera! — disse Gardner, envolvendo todos em uma esfera de energia e subindo até o telhado de um prédio a quarteirões de distância.

Intrigado, o Cavaleiro Árabe tirou de sua bolsa um tapete e, subindo sobre ele, levitou até onde o grupo estava. Ao ver a chegada do estranho personagem, Woo perguntou:

— Você é Abdul Qamar, o Cavaleiro Árabe?

— Quem quer saber?

— Pode relaxar. — disse Woo, desligando seu indutor de imagens. — Sou Jimmy Woo, da SHIELD. Você já foi agente da nossa organização anos atrás, agindo aqui no Oriente Médio.

— Sim, lembro-me de você, Woo. Vocês só podem estar aqui pelo mesmo motivo que eu: achar a base secreta da Hidra.

— Sim. Nosso amigo Marston aqui tem um mapa com a sua localização.

— Perfeito — disse o Cavaleiro.

Neste momento, Marston se contorceu e caiu no chão, com o rosto deformado pela dor.

— Alá! O que aconteceu? — disse o Cavaleiro.

Fera se aproximou do agente e constatou:

— Morto. Vejam: um dardo em sua nuca. Certamente, envenenado.

— Mas... como? — disse o Paladino. — O Mercenário nem chegou perto dele!

— Ele tentou acertá-lo à distância duas vezes. — disse Woo. — Em uma terceira, que sequer vimos, deve ter obtido êxito. Não esqueça que estamos lidando com o assassino mais perigoso do mundo.

— Parece alguma espécie de veneno de efeito retardado. — deduziu o Fera. — Ele foi acertado na taberna e morreu agora, minutos depois.

— Mas ainda temos o mapa. — disse Woo, abaixando-se e vasculhando o sobretudo do morto. — Aqui está. Hum... como eu suspeitava, a base fica às margens do Eufrates. Mas é bem maior do que a SHIELD imaginava. O que estão armando por lá?

Neste momento, gritos foram ouvidos. Pessoas morriam nas ruas, alvejadas pela arma que o Mercenário havia roubado do policial.

— Mercenário. — disse Woo. — Deve estar bancando o franco-atirador. Gardner, vá até lá e pegue-o.

Antes que Guy alçasse vôo o telhado onde estava o CLASH foi pelos ares. No ar, duas pequenas aeronaves da Hidra sobrevoavam o local. O grupo caiu dois andares no interior do edifício. Guy estava inconsciente, assim como o Falcão. Woo gritou:

— Fera! Elástico! Katana! Desçam e tentem capturar o Mercenário! Ele está matando inocentes!

— E você Woo? — disse Dibny.

— Eu e Paladino vamos ficar aqui e brincar de Space Invaders com estes merdas. Corram! — disse Jimmy, sacando uma pistola laser, modelo padrão da SHIELD. — Fogo nas naves, Paladino!

O herói de aluguel sacou sua própria pistola laser. A dupla atirava contra as duas pequenas naves, tentando impedir que os quatro agentes voadores disparassem novamente contra o telhado. Ao mesmo tempo, o Cavaleiro Árabe investia contra as naves em pleno ar, brandindo sua cimitarra, e se preocupava em defender Gardner e Wilson, que estavam no chão, inconscientes.

10

A quarteirões de distância, Ralph Dibny se esticava até o telhado onde estava o Mercenário, levando Katana com ele. Fera chegou logo em seguida, saltando por telhados e toldos.

9

— Chega, seu maníaco! — gritou o Homem-Elástico. — Chega de matar pedestres inocentes!

Mercenário imediatamente voltou-se e jogou um bastão contra Dibny.

— Meu Deus, é uma banana de dinamite! — disse o justiceiro.

Percebendo que o pavio estava no final e que não teria tempo para arremessar o explosivo longe, Elástico transformou-se em uma bola, envolvendo a dinamite. Uma explosão surda se fez ouvir e, em seguida, os telhados de Bagdá contavam com mais um herói inconsciente. Preocupado, o Fera gritou:

— Estamos agindo como idiotas. Katana, pra cima dele!

Antes que o mutante alcançasse o assassino, a samurai já estava sobre ele, manejando sua katana de maneira ensandecida. Com visível terror nos olhos, Mercenário usou um nunchaku para se manter afastado.

— Não esperava que você fosse grande coisa, nanica. Mas estava enganado. Por isso, será a primeira de seu grupelho a morrer.

8

Com a mão direita, Mercenário descolou um dos pedregulhos do telhado e lançou-o contra a testa da samurai. Desnorteada, ela cambaleou e logo seu pescoço estava no interior de um garrote, manejado com habilidade pelo assassino.

— Afaste-se, Fera! Sim, claro que já vi que é você, disfarçado. Quem mais pularia desse jeito? Sabe, sempre odiei mutantes. Chegue mais perto e vai se arrepender.

Oito shurikens voaram na direção de Hank McCoy, arremessado por Mercenário com a sua única mão livre, enquanto, com a outra, segurava o garrote que apertava Katana.

7

No outro telhado, Paladino e Jimmy Woo conseguiram abater uma das naves com seus disparos laser.

— Yes! — disse Paladino. — Parece que vamos passar para a outra fase, Woo! Vamo lá, godmode agora!

6

Hank McCoy saltou como nunca para escapar das estrelas mortais. Infelizmente, uma delas rasgou seu peito, atingido de raspão. "Argh! Putz, o cara é uma Sala de Perigo humana", pensou o mutante.

5

O Cavaleiro Árabe voava pelo céu escuro de Bagdá, acertando a nave remanescente com sua cimitarra.

— Por Gog e Magog, esses malditos cairão!

4

— O que foi, Ferinha? Se machucou? Chegue mais perto e a maldita Katana vai dormir com a cabeça separada do resto do corpo. — disse o Mercenário. — Como vocês se chamam mesmo? "The Clash"?

3

Jimmy Woo e Paladino atiravam incessantemente contra uma nova nave da Hidra, que também era perseguida pelo Cavaleiro Árabe. Naquele momento, Sam Wilson acordou e, com a cabeça dolorida, surpreendeu-se com a batalha. Incapaz de voar, ainda tonto, ele enviou seu fiel falcão para a luta.

— Vá, Asa Vermelha. Faça o que for necessário!

A ave saiu guinchando e, de alguma forma, isso parecia tornar mais leve a alma de Wilson.

2

— Quem pensou nesse nome? — perguntou o Mercenário, enquanto atirava Katana do telhado do edifício. Com a outra mão, ele olhava um relógio. A heroína japonesa se debatia em pleno ar, tentando se livrar do garrote durante uma queda de cinco andares.

— Bom, diante disso, só me resta dizer a vocês...

1

— ... Rock the Casbah.

0

Uma explosão ensurdecedora levou pelos ares mais de dez quarteirões da região periférica de Bagdá. O chamado casbah era agora um amontoado de poeira, sangue fresco, gritos, fedor de carne queimada e terror.

:: Notas do Autor

* Sistema de Posicionamento Global.



 
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