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Por
Leonardo Araújo
Anjo e Demônio
É pouco mais de meia-noite. Estamos no centro de Gotham, a rua não é muito larga e estaria bem iluminada se não houve três lâmpadas quebradas. Chove forte, relâmpagos cortam o ar da cidade. Um sedan está parado, mal estacionado, pois uma das rodas está em cima da calçada. A porta aberta e a chave na ignição denunciam uma situação incomum:
O dinheiro, quero todo o dinheiro!
As palavras são ditas por um homem alto, branco, cabelos grandes e cacheados. Seus olhos estão vermelhos e ele está muito agitado.
Em um rápido movimento, ele bate com as costas da mão no homem a sua frente.
Isso foi por demorar. Anda logo.
Por favor moço, não faça mal ao meu marido.
Cala a boca, vaca. Eu faço o que eu quiser.
Um choro assustado pode ser ouvido.
Se não fizer essa menina ficar quieta, eu mesmo faço.
Querida, olha pra mamãe. a mulher limpa as lágrimas nos olhos Vai dar tudo certo, não se preocupe.
Me dá o relógio. Anda com isso. o assaltante ordena à mulher.
O marido sangra pela boca e tenta se levantar.
Fica no chão, seu puto! o marginal chuta violentamente o homem.
Calma querida, calma. a mulher fala desesperada para a criança, que não contem o choro.
Papai, papai... a criança grita enquanto a mãe tenta acalmá-la.
Eu disse que ia fazer essa vadiazinha ficar quieta se você não fizesse, não disse? ele engatilha a arma e encosta na cabeça do homem, quase inconsciente, que tem parte do corpo apoiado na parede.
Por favor, por favor moço... pega o relógio, aqui está meu cartão de crédito... a mulher estende sua mão oferecendo os objetos, em meio a muito tremor pega moço, por favor e nos deixe...
A mãe fecha os olhos enquanto segura sua filha com uma mão e oferece seus objetos pessoais com a outra.
Já era, vocês já ... a arma é atingida por um objeto escuro, muito rápido, fazendo-a saltar para longe do assaltante, a mais de cinco metros.
Não na minha cidade. uma voz fala em tom ameaçador.
O que? Quem é? ele gira a cabeça procurando o foco da voz Vou te matar, desgraçado. uma corda enlaça o cabeludo pelo peito e o puxa para a rua, por sobre o carro. Pode-se escutar o baque do corpo no asfalto.
Mamãe, o que está acontecendo? a mulher, ajoelhada, olha para o marido que esboça um sorriso.
Um anjo minha filha, um anjo.
Atrás do carro barulhos de ossos se partindo pode ser escutado. Gritos e apelos também.
Nãoooooo, aaaahhg ... por favor não... meu joelho....
O barulho continua. São quase cinco segundos de selvageria.
Você ameaçou os pais na frente da filha.
Ahhhg... meu braço ... aahhhh
Por fim, um baque seco põe fim à gritaria.
Vocês estão bem?
Uma sombra grande e negra pergunta do outro lado do carro.
Obrigada, obrigada... repete a mulher compulsivamente.
Tem material para vocês recolherem na Rua Time, 500. Há feridos. diz Batman falando em um comunicador sem sair de sua posição.
Um raio ilumina o ambiente e elas podem ver o sombrio homem encapuzado. As gotas de chuva escorrem por seu rosto. Sua expressão é fechada. O vigilante observa o homem, vítima do assalto, tentar se levantar.
Fique sentado. Deve ter quebrado algumas costelas no chute. Não se mexa, uma ambulância está a caminho.
De forma súbita, ele parte: uma corda o puxa para o terraço do prédio em frente à tentativa de assalto. Ele observa a família de longe, aguardando a chegada da ajuda.
A cena foi muito parecida com a que ocorreu quando ele tinha oito anos. Subitamente, seu comunicador vibra. Ele o apanha e verifica o display para identificar a chamada.
Como foi de viagem, Leslie?
Está ai fora, na chuva, não está? diz a dra. Thompkins.
Você me conhece bem. ele observa a chegada da viatura da polícia no local que estava, na rua abaixo.
Bruce, querido, você precisa vir aqui.
Prometo que vou amanhã, durante o dia.
Não, Bruce. Você vai querer ver isso esta noite.

O lugar é pobre, bem pobre. As ruas não estão limpas, os prédios são velhos. Vidros quebrados destacam-se na vizinhança. Algumas vezes, caixas tampam a abertura onde havia um vidro para impedir o ar frio ou a chuva de entrar. Os carros estacionados têm mais de 10 anos de uso, alguns mais de 20. Não se ver outdoor, lojas de grandes redes, supermercados, ou bancos. O comercio é discreto, feito em pequenas casas comerciais aqui e ali. Pode-se ver alguns bêbados nas ruas.
Boa noite, Leslie. as pessoas ficam congeladas enquanto o Homem-Morcego entra na sala.
O consultório tem as paredes manchadas, o piso é antigo, muito antigo: há décadas não se fabrica mais o modelo de cerâmica. Mas está limpo. Vê-se as prateleiras cheias de remédios e observa-se alguns bons equipamentos no lugar: cortesia da Fundação Wayne.
Paul, cuide de Filipe. diz a doutora Leslie Thompkins ao chamar um dos voluntários e passar a criança de seu colo para o rapaz, enquanto a mãe observa.
Pode deixar, doutora.
Venha! Está apavorando meus clientes. chama a médica Eles acham que você é algum tipo de demônio.
Batman a segue pelo corredor principal e, depois, por um secundário. Ela abre uma porta de ferro.
Aqui está. pelos contornos que o lençol faz sobre a mesa é possível perceber que há um corpo encoberto.
Ele posiciona-se na lateral da mesa, enquanto ela pega o lençol na extremidade correspondente à cabeça e descobre parcialmente: há um cadáver, sem decomposição aparente, com um largo sorriso macabro nos lábios.
Sabe quem é? pergunta o detetive.
Não, ele já chegou gargalhando, trazido por desconhecidos. Entre entrar e morrer não foram mais de cinco minutos.
Não tinha documentos, recibos, alguma coisa nos bolsos? Batman pega um pequeno aparelho no cinto.
Não.
O vigilante pega o polegar da mão direita do cadáver e o pressiona contra o aparelho.
Deve ter os bancos de dados da policia, do FBI e da CIA ai neste... nesta coisinha.
Estou enviando para o computador da caverna. ele retira alguns pequenos tubos do cinto e passa a colher amostras das unhas, cabelos, sola do sapato, calça e jaqueta. Recolhe, também, uma pequena amostra de sangue e saliva. Durante o processo, o aparelho de recolhimento de digitais vibra. Ele lê a identificação.
Goldfrey Jr, Samuel. 35 anos. Procurado por roubo, latrocínio, formação de quadrilha, etc.
Algum acerto de contas do Coringa?
Talvez.
Leslie cobre o rosto do cadáver. A seguir fala:
Obrigada por ... ela percorre a sala vazia com o olhar.

São quase 5:30 da manhã. O característico som do motor do batmóvel é evidente na caverna.
Após sair do veículo, ele, apressadamente, vai até uma mesa com tubos de ensaio, reagentes, espectroscópios, microscópios e outros aparelhos. Do cinto, saca as amostras que recolheu do cadáver no consultório da dra. Thompkins. Ele sapara os resíduos dos tubos e prepara uma série de ensaios para avaliar possíveis indicativos de onde aquele homem estava quando foi morto.
Com o canto da vista, percebe o monitor principal da caverna pulsar tons de vermelho: era um alerta que o detetive gostaria de não ver. Dirigindo-se para a mesa onde estava o teclado, ele sabia que o Coringa havia feito nova vítima. O alerta era devido a um novo vídeo na Internet cuja referências feitas pelos internautas eram idênticas às referências feita ao vídeo em que o palhaço matava o prefeito.
Meus bons amigos de Gotham, espero que apreciem este julgamento. o Coringa estava de preto e pouco aparecia do ambiente.
Ele, calmamente, compulsa um livro em sua mão.
Aqui, achei. Deputada Estadual Valéria Cramer Drees. a câmera sobe e vai para esquerda do "juiz": uma mulher de meia idade, loira, está amordaçada Vejamos seus crimes. Câmera!!!! grita o insano, fazendo-se o centro da filmagem novamente Aqui diz que a senhora compra eleitores, pagando contas de gás, luz, nas vésperas da eleição. É verdade?
Ele fica olhando para a câmera, sua feição muda para enfurecido. Faz pequenos tiques com a cabeça para o lado esquerdo. A câmera vota à deputada.
Huuummm, humm....
Quem foi o idiota que não removeu a mordaça? Alguém pode me dizer como alguém vai falar amordaçada? Será que eu preciso fazer tudo aqui? ouve-se um tiro e um grito. A câmera treme. Uma mão surge por traz da política, removendo a mordaça.
Pronto, chefe. ouve-se, quase num sussurro.
Por favor, eu imploro: me solte! fala a mulher em meio ao choro.
A senhora só pode falar quando o juiz, no caso eu, lhe ordenar.
Mas... aaai ele acerta um tapa nela, que chora.
Calaboca. acerta outro tapa Vou repetir a pergunta: a senhora compra eleitores, pagando contas de gás, luz, nas vésperas da eleição?
Não, não, por favor!
Beeeeeeeeeeeeep, resposta errada. ele aperta um botão e a mulher grita: uma corrente elétrica lhe percorre o corpo por cerca de dois segundos.
Aaaaaaahhg...
Hahahhahha... Aqui estão fotos, recibos e tudo que comprova sua compra de votos. Vou repetir: a senhora compra eleitores, pagando contas de gás, luz, nas vésperas da eleição? Pense bem antes de responder. ele, sorrindo largamente, fica com o dedo sobre o botão de acionamento.
Sim. diz chorando compulsivamente.
Respeito à corte. ele olha para ela que chora Calaboca. acerta outro tapa.
Por fav... ai, ai, aai uma seqüência se tapas no rosto da vereadora seguido por "calabocas" é deferido.
Acho que a ré está disposta a colaborar agora. A segunda acusação diz que a senhora nomeava "fantasmas" para seu gabinete e ficava com o dinheiro destes supostos assessores. É verdade? ele fala, junto à câmera, sorrindo.
Sim. as lágrimas lhe escorrem.
Estou gostando de ver. Confessar faz bem à alma, hehehehehe. Aqui tem uma relação de desvios de dinheiro de obras, favorecimento a licitações, cobrança para facilitar tramite de documentos, etc, etc e etc. Tudo o que um moderno político faz, não é mesmo? A senhora é culpada?
Ela o olha, as lágrimas caem.
Olha aqui: gravações, assinaturas, tudo isso é comprovado. Culpada?
Sssim!
Viu povo de Gotham. Se não sou eu, quem vai salvar vocês destes abutres? Batman? Hahahahaah. A sentença: ele levanta a mão e uma música tem o som elevado abruptamente.
Pode-se ler nos lábios dela um "Por favor", mas, assim que a musica tem o volume reduzido, o Coringa chuta um banco aos pés da deputada, fazendo-a ficar pendurada por uma corda no pescoço. Ele balança as pernas e agita o corpo. Usando este bizarro e tétrico pano de fundo, o palhaço fala exibindo parte da corda na mão:
Se vocês soubessem como as tripas daquele banhudo deu uma bela corda ele exibe a corda de couro trançado já teriam usado aquele inútil como matéria prima para cabos a muito tempo. Hahahahaha!
A corda que enforcava a deputada era feita do couro dos intestinos do prefeito.
Cumpri minha promessa. Estou enforcando os políticos um nas tripas dos outros. Hehehehe. Se os donos da cidade querem parar este show, é só me darem meu dinheiro e pronto. Lembrando: um milhão de dólares em espécie, cinco milhões de euros, três milhões em diamante e dois em ouro.
Ele sorri e pisca para a câmera.
Quase esqueço: o local. Heheheh. Coloquem tudo num iate na Marina Orca, tanque cheio, à 23 horas do próximo sábado. Nada de policiais, helicópteros, perseguição, estas coisas cafonas. Levarei três reféns. O primeiro morre assim que eu perceber que estou sendo seguido. Fui claro? Se não me derem meu dinheiro, hahahahhahah, domingo tem mais show!
O vídeo macabro termina.
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