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Por
Alexandre Mandarino
Canção de Dwyfyddiaeth (*)
Em sonhos nublados e memórias vãs
De cidades fabulosas tenho morado -
E em um lago ao lado de Árvores Guardiãs
A minha sede zombeteira tenho saciado
Da dura realidade eu tenho formado
Figuras sombrias nas areias pagãs.
Pelos mares cristalinos singro as manhãs
E em lendária graça tenho me trajado...
Em Idris tenho vivido com Serpentes Rochosas
E Violetas de pó que emergem para formar
Um reluzente portal de ossadas tortuosas
De um guerreiro caído, reunidas ao trovejar
De nuvens, chamas escaldantes e furacões
Enquanto corvos cantam no céu dos vagalhões
Para Sempre e Nunca
Sudoeste da Inglaterra, região de Dorset, zona rural 560 d.C.
O cavalo negro galopava sem cessar, propelido pelo mais puro pavor. Como a mula que persegue a cenoura pendurada à sua frente e nunca a alcança, o animal tentava tolamente se livrar daquilo que o assustava, sem perceber que tal objeto de pânico era exatamente aquele que o cavalgava. Iason of the Blood tentava não pensar. Não raciocinar. Não lembrar. Cavalgar tornava tudo mais fácil... se ao menos pudesse cavalgar para sempre. Mas o cavalo um dia fatalmente viria a morrer ou alcançaria a galope o fim do mundo.
Sua vida passada agora lhe parecia um amontoado de cenas de um sonho distante. A convivência pacata em Camelot, agora uma pilha de ruínas; o ofício como mercador; o velho Jakez; até mesmo Iseabail e a pequena Dana haviam se resumido a meras imagens, algo sobre o qual não era bom sequer pensar. Sim. Simplesmente, não era bom. Mas uma única visão permanecia viva e incandescente em sua mente: Merlin, o louco bruxo, em seus últimos momentos de glória, na derradeira batalha sobre as muralhas de Camelot. Algo que Merlin fez naquele momento havia afetado a vida de Iason of Camelot. Na verdade, Iason of Camelot não existia mais; o que era aquilo que estava em seu lugar, habitando seu corpo?
Iason of the Blood... sim, foi assim que Jakez o chamara. Parecia ser um nome bom como qualquer outro. Para todos os efeitos, de agora em diante o antigo camponês usaria essa alcunha. Então seus pensamentos lhe escaparam e o próprio Iason os seguiu: o cavalo caiu, arremessando seu cavaleiro mais de um metro à frente. Iason caiu como um amontoado de lenha no chão de relvas. Ainda surpreso, levantou-se e examinou o cavalo: estava morto.
A parada abrupta fez com que Iason voltasse a raciocinar de forma mais natural. Olhou para o céu: deveriam ser oito horas da noite. Em pouco tempo, o sol iria se esconder nos reinos de Arianrhod. Calculou onde poderia estar. Certamente já havia saído de Somerset, ultrapassando a fronteira. Deveria estar agora na região central de Dorset. Não conseguia se lembrar se havia evitado as vilas e povoados voluntariamente ou por puro acaso. Talvez as decisões tenham ficado inteiramente a cargo do cavalo.
Iason preparava-se para andar, quando ouviu um ruído. Parecia... seria possível? O relinchar de um cavalo! Voltou-se e lá estava ele. Mas, para seu terror, não era um cavalo selvagem. Era o seu cavalo, que havia acabado de morrer à sua frente. O animal da cor da noite deu breves passos à frente e esfregou suavemente o focinho no ombro de Iason. Após encará-lo por alguns segundos, o camponês tornou a montá-lo e, com um grito, disparou novamente a galopar. Os instantes de razão cederam novamente lugar ao prazer pela velocidade, pelo vento frio que batia em sua cara tentando expurgar todas as suas culpas, todos os seus demônios... em vão.

Trevas. Um zumbido ameaçador. E então... Iason acordou de sobressalto! Demorou a divisar algo na escuridão. Já era noite avançada e o impensável parecia ter acontecido. Iason havia adormecido sobre o cavalo. Ele não conseguia se lembrar se isso havia acontecido ainda em plena cavalgada ou se havia chegado a parar a trajetória do animal. O fato é que não havia despencado de sua sela e tampouco reconhecia o local onde estava. Olhou para o céu. Pela lua, deveriam ser duas horas da madrugada. O tempo estava frio e insetos zumbiam nas moitas mais próximas.
Esticando o corpo, Iason desceu do animal. Retirou os poucos objetos que estavam guardados na sela: uma espada e uma muda de roupas velhas, antigos pertences de Jakez, o velho louco, de quem também havia tomado o cavalo. Olhou para o animal e, então, algo em seu interior fez com que agisse de forma automática: gritou e deu um tapa no lombo do cavalo, que disparou para longe e sumiu de vista.
Você é um filho de um porco estúpido, Iason. Terá que cavalgar somente com suas patas agora. disse para si mesmo. O som de sua voz pareceu sombrio e grotesco ao cortar o espesso sereno da madrugada.
Era a primeira voz humana que ouvia em três dias. Parecia vir de outro lugar e não de sua boca. Surpreso, pensou que seria melhor continuar calado. Colocou a espada na cintura e jogou a bolsa sobre os ombros. Olhou em volta: estava em uma planície escura, com árvores esparsas. A lua cheia iluminava bem a área, com fachos prateados. A lâmina de sua espada reluzia ocasionalmente. À sua direita, a mais de um quilômetro de distância, havia uma mancha negra retangular. Fixou a vista e pôde distinguir as ruínas de uma construção. Um forte ou paliçada, aparentemente de madeira. Parecia desabitado há anos. À esquerda, a menos de quatrocentos metros, tinha início uma vasta floresta.
"As ruínas dariam um bom abrigo para esta noite." pensou. E, então, voltou seus calcanhares e caminhou na direção da floresta. Era um selvagem, pensava; abusara de sua mulher e filha com atos de violência; agredira e traíra a confiança de seus amigos e vizinhos; como tal, merecia o relento.
As regiões de fronteira entre matas densas e descampados são sempre as partes mais impressionantes. Existem deuses da floresta, deuses da planície. Mas quem são os deuses da fronteira?
"Se existem" pensou Iason "não são deuses simpáticos."
Olhou para a primeira árvore que surgiu à sua frente. Empunhou a espada com a mão direita e desapareceu na cortina verde-escura.
A luz da lua era completamente deixada de fora pelas copas das árvores mais altas. Estava em um oceano de breu, em uma região certamente comandada por Cernunnos. Ótimo.
Sentou-se encostado no tronco de um velho e maciço carvalho. Recostou a cabeça, cobriu-se com as roupas e peles que estavam na mochila e tentou adormecer. A mão direita, sob as peles, permanecia agarrada ao cabo da espada. Mas havia dormido bastante e limitou-se a observar as copas das árvores, sob a pouca luz tremeluzente da lua. Foi quando algo pareceu se acender no canto esquerdo de seu ângulo de visão. Virou o rosto naquela direção, mas não havia nada lá. Um minuto mais tarde, teve certeza: uma luz. Levantou-se, colocou uma das peles sobre os ombros e as costas, amarrou a mochila em sua cintura e caminhou lentamente, espada em punho. Mais de perto, pôde confirmar: era uma fogueira, acesa há pouco tempo, pelo jeito, em uma pequena clareira da floresta. Aproximou-se e ficou olhando por trás de uma das árvores em volta da clareira. A luz amarela do fogo fazia os troncos tremerem, em uma incômoda ilusão. Mas não havia ninguém por ali; quem teria acendido o fogo?
Então, seu coração veio à boca: uma pesada mão caiu sobre seu ombro. Iason se virou e levantou a espada. Alguém gritou:
Não! Não faça isso!
Iason parou com o braço no ar e olhou para a figura. Era um homem magro e muito velho, com barbas longas e amareladas pelo tempo.
Seu filho de uma porca, maldito velho desgraçado, sodomita de cães!
Hurmm... já ouvi coisas piores. e passou ao largo de Iason, sentando-se ao redor do fogo Vamos, sente-se.
Iason se aproximou, desconfiado. Sentou-se do outro lado da fogueira, olhando atentamente para o velho.
Veja. disse o ancião, jogando ao seu lado um pequeno coelho Não é muita carne, mas podemos dividir.
Meia hora depois, os dois comiam em silêncio. O velho tentou arriscar uma conversa:
Qual o seu nome? Tenho o direito de saber, após dividir meu coelho com você.
Iason.
Iason... de onde você é?
... de Camelot.
O velho o olhou com um ar curioso, mas logo em seguida voltou a baixar os olhos para uma mal-passada e magra perna de coelho. Enfim, disse:
Camelot... corre mundo a notícia de que a fortaleza de Arthur foi destruída. É verdade?
Iason fez que sim com a cabeça.
Imagino que esteja procurando uma nova aldeia para morar.
Talvez... e você, de onde é, velho?
O velho apontou para cima. Iason seguiu o caminho com o olhar, mas não entendeu o que aquele estranho ancião queria dizer. Percebendo isso, o velho explicou:
Minha casa. e apontou de novo. Desta vez, Iason viu uma plataforma construída com pedaços de troncos, posicionada no alto de uma das árvores Eu sou daqui mesmo.
Você mora na floresta?
Sim.
O silêncio novamente se impôs, mas a curiosidade tornou Iason mais falante.
Mas não morou sempre aqui, não é? Quero dizer, não nasceu aqui, como se fosse um cão do mato ou um espírito de Cerridwen.
Eh, eh! Não, amigo... não nasci aqui. Mas quer dizer que ainda crê nos velhos deuses? Pensei que já houvessem sido esquecidos, substituídos pelos deuses dos romanos. E que até mesmo estes já tivessem tombado, derrubados por esse deus único a quem os romanos resolveram render homenagem.
Eu gosto dos deuses daqui. Entendo o que eles são. E você, velho? Acredita em cernunnos ou em Dioniso? Ou é cristão, como Arthur?
Todos estes deuses, Iason, são os mesmos. Apenas mudam de nome, mas são sempre os mesmos.
Iason pensou, mas não sabia ao certo se entendia aquilo:
E o deus único? Ele é um só, não tem a companhia de outros deuses? Ele é todos os deuses em um só, então?
Ou talvez não seja realmente um deus... disse o velho Mas nunca pensei sobre isso, para falar a verdade.
Qual o seu nome, velho?
Pela baba de Boann, pensei que nunca fosse perguntar! Meu nome é Myrddin Gwyllt.
Não respondeu a minha pergunta, Myrddin. Viveu sempre aqui?
Você é curioso, Iason. E... mais do que isso... agora vejo. e seu rosto fez uma expressão de surpresa e, talvez, medo. Continuou Já ouviu falar da batalha de Arfderydd? Pelos novos nomes, o lugar se chama Arthuret. Fica perto de Carlysle.
Não.
Aconteceu há muito tempo. Eu estive nessa batalha, lutando ao lado do rei Gwernddolau, contra outro rei, Rhydderch Hen.
Mas... mas isso foi...
O velho olhou para Iason de soslaio e disse:
Em 575, se não me engano.
Há 85 anos! Velho, você é louco!
Deixe-me terminar. Lutei ao lado de Gwernddolau, apesar de minha irmã ser casada com Rhydderch. Mas eu devia obediência ao meu rei. A luta foi longa e sangrenta. Confesso que entrei em tamanho frenesi sangrento que mal via o que minhas mãos faziam. No fim de tudo, Gwernddolau foi morto pela espada de Rhydderch.
Então, seu lado perdeu a batalha.
Perdi mais do que uma batalha naquela noite. Gwernddolau era mais do que... meu rei. Era meu amigo. Mais do que um amigo. e pareceu hesitante. Enfim, continuou Mas sua morte não foi o pior. Um dos soldados de Rhydderch que matei naquele dia e matei muitos deles era o filho de Rhydderch. O filho da minha irmã. Meu sobrinho. Na balbúrdia promovida por Benedigeidfran, minha espada cortou-lhe o rosto em duas metades.
...
Desde então tenho morado aqui. Você é o primeiro ser humano que vejo em muitos, muitos anos... perdoe minha aproximação por trás, mas acho que me desacostumei com a presença de outras pessoas.
Você enlouqueceu, velho. Mas entendo o motivo. disse Iason.
É... foi o que disseram. Que eu havia enlouquecido. E acho que isso realmente aconteceu... por um tempo. Um longo tempo. Depois, as feridas se curaram sozinhas. Mas eu já havia me acostumado com a solidão destas florestas.
E que florestas são essas? Onde estamos?
Você não sabe? Aqui é Coed Calydon. Os da sua idade a chamariam de Cumberland.
Mais longe do que pensava! (**)
Sim, por isso me espantei por ser de Camelot. Mas eu sei porque diz entender a minha antiga loucura e os meus motivos.
O que quer dizer, ancião?
Os olhos de Myrddin fitaram Iason com um estranho brilho.
Você sabe que algo aconteceu com você, Iason. Você bateu em sua mulher. Você bateu em sua filha. Você bateu em seus amigos.
Iason arregalou os olhos.
Como sabe disso??
O velho apontou para a fogueira.
O fogo me conta. É fácil ver as coisas no fogo.
Você é um bruxo! Um druida! Pode me ajudar?
Talvez... sabe, todos os druidas de verdade devem passar pelo caminho da loucura. É só depois que percorrem toda a trilha da insanidade e desembocam ilesos do outro lado que eles realmente se tornam bruxos. Isso acontece em todos os lugares. (***) Você encontrou em sua aldeia um velho que sabia, por intuição, o que havia acontecido com você.
Jakez... sim, era dele essa espada.
Mas ele não possuía o poder nem a coragem para contar a você. Eu, por outro lado, tenho poder... e não se trata de coragem. Digamos que não me importo em lhe contar. Iason, durante a queda de Camelot, o... mago local... ele...
Merlin!
Myrddin olhou para o chão.
Ele conjurou um ser das profundezas para defender a cidade.
Sim, era horrível!! Todos nós ouvimos suas gargalhadas! Ele tinha um hálito de fogo e fedia a...
Algo gargalhou dentro da mente de Iason. O velho olhou-o com uma expressão de pena, ou algo bem próximo disso. Há décadas havia deixado de cair no luxo de sentir pena dos outros.
Quando a queda se mostrou já escrita pelos deuses, o... mago, ele... ele aprisionou o demônio dentro de você. Ele se esconde no interior de seu corpo, Iason, como uma pele de carneiro, uma capa de couro, um disfarce.
... O quê?... o que está... dizendo, velho? Eu... isso não...
Você já sabia disso, Iason. Estou apenas dizendo-o em voz alta para que entenda de vez.
Iason olhou para o velho, olhos arregalados, e então levantou-se. Deu as costas ao ancião e começou a vomitar. Por alguns segundos, teve a impressão de que uma serpente rastejava pela poça de bile e pedaços de coelho.
Sentou-se novamente, olhando para o éter. Limpou a boca com as costas das mãos e perguntou:
Essa coisa, velho... o que ela é?
...
O que ela é, diabos??!
Sim. Um diabo. Um demônio. Ao menos, seria assim que os crentes nesse deus único de que falávamos iriam chamá-lo. Mas é impossível saber ao certo a quem ela serve ou de onde veio. Pode ser um demônio do deus romano ou talvez uma cria de Cernunnos; uma criatura vinda do Hades. Dê a ela o nome que quiser. Mas é isso que provocou as mudanças em sua personalidade e seus atos violentos.
Velho, eu... eu não sou assim, isso é... algo que... quero dizer, nos últimos dias tenho me sentido eu mesmo, como agora. Talvez um pouco mais frio e distante, mas ainda assim eu mesmo. Mas em outros momentos, eu...
Eu sei, Iason. E mais coisas irão acontecer. Talvez a criatura provoque amnésia em algumas ocasiões.
Por Dagda!! Maldade... momentos de loucura... amnésia... o que mais pode acontecer?
Isso. disse Myrddin, rapidamente apontando uma flecha para Iason.
Velho... o que...
O arco se distendeu e a flecha partiu velozmente pelo ar, em direção ao peito de Iason. Em menos de um segundo, um milagre aconteceu: mal a flecha saiu de seu lugar no arco empunhado pelo ancião, antes mesmo de passar sobre a fogueira que separava os dois homens, foi consumida pelo fogo. Apenas cinzas caíram aos pés de Iason, que se levantou assustado.
Dagda!! Por Apolo!!! Você fez isso, velho?
Não... sente-se, Iason. Eu sabia que a flecha não o atingiria. Duas coisas mais aconteceram com você. Duas mudanças provocadas pela união com a criatura. Esse... demônio, ele é um rimador.
Rimador?
"Em tamanho frenesi, eu assassinei o filho de minha irmã
Minha espada abriu seu rosto e eu gritei em uma vitória vã
Glórias às curas da noite, quando me voltei e vi, sob a lua
A carne de Gwernddolau, o jovem rei que me amara, crua
E a espada de Rhydderch, que todo o seu sangue gotejava
E sua boca enorme celebrando em alegria; eu não imaginava
Que, enraizado e nutrido por meu próprio e afeiçoado coração
Estava o maldito demônio, levando o mundo à destruição." disse o ancião, lentamente, olhos voltados para o chão.
— ...
Sim, um rimador. Como eu, aliás. Sou o que poderiam chamar nos burgos de "poeta". O demônio se expressa através de rimas. Graças a isso, você, ironicamente, desenvolverá um interesse maior pela arte e talvez até mesmo uma inteligência mais aguçada. Demônios, afinal, são espertos e, com perdão da ousadia, você claramente necessita de um... maior brilhantismo, posso dizer.
E a flecha...?
Sim, isso é o mais importante. Você se tornou imortal.
Imortal??
Sim. Nenhuma doença irá se apegar ao seu corpo. Pestes, pragas, maldições não irão abatê-lo. Armas podem ferí-lo, até mesmo matá-lo... mas isso é improvável. O demônio não permitirá que elas se aproximem e fará algo semelhante ao que fez com a minha flecha. Você também não envelhecerá.
Imortal...
Não é uma bênção, Iason. Creia. Longe disso. A vida eterna tem sido procurada por alguns e a busca por ela aumentará ainda mais com os séculos que virão. Mas o que é a eternidade? Algo eterno é algo que não tem fim. Que dura para sempre. Cujo final nunca é atingido. "Para sempre" e "nunca" são palavras muito parecidas, se você pensar bem...
Então... viver para sempre seria como nunca viver?
De certa forma... será uma vida sem ângulos, sem medos, sem ambições. Você precisa lutar contra isso ou realmente enlouquecerá. tente esquecer que é imortal. E, mais importante: esconda isso de todos. De todos. Ou será escorraçado do convívio humano. o velho parecia falar de algo que conhecia muito bem.
O que posso fazer para tirar este demônio de dentro de mim? Pelas encruzilhadas de Mercúrio, deve haver algo que...
Sim, há. E, ironicamente, nessa própria floresta. Talvez o demônio tenha guiado seu cavalo até aqui. Lembre-se: o demônio também não gosta de estar preso no interior de seu corpo.
Iason olhou para seu braço, como que tentando enxergar através dele.
Iason, é aqui, em Coed Calydon, que ficava a árvore de Cernunnos, também chamada de "ramos de Herne", "galhos de Cernowain", Yggdrasil". Chame-a como quiser. É a Árvore do Mundo, que pulsa com a seiva da vida. É ela que alimenta os mares, os ares, nosso sangue, a seiva das outras árvores, o trigo que nos dá o pão... tudo.
"Ficava"?
Na verdade ela não "fica" em lugar algum do nosso mundo. Ao menos, não onde podemos alcançá-la. Mas, de tempos em tempos, uma de suas raízes fura o éter que divide as casas dos deuses e termina por germinar em uma de nossas florestas. Um desses ramos ficava aqui... há mais de cinqüenta anos atrás.
E onde está agora?
O velho estendeu o braço esquerdo, apontando o caminho para fora da floresta:
Foi cortado por lenhadores. Parte dele foi usada para construir a fortaleza que deve ter visto antes de entrar na floresta.
Então, não...
Não aqui. Mas existe um lugar chamado Floresta Negra, na terra onde moram os germanos. Daqui há exatos mil anos, um novo ramo da árvore do mundo crescerá por lá. Será fácil encontrá-lo. Ele o chamará, como o chamou até aqui, guiado pelo demônio.
Mil anos? Terei que esperar mil anos?
Terá que viver para sempre, de qualquer forma. Com o tempo, mil anos serão pouco mais que um piscar de olhos. Mas eu não deveria ter dito isso a você. Sua espera e a ansiedade poderão consumí-lo. Esqueça a árvore, Iason, e lembre-se dela somente quando chegar a hora certa. e estalou os dedos com a mão esquerda, enquanto a direita jogava folhas secas sobre a fogueira, dizendo:
Que as Crone o façam esquecer e então lembrar.
Iason esfregou os olhos, sentindo-se tonto. E então disse:
Quer dizer que não há cura? Nada pode expurgar o demônio?
Eu não disse isso, Iason. Disse que terá de procurar por conta própria.
E então, a fogueira se apagou sozinha. O velho pareceu perturbado. Sussurrando, ele disse:
Por Dagda... Iason, rápido. Siga-me! Suba até a minha árvore! e, habilmente, subiu pelos galhos até a plataforma de madeira. Ainda se acostumando à escuridão, Iason disse:
Diabos, velho, onde está você? Espere que eu...
Quando se abaixou para pegar sua espada no chão, Iason ouviu um ruído. Um uivo pavoroso, semelhante a um lamento, tomou toda a floresta.
Bean Nighe.
Iason conhecia as lendas. As Bean Nighe eram espíritos de mulheres que haviam morrido durante o parto. Eram condenadas a vagar pelos locais mais ermos até completar o tempo que teria sido o seu ciclo de vida normal. Nesse período, perambulavam pelas florestas e planícies escocesas, anunciando com seu canto choroso a morte de uma pessoa próxima. Só paravam para lavar suas mãos sujas de sangue em algum riacho. Se alguém conseguisse se aproximar delas nesses momentos e mamar em uma de suas tetas, poderia lhes fazer um pedido.
Bean Nighe. Na Irlanda, mais ao oeste, eram chamadas de Bean Sidhe ou Banshee. Iason sempre duvidou da existência de tais seres, mas algo em seu uivo desolador lhe assegurava que era uma delas. Ou era o demônio que sabia?
O uivo parecia mais próximo agora. Iason olhou para cima, os olhos lutando contra as trevas, mas não conseguiu enxergar o velho e tampouco sua rude casa de madeira. Então um baque surdo em suas costas o levou ao chão. Iason virou-se de frente e levantou sua espada diante do corpo. Mal podia acreditar no que via à sua frente, banhada pela luz da lua.
Uma mulher velha, nua, com quase dois metros de altura, o observava. De sua boca pendiam dois enormes dentes, sujos de sangue. os olhos eram esticados e amarelados, muito mais compridos que os olhos de um ser humano. Sua cabeça era azulada e das mãos saíam garras negras e compridas. A criatura era rápida. Imediatamente se abaixou e cortou a barriga de Iason com uma das mãos. O camponês gritou:
Myrddin!!!
A floresta não o respondeu.
Desgraçado filho de um corvo! Iason rolou para o lado, mas bateu com a cabeça em uma pedra. Novamente sentiu as garras da criatura, desta vez em suas costas. A coisa então urrou, um barulho semelhante ao de um cão rugindo, mesclado ao som de folhas secas sendo amassadas. Foi quando Iason percebeu o que a monstruosidade era.
"Black Annis. É a Black Annis. Que Dagda me ajude!".
E então algo em seu interior se fez ouvir:
"Não. Não Dagda. Ele não vai ajudar.
Peça ajuda a quem merece, a quem tem a ganhar."
Aturdido e em pânico, Iason levantou-se de um salto. Não sabia do que tinha mais medo; se da criatura à sua frente ou do demônio que falava em seu interior. Com um grito, girou a espada e atacou. A lâmina cortou o braço da criatura, que urrou de forma inconcebível; um sussurro amplificado, vomitando pesar e prazer pela amplidão da floresta. Foi quando Iason percebeu que não teria chance contra aquilo. Tentando se manter na direção de onde ficava a planície ao lado da floresta, disparou a correr. Ramos e espinhos cortavam seu rosto; galhos mais baixos sangravam seu tornozelo e joelhos. A criatura estava logo atrás; Iason quase podia sentir seu hálito quente. Então, a Bean Nighe, ao longe, uivou novamente.
Mas não será a minha morte que anunciará esta noite, maldita!
Os passos da Black Annis ressoavam pesados atrás de Iason. Finalmente, a pouco mais de trinta metros, ele podia ver a planície atrás das últimas árvores da floresta. Com sorte, a criatura deixaria de perseguí-lo se conseguisse sair da mata. Mais alguns passos esforçados e, com um salto desesperado, Iason passou entre as duas últimas árvores, caindo pesadamente no chão da planície. Sem as árvores como obstáculo, a luz da lua cheia voltou a iluminar tudo. Iason viu o rosto da Black Annis, azul como um pássaro, parado entre as árvores. Então, a criatura saiu da floresta e avançou em sua direção.
Por Epona!!! A coisa continua vindo!
"Sim, Epona..." disse a voz em seu interior.
Iason desfechou novo golpe, mas sua espada atingiu apenas o ar. As garras da criatura cortaram seu ombro e a força do golpe o fez voar dois metros para trás. Então, ouviu um novo ruído às suas costas. Olhou de relance e um vulto negro se aproximava.
Então, um relincho.
Era seu cavalo! O animal havia retornado.
Morra, velha horrível! gritou Iason, pondo-se de pé e desfechando mais um golpe vão com a espada. Montou o cavalo e gritou para que disparasse. Em seu íntimo, agradecia a Epona, a deusa dos cavalos. O animal correu pela planície, em direção ao norte. A Black Annis (****) o perseguiu por alguns segundos, mas logo ficou para trás.
Minutos depois, Iason ainda cavalgava rapidamente pela escuridão. Olhou para o caminho que havia percorrido e não havia sinal do monstro. Ao longe, estavam as ruínas da fortaleza de madeira erigida, de acordo com o velho, com galhos mortos do ramo da árvore do mundo. Mas Iason não se lembrava dessa parte da história. Fitou com curiosidade a construção, mera sombra no horizonte noturno.
Sem que entendesse o motivo, aquela construção o fez lembrar do velho e daquela floresta escura. Olhou para a direita e afastou seu cavalo da floresta, galopando para o noroeste. Meia hora mais tarde, ainda estava cavalgando pela planície deserta. Os primeiros raios de sol se estendiam sobre as copas das árvores a leste. Decidiu que bastava de lugares ermos. Ansiava por chegar à vila mais próxima, qualquer uma. Se o que velho disse era verdade e Iason sentia que era teria todo o tempo para cavalgar. Poderia cavalgar para sempre. Caminhar para sempre. E nunca.
:: Notas do Autor
(*) Canção de Dwyfyddiaeth, século VI - traduzida e adaptada pelo autor. A versáo original é esta:
In misty dreams and shadowed memories
Of fabled cities I have dwelt apace-
And from strange lakes set round with Guardian Trees
Have slacked my thirst, and scornful of the face
Of harshful reality have stooped to trace
Dark figures on the sands of alien keys.
In crystal splendor I have spanned the seas
And clothed myself in legendary grace...
In Idris I have dwelt where Serpent Stones
And flowe`rs of dusty violet merge to form
A glimmering gate of wonder, whereto bones
Of a warrior dead are gathered in a storm
Of whirling clouds and cauldron flames and roar
Beneath the sky-vault where great ravens soar. 
(**) Ao noroeste da Inglaterra, na fronteira com a terra hoje conhecida como Escócia. 
(***) É comum a crença de que os xamãs do Ártico e de outras partes do planeta ganham suas habilidades de cura somente após uma viagem pela estrada da loucura. 
(****) Black Annis é uma criatura do folclore inglês. Uma velha extremamente forte, com rosto azul e dentes e garras afiados. Provavelmente, sua lenda deriva de alguma antiga deusa pagã. Saiba mais sobre ela neste site: http://www.mysteriousbritain.co.uk/folklore/blackannis.html 
Myrddin realmente existiu, de acordo com a lenda. O poema que ele recita nesta história é atribuído realmente a ele. Diz-se que teria sido um guerreiro celta que enlouqueceu após matar o sobrinho em uma batalha e passou a viver em uma floresta, realizando curas e profecias. Assumia estados de transe e conhecia as lendas. Alguns historiadores acreditam que foi sua história que deu origem à lenda e à figura de Merlin.
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