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Por
Rafael 'Lupo' Monteiro
A Despedida
Olhando pela janela de seus aposentos, a Rainha Guinevere parece não acreditar que, depois de tanto sangue derramado, o reino de Camelot finalmente está em paz.
Ainda se lembra de quando Arthur a reencontrou, anos atrás. Ela era a portadora da espada Excalibur, e a entregou à seu marido, que pode assim reunificar o reino da Inglaterra. Mais do que um ato de amor ao reino, foi um ato de amor ao seu esposo, que nunca mereceu a traição de quem mais amava.
Guinevere pensava estar em paz consigo mesma. Contudo, a verdade é que ainda não havia se perdoado por ter se entregue a Lancelot. Nunca mais se deitou com homem algum, nem mesmo o marido. Enquanto a paz em Camelot durasse, ela estaria se não feliz, ao menos satisfeita.
A rainha terminou de se vestir e dirigiu-se ao salão central, onde Arthur recebia alguns visitantes de Roma que haviam chegado na noite passada. Ela vestia um longo vestido preto, e sua pele pálida e olhos azuis arregalados davam-lhe o aspecto de estar fraca, doente.
A mesa do café da manhã estava farta, com muito leite, pães, queijo, mel e frutas da época. Guinevere serviu-se apenas de um pedaço de pão e um pequeno copo de leite.
Bom dia, minha senhora, como passou a noite? perguntou Arthur, com um sorriso discreto.
Dormi muito bem, meu marido. E a que devo a honra da visita de nossos representantes de Roma?
Eram dois os visitantes, ambos vestidos também de preto. Seus pratos estavam muito bem servidos, e comiam com voracidade.
Um bom dia, Vossa Majestade! Sou Caio Tácito, e este ao meu lado é Júlio Pettinato Caio era alto e magro, com olhos e cabelos negros e lábios finos, enquanto Júlio era baixo, gordinho, com grandes bochechas vermelhas, e olhos e cabelos também negros Somos enviados de Roma, e viemos investigar estranhos rumores que chegaram aos ouvidos do Papa
E quais rumores seriam esses que os fizeram se deslocar tanto? Arthur olhou para Guinevere, já sabendo que problemas viriam.
De que aqui a Rainha é mais adorada do que Nosso Senhor Jesus Cristo e sua mãe, Santa Maria Caio falava enquanto limpava a boca.
Ora, que bobagem! afirmou Guinevere, irritada. Eu sempre fui devota da Igreja Romana, e só o que me faltava era ser acusada de querer ser Deusa...
Perdão, mas é sabido de todos que a Rainha já cedeu antes à tentação, e nada impediria...
Se Roma os enviou para insultar minha esposa interviu Arthur energicamente temo que serei obrigado a recusar minha hospitalidade aos senhores, e pedir que se retirem.
Perdão, não pretendíamos ofender...
Pois já me ofenderam! Arthur respirou fundo antes de prosseguir não se esqueça que eu, Arthur Pendragon, fui o responsável pela busca do cálice de Nosso Senhor, e que até hoje ao povo da Inglaterra é assegurada a comida por conta disso! Por isso, não admito que ninguém seja venha à minha morada duvidar de minha fé ou da lealdade de minha esposa. Dêem-se por satisfeitos por Camelot ser um reino justo, e vocês representarem a Santa Igreja, ou do contrário arrancaria suas línguas com minha espada com tamanha desfeita!
Os representantes de Roma logo se retiraram da mesa. Arthur olhou para sua esposa, e ficou sem palavras. Apesar do modo rude de seus visitantes, ele sabia que entre o povo muitos achavam que sua esposa era mesmo santa. Guinevere também já ouvira falar sobre isso, mas como raramente saía do castelo, nunca soube se algo assim realmente ocorria achava, no fundo, que isso não passava de bobagem.
Mal acabara este incidente, e outro pior ocorreu. O cavaleiro Kay entrou no recinto, com a fisionomia abatida, o olhar meio perdido. Arthur logo intuiu que novos problemas estavam por vir.
Meu nobre amigo Kay, diga-me logo o que te afliges.
Majestade, a notícia que trago é tão ruim que ninguém teve coragem de contar-lhe, por isso eu mesmo imcubi-me da missão.
Deixe de rodeios e fale logo, homem!
Kay por um momento ficou parado, como se escolhendo as palavras que fosse usar. Olhou para a rainha, e depois para Arthur, até que resolveu falar:
Lancelot e Warth não retornaram de sua missão em Blanchemans... Eles estão mortos!
Mortos? Como assim? Arthur gritava, ainda sem conseguir aceitar o que acabara de ouvir.
A nau em que partiram chegou ao Logres com o corpo dos dois já sem vida.
Malditas bruxas! Arhur bateu na mesa com toda a raiva elas irão pagar por todo o sangue que derramaram.
Guinevere assistira ao diálogo impassível. Por um momento, perguntou a si mesma se ainda restava algo de humano dentro de si, já que por mais triste que a notícia tivesse sido, não a emocionou o bastante a ponto de perder a razão.
Arthur decretou luto oficial, e logo providenciou o funeral de seus guerreiros. Fez questão que os representantes de Roma celebrassem a missa. Uma multidão se aglomerou em torno da celebração fúnebre, como se toda Camelot houvesse se reunido para chorar a morte de seu maior guerreiro.
Lancelot foi um homem digno! discursou Arthur um cavaleiro como nenhum outro, que sempre serviu ao seu reino de forma digna. Lutou como niguém pelo sonho de um reino justo, e que toda a Inglaterra se unisse sob um mesmo rei. Se estamos aqui hoje, devemos muito a Lancelot! Pode ter cometido alguns erros, mas foi o melhor e mais leal amigo que tive! E aqui, sob seu túmulo, juro que Camelot não descansará até que sua morte seja vingada, e seus assassinos julgados pela lei do reino e pela lei de Deus!
O povo todo se emocionou entre aplausos e lágrimas. A única destoante era Guinevere, que permaneceu imóvel ao lado do rei, o olhar vazio, perdido. Entre os populares, boatos correram de que a Rainha Santa iria fazer um milagre e ressucitar Lancelot, mas aos poucos a multidão foi se dispersando, e o boato acabou no esquecimento.
A janta foi silenciosa e melancólica, ninguém conseguiu trocar mais do que poucas palavras. Assim, logo que a noite caiu, Guinevere recolheu-se aos seus aposentos.
O sono demorou a chegar, e veio intranquilo, constantemente interrompido. Até que finalmente a rainha adormeceu, e sonhou.
No sonho, estava em um gigantesco gramado, com um verde quase reluzente. O céu era azul, sem nuvens, e o sol brilhava com todo o seu esplendor. Ela estava vestida de branco, e, à sua frente, encontrou Lancelot ajolelhado.
Minha rainha, aqui estou em sua presença pela última vez.
Lancelot... O que houve, afinal?
Arthur foi traído, mais uma vez. E desta vez, eu paguei com meu sangue para defendê-lo ele levantou, e olhou nos olhos de sua antiga amante.
Será esta a sina de nosso rei... Ser traído por todos que o cercam?
Minha senhora, infelizmente contribuímos muito para a sina de nosso estimado Arthur!
E como me arrependo disso... Cobro-me todos os dias por ter sido tão fraca, e agradeço ao Nosso Senhor Jesus Cristo por ter sido perdoada.
Arthur é um bom homem, e um bom rei. Sinto orgulho de ter morrido para defender seus ideais. Mas não me arrependo do que fizemos, minha senhora.
O que me dizes? Guinevere agora deixara de encarar Lancelot o que fizemos foi muito errado, cedemos à tentação da carne...
Não da carne, mas do coração! Nós nos amamos, minha rainha, e mesmo sendo este amor proibido, o que vivemos e sentimos foi honesto e verdadeiro. Ninguém pode nos culpar por isso. Por muito tempo, achei que havíamos errado, mas em meus últimos momentos, tudo em que consegui pensar foi em quando estivemos juntos.
Recuso-me a aceitar isso... Não me atormemente agora que finalmente encontrei a paz ela suplicava, mas sem convencer a si mesma.
Peço que me perdoe se te magoei alguma vez, mas agora vim aqui só para poder me despedir.
Ambos se olharam, juntaram suas mãos, e se beijaram. Um longo beijo, que vale por uma vida inteira.
Logo Guinevere acordou. Ainda era noite, e estava sozinha em sua cama. Tudo não passara de um sonho. Foi quando se deu conta de que nunca mais veria Lancelot, e que ficaria só pelo resto de sua vida. Foi então que, pela primeira vez em muitos anos, a rainha Guinevere chorou.

"Se pudéssemos limpar as portas da percepção, tudo se revelaria ao homem como é: infinito. Pois o homem fechou-se em si mesmo, e agora vê todas as coisas pelas frestas de onde vive enfurnado."
William Blake
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